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Número 881,

Internacional

França

O extremismo derrotado na França

por Gianni Carta publicado 19/12/2015 11h21, última modificação 19/12/2015 08h39
Sarkozy e Hollande unem-se contra a Frente Nacional de Marine Le Pen
Yves Herman/Reuters
Marine-Le-Pen

Le Pen ficou sem nada no segundo turno

De Paris

"A classe política precisa reinventar-se”, disse Xavier Bertrand, direitista dos Les Républicains após vencer a candidata da legenda xenófoba Frente Nacional no segundo turno das eleições regionais de domingo 13. Marine Le Pen havia angariado 40,5%, a maioria, no primeiro turno, sete dias antes, na importante região industrial de Nord-Pas-de-Calais-Picardie.

Ex-feudo socialista, o polo enfrentou uma desindustrialização, o desemprego subiu e os operários foram seduzidos pelo discurso islamofóbico, contra a migração e favorável à volta do franco francês e de uma França independente da União Europeia.

Diante do tsunami lepenista (a Frente Nacional, com 29%, foi a legenda mais votada nacionalmente), o Partido Socialista retirou seu candidato do páreo no segundo turno em Nord-Pas-de-Calais-Picardie. Assim, cerca de 70% dos socialistas votaram nos Républicains. Resultado: Bertrand recebeu 57% dos votos, contra os 42,8% de Le Pen. 

A mesma tática eleitoral de retirar o candidato socialista, em terceiro no primeiro turno das regionais, foi aplicada na Provence-Alpes-Côte d’Azur. Lá a deputada Marion Maréchal-Le Pen, sobrinha de Marine de 26 anos, e na dianteira no primeiro turno, foi derrotada pelo prefeito de Nice, Christian Estrosi, que obteve mais de 54% dos votos.

Os Républicains, do ex-presidente Nicolas Sarkozy, venceram em sete regiões. Os socialistas conquistaram as restantes. A reviravolta foi extraordinária, pois Marine Le Pen havia triunfado no primeiro turno em 6 das 13 regiões, na primeira vitória de âmbito nacional da Frente.

É preciso entender, contudo, o contexto do primeiro turno. Nunca uma eleição havia sido realizada em uma França sob Estado de Emergência e ainda atônita por causa dos ataques terroristas de três semanas antes.

François Hollande voltou a ser um presidente neossocialista popular. Diz o filósofo Robert Redeker: “Ele portou-se à altura dos acontecimentos”. Da mesma forma como havia se portado em janeiro, quando 17 cidadãos foram mortos por jihadistas em Paris.

Desta feita, o presidente foi aplaudido por significativa fatia da população por ter declarado guerra contra o Estado Islâmico. Uma guerra parecida com outras perdidas pela coalização ocidental liderada pelos Estados Unidos, incluídas aquelas no Afeganistão, Iraque, Síria e Líbia. Mas sua popularidade tende a despencar passada a comoção pelos ataques.

Mais eficaz em termos de segurança é o discurso de Marine Le Pen. Ao tomar a liderança do pai, quatro anos atrás, ela atenuou, ou ao menos escamoteou, o extremismo do partido. Encerrou a narrativa antissemita. Afirmou que o pai errava ao negar o Holocausto.

Nicolas-Sarkozy
Os Républicains de Sarkozy venceram em 7 regiões (Pascal Pochard-Casabianca/AFP)

 

Sua retórica voltou-se então contra muçulmanos e imigrantes. Seu discurso é claramente racista, embora os terroristas de 13 de novembro não discriminassem entre muçulmanos, judeus e católicos.

Na seara econômica, Le Pen promete apoio aos menos favorecidos, em sua maioria trabalhadores outrora esquerdistas. O desemprego na França é de 10,5% e ultrapassa esse índice entre os menores de 25 anos. 

A menos de 18 meses das eleições gerais de 2017, Le Pen continua uma candidata forte. Tanto Hollande quanto Sarkozy levam a ameaça lepenista a sério. Em seu primeiro discurso, o presidente francês disse: “Evitamos uma guerra civil”.

Em miúdos, apesar da tática de retirar os candidatos socialistas ao norte e ao sul, a França continua dividida. A Frente Nacional angariou 6,8 milhões de votos no segundo turno, ou 400 mil a mais do que na disputa presidencial de 2012.

Não ter conquistado uma única região após o primeiro turno foi um golpe duro para Le Pen, mas ela usa esse resultado como exemplo de que, quando em apuros, os partidos da elite se fecham em copas.

Le Pen faz o papel de vítima. Fala em calúnia. Ataca as elites “que não entendem o povo”, e “roubam propostas da FN”. Mas acrescenta em todas as suas aparições, “a marcha da FN é inexorável”.

Sarkozy, ao menos em termos de porcentuais, pode ser considerado o vencedor das eleições. Os Républicains esperavam, no entanto, vencer em todas as regiões, a exemplo dos Socialistas nas disputas de 2010, dois anos antes da vitória de François Hollande na eleição presidencial.

Por consequência, há dúvidas sobre as táticas eleitorais de Sarkozy. Ele se posiciona contra a imigração e o Islã, na mesma linha da Frente Nacional. O ex-presidente crê no discurso direitista e, assim, se afasta do centro. Seria um erro?

Por sua vez, Hollande surfa uma onda de relativa popularidade, embora não se saiba até quando. O fato de o PS ter vencido cinco regiões reafirma sua posição no tablado político nas eleições de 2017. O Partido Socialista agiu com sabedoria política ao retirar os candidatos em duas regiões.

Hollande
O PS de Hollande abriu mão de candidaturas a favor da legenda de Sarkozy (Philippe Wojazer/Reuters)

 

Tanto o PS quanto os Républicains fizeram uma campanha incessante contra a Frente Nacional às vésperas do segundo turno. Jean-Christophe Cambadélis, líder do PS, alertou os franceses sobre as vicissitudes da FN: se antes eles eram antissemitas em Vichy, agora podem voltar sua luta contra os muçulmanos.

Apesar da derrota da Frente Nacional, as eleições regionais não devem servir de parâmetro para as presidenciais, dizem analistas. O tablado político é uma colcha de retalhos. Os discursos de Sarkozy não diferem daqueles de Le Pen.

E uma série de eleitores das duas legendas parecem concordar sobre vários temas. Escreveu Louis Maurin, diretor do Observatório de Desigualdades: um Partido Socialista “pronto a associar o liberalismo cultural ao econômico não tem nada de social-democrata”.

Hollande cogita revogar passaportes de franceses com nacionalidade dupla e simpatizantes do Islã radical. Uma velha ideia da FN, dos Républicains.

O premier socialista Manuel Valls concluiu no domingo 13: “Nesta noite não há motivos para alívio, para triunfalismos, e mensagens de vitória”. A extrema-direita permanece uma ameaça.