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Número 880,

Cultura

Exposição

Um elogio à linha

por Rosane Pavam publicado 18/12/2015 01h34, última modificação 18/12/2015 09h33
A história acompanha a geometria pelo acervo do Foto Cine Clube Bandeirante
German Lorca
Foto Cine Bandeirante

Cenas quotidianas ou padre na barca (1949), de German Lorca

Artista sensível à complexa delicadeza da composição, a curadora-adjunta do Museu de Arte de São Paulo (Foto Cine Clube Bandeirante, Museu de Arte de São Paulo. Até 20 de março de 2016) para a fotografia, Rosângela Rennó, afeiçoa-se às diagonais mais ou menos perceptíveis a caminhar em uma imagem, e também à história que baseou seu fazer. A beleza desta exposição está na sensibilidade da expositora para a luz e seus efeitos, registrados desde o início do Foto Cine Clube Bandeirante, em 1939, até os anos 1980. Em 2014, 275 de suas imagens foram cedidas em comodato ao Museu de Arte de São Paulo, e restava escolher o modo de mostrá-las na instituição, acrescidas de quatro outras, pertencentes aos artistas.  

Rennó soube colocá-las lado a lado cronologicamente, ano após ano de suas exibições pelo Brasil e pelo mundo, e valorizar o acervo por suas semelhanças e continuidades. No caso desta exposição, trabalhou com duas noções: a do arquivo de imagens construído com o tempo pelos fotoclubistas e a rede a que as fotografias estiveram expostas em salões, anotados a partir dos carimbos nos versos das imagens. Foto Cine Clube Bandeirante: Do arquivo à rede não exclui nada, não prioriza um German Lorca sobre Jacob Polacow, um Geraldo de Barros sobre Jerzy Reichmann, e há mesmo autores anônimos a carecer de quem os identifique. O importante, ela concluiu, era mostrar essa linha do tempo e as linhas nas fotos, a evolução de uma arte quando quase ninguém, no seu início, a via desse modo.

O suporte para a exposição emula a simplicidade original dos salões, indicados em um grande mapa nas paredes do primeiro andar do museu. No Bandeirante, como nos fotoclubes de todo o mundo (e nesta exposição localizam-se, por exemplo, até os asiáticos e africanos), os praticantes da fotografia tinham sua única escola, lá poderiam espelhar-se, evoluir. Há muita geometria nas fotos, que, intuitivas do que é moderno, ousam extrapolar a necessidade realista. Mas as figurações quase sempre estão lá, muito nítidas. Principalmente, surgem os movimentos e as formas da cidade, as feições raras, o passado a respirar por papéis fotográficos às vezes surpreendentes para os dias atuais, texturizados. E é quase uma pena que a luz do andar do museu tenha de ser diminuída para que as obras expostas se mantenham preservadas.