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Número 883,

Internacional

Oriente Médio

Arábia Saudita: como inventar uma guerra

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 18/01/2016 05h34
A família real saudita corre o risco de mostrar ao mundo que seu país e não o Irã é a maior fonte de instabilidade na região
Salman

O rei Salman luta para sabotar uma paz que o ameaça (AFP)

Como começou? Oficialmente, com a decapitação de 47 supostos terroristas pela Arábia Saudita no primeiro dia de 2016.

A maioria deles era de sunitas (inclusive um egípcio e um chadiano) acusados de participar de atentados da Al-Qaeda na década passada, mas quatro eram sauditas xiitas que participaram dos protestos de 2011 e 2012 e um deles o xeque Nimr al-Nimr, o mais popular líder religioso dessa comunidade no país.

Muitos jornais, inclusive o Guardian, erroneamente descreveram Al-Nimr como iraniano, mas ele nasceu e fez carreira religiosa em Al-Awamia, cidade saudita da Província Oriental, onde os xiitas são maioria. Estudou religião no Irã e na Síria e foi discípulo dos Grandes Aiatolás iraquianos Al-Shirazi e Al-Modarresi.

Crítico constante das monarquias de seu país e do Bahrein (onde a maioria xiita é governada por uma elite sunita respaldada pelos sauditas), em 2008, conforme vazamento do WikiLeaks, procurou diplomatas estadunidenses em Riad para convencê-los de que não era um agente iraniano e considerava o imperialismo dos EUA mais benigno do que o europeu e um aliado potencial dos xiitas, que considerava mais inclinados à justiça e liberdade.

Em 2009 chegou a defender a secessão da região xiita (onde está a maior parte do petróleo saudita) se os direitos de seu povo continuassem desrespeitados. 

Quando vieram os protestos da Primavera Árabe, Al-Nimr apoiou os jovens manifestantes reprimidos a tiros pela polícia, e em julho de 2012 foi preso.

Al-Nimr
A condenação e execução de Al-Nimr foram injustas, afirma a Anistia Internacional (SPA/AFP)
O governo saudita alega que seu grupo resistiu à prisão e disparou contra os policiais (o xeque recebeu um tiro na perna), mas as principais acusações pelas quais foi condenado à morte, documentadas por sermões e entrevistas, foram “desobediência ao governante”, “incitação à luta sectária” e “encorajamento, condução e participação de manifestações”.

Segundo a Anistia Internacional, as declarações enquadram-se nos limites da liberdade de expressão e em nenhuma delas havia incitação à violência. Depois de um julgamento declarado injusto pela organização, foi condenado à morte em outubro de 2014.

Desde então, comunidades xiitas de todo o mundo, não só no Oriente Médio, mas também na Nigéria, Afeganistão, Paquistão e Europa fizeram frequentes protestos contra a condenação, que foram ignorados. Alguns sunitas os apoiaram, inclusive a Frente Popular de Libertação da Palestina e a organização do clero sunita iraniano.

A execução, como era de se esperar, provocou mais protestos e no Irã uma multidão furiosa atacou a embaixada saudita com coquetéis Molotov e outra tentou o mesmo no consulado em Meshed, no nordeste do país, onde foi contida pela polícia.

Esses excessos, condenados pelo general Mohsen Kazemeini, comandante da Guarda Revolucionária em Teerã e representante da linha-dura, serviram de pretexto para o rompimento de relações diplomáticas pela Arábia Saudita e pelo Bahrein, cujo rei se sustenta nos tanques sauditas.

Os voos e laços comerciais com o Irã foram suspensos e os súditos proibidos de visitá-lo, embora o chanceler saudita tenha esclarecido que os iranianos ainda poderão peregrinar a Meca. União dos Emirados Árabes, Sudão, Kuwait, Catar e Jordânia retiraram seus embaixadores de Teerã em solidariedade a Riad, sem chegar ao rompimento definitivo. 

ISIS
Sem exagerar muito, Khamenei publicou uma charge para mostrar que a diferença entre EI e sauditas é quase só de estilo (Reprodução)

Os governantes iranianos, mesmo se lamentaram o ataque à embaixada e prometeram punir os responsáveis, criticaram ferozmente o regime saudita pelas execuções. O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, advertiu a monarquia saudita para o castigo divino que haveria de apagá-la das páginas da história, em termos semelhantes aos outrora usados pelo ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad contra Israel.

