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Número 879,

Cultura

Papinho Gourmet

Paraty para o mundo

por Márcio Alemão publicado 13/12/2015 06h35
A melhor parte da cidade? Sem dúvidas, a cachaça
Reprodução
paraty e as cachaças

- Ele também sorri, pega uma caipirinha e tá tudo certo

–Já andei muito por este mundo.

– Também eu.

– Mas vou te dizer uma coisa: ninguém, nenhum povo, pelo menos a turma mais civilizada, sabe levar a vida do nosso jeitinho.

– Verdade pura. As pessoas são tensas.

– Parece que existe um compromisso no ar, parece que existe uma responsabilidade que envolve compromissos inadiáveis.

– E eles travam.

– Travam.

– Eu, semana passada, dei um pulo em Paraty.

– Que beleza!

– Vi pouco da cidade. Vi muito do chão. 

– Ali a opção mostra-se claríssima desde o primeiro passo.

– Mas deu pra ver muito desse assunto que mencionei.

– O nosso jeitinho.

– A nossa calma, a nossa certeza de que somos amados independentemente de nossa competência.

– O que um sorriso não é capaz de fazer!

– Em que outro lugar do planeta, famoso pelos predicados naturais, ponto de atração turística, você pode se dar ao luxo de ter funcionários em hotéis, pousadas e restaurantes que não falam outras línguas?

– Também isso já presenciei e de fato não faz muita diferença.

– Eu diria que os gringos até tentam.

– Mas desistem rápido.

– Depois de duas, três perguntas para as quais ele recebe como resposta três diferentes sorrisos...

– Ele também sorri, pede uma caipirinha e tá tudo certo.

– E os demais dias não serão diferentes. Aliás, serão melhores, porque o visitante nem mais vai precisar pedir. Ele é avistado de longe e em segundos já colocam um enorme copo de caipirinha em sua mão.

– A vida não fica mais fácil de ser levada dessa maneira?

– Vou dizer que existe tese que fala a respeito disso: o turista que tem de fazer mímica, apontar coisas, que tenta falar e só consegue pronunciar estranhos sons, valoriza muito mais sua estada.

– No caso nosso, esse sistema de comunicação ou de não comunicação corrobora com a imagem do país ainda em estado de desenvolvimento, a coisa do bon sauvage.

– Que é o que o camarada geralmente vem buscar por essas bandas.

– Agora, posso falar a melhor parte de Paraty?

– As cachaças?

– Semana que vem, as cachaças.