Número 882,

Sociedade

Papinho Gourmet

O desabafo dos bichos

por Marcio Alemão publicado 09/01/2016 20h55, última modificação 09/01/2016 20h55
Alguns disseram que foi a turma da Primeira Vara que convocou a reunião
Eric Isselée/iStockphoto

Alguns disseram que foi a turma da Primeira Vara que convocou a reunião.

Na ata de convocação eles se diziam indignados e ofendidos com a maneira que estavam sendo vistos, tratados e exigiam que medidas fossem tomadas. Vá lá que o caráter de urgência não fosse possível de ser atendido. Porém, providências imediatas que lhes assegurassem um futuro menos devastador estavam na ordem do dia.

Comum é, foi e será, quando um grupo se une em torno de uma causa, que outros também o façam, aproveitando o calor da refrega.

Retomando, pois, convém esclarecer que a vara citada era a de porcos. Porcos organizados, sindicalizados, inspecionados e todos com S.I.F.

A Primeira era uma das mais politizadas e, portanto, polêmica.

No dia e hora marcados, todos estavam lá: varas, rebanhos, tropas, matilhas, fatos, récuas, cambadas, chafurdeiros, bandos, a expressão quase total do coletivo animal que se relaciona com o coletivo urbano.

Pediu a palavra o presidente da citada vara, um belo Canastrão.

– Para quem ainda não me conhece, sou um canastrão que tem muito orgulho de fazer parte desta terra onde em se plantando tudo dá e mais orgulho ainda por descender da nobre casta Bizarra, que por aqui chegou pouco depois das caravelas. 

Na plateia, um mico-estrela gozador cutucou o coelho ao seu lado:

– Fala sério! Um canastrão de origem Bizarra?

Prosseguiu o canastrão com seu discurso.

– Ocorre que, de uns tempos pra cá, a nossa vida tem ficado esquisita. Meus filhos passam horas em terapia, tentando entender por que existem, para que existem, se são úteis ou nocivos.

– O colega tocou num ponto de suma importância. Quem se lembra dos tempos da saudosa cartilha, quando os humanos ainda se serviam de métodos singelos para proporcionar educação aos seus filhotes? Na letra P, éramos nós que lá estávamos, simpáticos, sorridentes, fofinhos. Dizia a mestra “com Pê escrevo porco”. 

– O amigo Pereira tem razão em externar essa tristeza porque, hoje, com pê eles escrevem Painço, Pimentão, Plânctons, Proteína...

– De preferência, vegetal!

Caracol
(iStockphoto)

Mais uma vez o mico-estrela cutucou o coelho.

– Fala sério! O colega do canastrão se chama Pereira?

– Pereira, esclareceu o coelho, é uma das raças brasileiras de suínos.

Canastrão seguiu falando e, nesse ponto de seu discurso, uma emocionada observação.

– Avançando nos anos, em maiores bancos escolares, aprendiam as alegres crianças que nós éramos úteis! De nossa existência quase tudo se aproveitava.

– Também nós pudemos compartilhar dessa honra, mandou lá do fundo um belo exemplar de Zebu. Até nossos chifres eram aproveitados para fazer pente.

– Vou além, prosseguiu Canastrão, e vou lembrá-los de que houve um tempo no qual nós fazíamos parte da lista dos animais saudáveis, proveitosos. Não éramos nocivos.

– Nocivos como a formiga, que hoje anda por aí com ares de prima-dona.

– E que culpa tenho eu se o mundo se sofisticou? – defendeu-se a saúva.

– Por Deus! Se alguns equivocados canastrões – não os da minha família, claro – da cozinha, decidiram alçar você e seus pares à categoria de alimento sofisticado, que culpa os pobres humanos têm?

– A verdade é que vocês pegaram pesado – interferiu de maneira pouco sutil um frango orgânico. 

– Quem deu a esse penado subnutrido o direito de proferir palavra?

– Subnutrido porque optei em ficar limpo, sem bolas? 

– O franguinho já tá começando a falar demais e isso tá me deixando bem aborrecido.

O pobre orgânico foi cercado por alguns chesters bombadaços e o clima pesou.

– Já deu pra entender. Cada um tentando defender o seu curral, o seu pasto, a sua gaiola. E quanto a nós, avestruzes? Vocês sabem o que significa estar no topo, figurar em todos os menus de degustação, aparecer em programas como o do Amaury Jr., da saudosa Hebe; estar no cardápio da Ilha de Caras e assim, de repente, do nada, você deixar de existir?

O desabafo do avestruz foi sentido por todos.

– O amigo tem razão. A dor do esquecimento é dura de engolir. Mas, se isso lhe serve de consolo, nosso cardume veio até aqui justamente para pedir um pouco de paz. Nós, salmões, estamos perdendo a nossa identidade. A exemplo do Canastrão que se orgulha de sua origem Bizarra, também nos lembramos de nossos distantes irmãos vencendo as corredeiras e os astutos ursos para depositar as ovas que perpetuariam nossa espécie. Hoje, a nossa aventura resume-se a ir de um lado para outro em um tanque com ração cor-de-rosa. E o mais triste: terminamos nossa vida sobre um bolinho de arroz sem graça, afogados num molho salgado.

A partir desse depoimento, a choradeira parecia não ter mais fim e, fato é, todos tinham bons nacos de razão, incluindo um pequeno grupo de escargots que havia chegado cinco dias antes e conseguiu alcançar o púlpito para dizer que estavam pensando em deixar o país. Nem mesmo um bom negócio eram mais. A eles juntaram-se as codornas e relembraram que foram, durante um áureo período, uma excelente alternativa para aposentados que iam viver em suas chácaras e queriam um ganho extra.

Alguns coelhos se confessaram resignados com a sempre baixa demanda por seus atributos, ainda que todos os nutricionistas e doutores os recomendassem.

– Nós somos muito fofos, esse é o problema.

O Zebu verteu lágrimas ao ler um artigo que colocava seu glorioso cupim no mesmo nível de ameaça à vida humana que um soldado do ISIS transtornado.

O ânimo que tomou conta do início da reunião foi arrefecendo, até que tudo era só melancolia.

O peru, que até então não havia se manifestado, subiu no púlpito e avisou que havia escapado da degola. Ele e mais um bando. E a boa notícia: haviam roubado a cachaça que às suas carnes sabor emprestaria.

– E se a gente caísse de bico, boca e beiço na branquinha?

A proposta foi aceita por aclamação. Encheram a cara e concluíram: “Talvez os humanos tenham decidido seguir o nosso exemplo e estão se tornando vegetarianos”.