Não só isso, como publicou em seu site uma charge na qual expõe a semelhança entre o Estado Islâmico ou “ISIS negro” e a Arábia Saudita ou “ISIS branco”, comparação popularizada em novembro pelo escritor e jornalista argelino Kamel Daoud com um artigo de opinião no New York Times.

Com efeito, um e outro impõem o mesmo fundamentalismo sunita e decapitam infiéis e inimigos, embora um seja oficialmente um inimigo do Ocidente e o outro, seu aliado. O presidente Hassan Rohani, um moderado, acusou o regime saudita de criar uma crise diplomática para encobrir seus crimes.

Vale ressalvar que, embora proporcionalmente à população a diferença não seja tão grande, o Irã é notório por aplicar a pena de morte com frequência ainda maior. Quase sempre por crimes comuns, mas também a alguns sunitas acusados de terrorismo.

Ao menos em tese, nunca por protestos não violentos (oposicionistas afirmam que acusações de outros crimes são forjadas como pretexto) e nenhum caso é de perfil tão alto quanto o xeque Al-Nimr.

As chancelarias da Rússia, China, Canadá, União Europeia, Alemanha e França criticaram as execuções, mas EUA, Reino Unido e Espanha, que não pensaram duas vezes antes de denunciar a Venezuela pela prisão de dois oposicionistas, calaram-se sobre as decapitações em massa sauditas e um ex-embaixador britânico em Riad chegou a declarar ao Guardian que “algumas delas foram compreensíveis”.

O governo do rei Salman, obviamente, sabia não ser essa uma mera questão interna, e sim uma provocação ao Irã e a seus aliados, à qual provavelmente acrescentará outras. Por exemplo, a execução já prevista de Ali al-Nimr, sobrinho do xeque, que tinha  17 anos ao  “encorajar protestos pela democracia usando um BlackBerry”, nos termos da sentença. Por quê? 

Rohani
A meta do presidente Rohani é tirar seu país do isolamento (Atta Kenare/AFP)

Para os sauditas e seus aliados, principalmente os pequenos reinos e emirados do Golfo Pérsico, mas também países dependentes de seus petrodólares como o Egito e o Sudão, o Irã é uma ameaça existencial. Não por ser uma ameaça militar, nem por uma suposta hostilidade milenar entre sunitas e xiitas, mas por seu relativo sucesso como República Islâmica.

As diferenças culturais e religiosas não permitiriam um transplante direto do sistema iraniano, mas o risco de a ideia de varrer os privilégios das corruptas famílias reais e seus agregados com uma república islâmica de caráter nacional e popular pode atravessar o Golfo é reconhecido desde a revolução de 1979 e foi reavivado pela Primavera Árabe.

Pelo menos desde a invasão anglo-americana do Iraque, em 2003, tanto a Arábia Saudita quanto seu criptoaliado Israel esperavam ver o Irã ser alvo de uma invasão para “mudança de regime” ou de um bombardeio capaz de “apagá-lo da história” de maneira não simbólica, mas concreta, ao menos como nação emergente capaz de manter uma indústria razoável, Forças Armadas respeitáveis e um programa nuclear e aeroespacial sério.

Em 2010, Benjamin Netanyahu chegou mesmo a ordenar um ataque, não efetuado porque o Mossad e as Forças Armadas se recusaram a executar seus planos sem respaldo de Washington.

Entretanto, com a eleição de um governo mais moderado no Irã e a irrupção do Estado Islâmico, que fez o fanatismo sunita de raízes sauditas fugir do controle, os EUA acabaram por se reaproximar do Irã.

Este negociou um acordo nuclear com as potências ocidentais, as sanções que lhe foram impostas estão a caminho da suspensão e a Rússia prestes a lhe fornecer mísseis antiaéreos de última geração. Mais que isso, EUA e Europa começam a reconhecer Teerã como um interlocutor indispensável para controlar os conflitos do Oriente Médio.

