Você está aqui: Página Inicial / Revista / As pedaladas de Alckmin / Céus e infernos de Vieira
Número 883,

Cultura

Música

Céus e infernos de Vieira

por Alvaro Machado — publicado 14/01/2016 05h00
Profunda experiência musical envolve as palavras de fogo do pregador lisboeta
Bruno Veiga
Anna Maria Kieffer

A musicóloga e cantora Anna Maria Kieffer mescla os sermões de Vieira com sonoridades diversas

O ouvinte conhece uma espécie de antecâmara do inferno para, então, alcançar as raias da beatitude. Esses os sentimentos antitéticos conciliados na experiência musical Antonio Vieira (Akron, produção Cult). Ao inferno somos lançados, neste grande teatro sonoro, pela música eletroacústica que provê a “tela de fundo”, espécie de ambiência cinematográfica saturada, na qual se agitam as palavras de fogo do pregador lisboeta, a desenhar o Novo Mundo dos Seiscentos, a um só tempo paraíso de inocência e ninho dos mais antigos vícios. 

Desde Marília de Dirceu (1994), a musicóloga e cantora Anna Maria Kieffer realiza CDs-livros sobre a história musical brasileira municiados de ricas pesquisas. Desta vez, da ideia inicial e seleção de seis magníficos sermões de Vieira pelo professor Joaci Pereira Furtado,  Kieffer convidou o compositor Vanderlei Lucentini para a música eletroacústica e o maestro Vitor Gabriel, do Coro de Câmara da Unesp, para adequar modos de cantos gregorianos a essa autêntica paisagem sonora.

Com o sotaque luso do ator Luís Lima Barreto, escutamos o bom padre a defender a compreensão das culturas indígenas pelo branco (Sermão do Espírito Santo), a admoestar os governantes de enforcar o pequeno ladrão apenas para roubar melhor (Sermão do Bom Ladrão) e a louvar a “dupla função da visão”, de ver e chorar (Sermão das Lágrimas de São Pedro). O oratório profano encerra-se com pajelança tupinambá recolhida por Jean de Léry no século XVII, aliada a fragmentos de cantos caiapós tomados nos anos 1970.