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Número 882,

Sociedade

Quentes trópicos

O pecado abunda no motel do mundo virtual

por Reinaldo Moraes — publicado 12/01/2016 05h33
A barafunda hipersexualizada da internet mandou para o beleléu neste fim de ano duas “revistas masculinas”
AFP
Calabar

Não existe pecado do lado de baixo do Equador (Chico Buarque e Ruy Guerra, em Calabar)

–Fala! - intima o poeta, letrista, grande produtor e agitador cultural Wally Salomão, tendo ao fundo uma provável floresta amazônica. 

A pessoa intimada por Wally é uma mulher que aparenta ser de algum tipo de classe média não muito alta do Norte do País, simpática, bem fornida de carnes e sorridente. A sequência que narro está no filme Pan-Cinema Permanente (2008), de Carlos Nader, um documentário sensacional sobre Wally Salomão, feito cinco anos depois da morte do poeta. 

Como Wally, a mulher tinha acabado de descer de uma Kombi com vários passageiros bem diante de uma placa fincada à beira de uma estrada lamacenta, indicando o Hemisfério Norte, pra cima, e o Hemisfério Sul, pra baixo, com setinhas. E é rindo que ela responde ao poeta:

– Mas, eu vou falar o quê?

– Fale da sua emoção de estar diante da placa que demarca a linha do Equador!

– Não, eu tenho muita vergonha - responde a mulher.

– Tem muita vergonha de estar na linha do Equador?! - retruca Wally, performático como nunca.

– Você não sabe que não existe vergonha abaixo da linha do Equador?

Inflamado, o autor das letras de alguns clássicos da MPB, como Vapor Barato, e de aclamados volumes de poesia (Gigolô de Bibelôs, por exemplo), explica à sua companheira de viagem que os cronistas e viajantes da época colonial, ao verem os índios peladões sob a “luz crua” dos trópicos, acreditavam no que mais ou menos diziam as bulas papais expedidas para justificar a infrene exploração colonial dos povos primitivos pelas metrópoles europeias: “Não existe pecado do lado de baixo do Equador”.

Barlaeus
Barlaeus, historiador do império holandês no Brasil, chamava isso de "vício" (Giannni Dagli Orti/AFP)

Caspar Barlaeus, teólogo holandês do século XVII que escreveu História do Império Colonial Holandês no Brasil, sobre o período em que Maurício de Nassau sentou praça em Pernambuco, acreditava que, por aqui, tudo se passava como “se a linha que divide o mundo em dois hemisférios também separasse a virtude do vício”. 

Se isso é verdade, vivemos todos, os brasileiros, chafurdando no vício, uma vez que o nosso país se situa quase todo abaixo da linha do Equador, que atravessa a calha norte do território nacional, passando pelo norte do Amazonas, sul de Roraima, norte do Pará e sul do Amapá. Nesse último estado, aliás, a mítica linha imaginária passa por Macapá, a única capital brasileira que pode se orgulhar de ser dona de um trechinho dela.  

Vale lembrar que o estádio de futebol local, o Zerão, tem um campo cuja divisória central foi desenhada bem em cima da linha do Equador, criando uma situação de alto poder alegórico das ambiguidades morais brasileiras, pois, ao se confrontar, os dois times se alternam obrigatoriamente nos campos da “virtude” e do “vício”.

Folclore futebolístico e historiográfico à parte, porém, o fato é que, no mundo pós-colonial e pós-internético, essa linha divisória, de caráter geopolítico, se deslocou para uma dimensão extraterritorial, embora não haja carnaval no velho patropi em que a galera não rebole ao som do clássico frevo composto por Chico Buarque e Ruy Guerra no começo dos anos 70 para a peça Calabar, o elogio da traição, assinada por ambos, e que começava justamente com Não existe pecado do lado de baixo do Equador...

Hoje, a verdadeira linha que separa a virtude do vício – ou o sexo domesticado da fornicação desbragada – é a mesma que separa o mundo real da barafunda hipersexualizada da internet, na qual o pecado abunda (e axota e apica), livre, solto e sem limites, como já estamos cansados, mas nunca saciados, de saber.

Maite-Proença
Maitê Proença, vítima do desvairio erótico online (AFP)

Não por outra razão, ao menos duas “revistas masculinas”, que por décadas prodigalizaram seus leitores com fotos de moças desnudas ou com pouquíssima roupa, foram pro beleléu neste fim de ano: a Playboy e a Status, e nesta última mantive uma coluna sobre sexo durante quatro divertidos anos. Diante da concorrência desbragada da putaria internética, nem o ótimo conteúdo editorial das duas publicações deu conta de segurar um contingente mínimo de pecadores, digo, de leitores, para se manter economicamente viáveis em tempos de crise braba – prova de que seu grande apelo era mesmo o erótico, não o jornalístico. 

Essa foi a principal razão alegada pelos editores para fechar as duas revistas, embora eu, cá do meu recatado canto, continue pensando que o leitor de uma revista como a Playboy ou a Status queria ver pelada não qualquer mulher, mas sim aquela já vista de roupa na telenovela, no cinema, na propaganda, na capa das revistas não eróticas, no programa de calouros, no reality show, e sabe-se lá mais onde. Porque, não é exatamente na nudez, mas no desnudamento que, a meu ver, mora o xis da questão.

Lembro, a propósito, a observação do grande etnógrafo potiguar Câmara Cascudo, de que, nas sociedades urbanas, as pessoas sempre se apaixonam vestidas, embora desejem se ver em pelo na primeira oportunidade. A roupa seria, pois, a antessala do pecado rasgado, suado, a todo vapor, donde seu alto prestígio como fator de sedução erótica.

Já na internet, terreno supraequatorial para onde se mudaram de mala e cuia os pecadores do planeta, a mais escancarada nudez vem pronta para consumo, sem deixar espaço para a imaginação desejante. Mas vá você brandir esse argumento diante da libido imediatista dos nossos contemporâneos, abaixo ou acima do Equador, os quais, em dois cliques de mouse, obtêm com que se lambuzar de pecado virtual até o enjoo.