Jumbo-Bin-Talal
O Jumbo particular do príncipe Bin Talal, exemplo do luxo da elite saudita (Waseem Obaidi/Bloomberg/Getty Images)

Para os sauditas, é péssimo, ainda mais após a intervenção russa na guerra civil síria reverter a expectativa de uma vitória iminente sobre Bashar al-Assad e a intervenção saudita contra a insurreição xiita no Iêmen resultar em uma guerra civil prolongada e dispendiosa.

Talvez ainda mais decisiva seja a previsão de alguns analistas de que o retorno pleno do Irã ao mercado de petróleo ocidental pode baixar para 10 dólares por barril o preço do petróleo hoje em 35 dólares. Patamar historicamente já baixo por iniciativa de Riad, que deflagrou uma guerra de preços para tirar produtores de alto custo do mercado, aumentar sua fatia e prejudicar seus rivais russos.

Assim como seu apoio ao fundamentalismo é uma estratégia que está saindo de seu controle e pode se mostrar autodestrutiva. Concorrentes como Rússia e Irã, com economias mais diversificadas, podem se adaptar melhor no longo prazo.

Com as execuções, além de intimidar potenciais manifestantes e dissidentes no reino, os sauditas esperam atiçar o caos, sabotar a reaproximação e, se possível, provocar o Irã a retaliações diretas que obriguem as potências ocidentais a atacá-lo, contando com o guarda-chuva nuclear de Washington para protegê-los das piores consequências. Pode ser sua última chance de recuperar o controle da situação.

Petróleo
A queda das cotações põe em risco a ostentação dos sauditas ricos, a paciência do povo e a estabilidade (Marwan Naamani/AFP)

 

As Forças Armadas sauditas, reforçadas por anos de petróleo caro e pela ansiedade das potências ocidentais por vender armas, estão no auge, mas podem entrar em declínio à medida que essas condições se revertem. O mesmo se pode dizer de sua influência financeira sobre outros países árabes e talvez até de sua estabilidade interna.

Enquanto na maior parte do mundo o petróleo barato permitiu baixar os preços dos combustíveis, na Arábia obrigou o governo a aumentá-los 50% em janeiro. Se isso se prolongar, empregos públicos, hospitais gratuitos, água e eletricidade subsidiadas, empréstimos sem juros, altos salários no setor público e inexistência de impostos estarão em risco, assim como a lealdade dos súditos.

Cinco anos de petróleo a menos de 50 dólares por barril (sem falar em guerras) podem esgotar as reservas do reino, e se este cobrar impostos, o povo pode se sentir no direito de exigir participação política e rebelar-se. Como a Venezuela, a Arábia Saudita pode ver sua estabilidade e influência internacional se derreterem. 

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As iranianas têm do que se queixar, mas vivem com mias liberdade e direitos que as sauditas (Jochen Eckel/AFP e Fayez Nureldine/AFP)

Enquanto isso, os sauditas se arriscam a esgotar a paciência dos EUA e da União Europeia. Há sinais de desgaste na relação, assim como também acontece com Israel. O reino ainda goza de um tratamento privilegiado, mas as denúncias do fundamentalismo e do autoritarismo sauditas aparecem com mais frequência.

Ainda que de forma reservada, Washington está insatisfeita com a falta de cooperação dos sauditas (e israelenses) com suas tentativas de estabilizar o Oriente Médio, inclusive no caso das execuções. Ao contrário do que Riad provavelmente esperava, o escarcéu pela depredação da embaixada saudita ficou por sua conta e dos seus satélites.

EUA e Europa trataram o caso como incidente menor e não o usaram (e nem os testes de mísseis iranianos) como pretexto para suspender ou cancelar o acordo nuclear. A Turquia ficou neutra e a Rússia viu no caso uma oportunidade para oferecer mediação e aumentar sua projeção no Oriente Médio.

O reino saudita se pôs numa situação insustentável, em que sua estabilidade interna depende do pandemônio externo. Por bem ou por mal, o mundo está assumindo o compromisso de reduzir sua dependência do petróleo para conter o aquecimento global, necessidade que se mostrará cada vez mais gritante a cada ano de catástrofes climáticas. A monarquia pode vir a descobrir que não é tão indispensável quanto pensa.

*Reportagem publicada originalmente na edição 883 de CartaCapital, com o título "Como inventar uma guerra"