Você está aqui: Página Inicial / Revista / Frustração e vingança / Hollande se engana
Número 879,

Internacional

Análise

Hollande se engana

por Wálter Maierovitch publicado 10/12/2015 05h05
Secar as fontes financeiras do EI é tão importante quanto as ações da guerra declarada pelo presidente francês
Presidência da Rússia
François Hollande

François Hollande e Vladimir Putin, presidente da Rússia, discutem estratégias de combate ao EI

O presidente da França, François Hollande, promoveu reuniões no Eliseu com chefes de governo e realizou périplos a Moscou e Washington. A sua meta, depois da tragédia de 13 de novembro, era buscar aliados para a “guerra ao terror”, expressão de conotação populista, como a war on drugs inventada pelos Estados Unidos.

Dentro das fronteiras internas e salvo a troca de informações de inteligência, Hollande não quer ajuda para contrastar o terror. Na sua visão, precisa de aliados a fim de aumentar pelos céus os bombardeamentos e por terra as ações bélicas. O alvo é o autoproclamado califado do Estado Islâmico (EI), controlador de vastos territórios na Síria e no Iraque. Aliás, um califado distinto do original que, antes do cisma entre sunitas e xiitas, admitia a liberdade religiosa e onde conviviam muçulmanos, cristãos e judeus.

Hollande invoca o Tratado de Lisboa de 2007, cujo artigo 42, item 7º,  reza ser dever dos Estados da União Europeia dar ajuda e assistência ao país aliado vítima de agressão. 

A chanceler alemã, Angela Merkel, relutou em aceitar a proposta francesa, mas pragmaticamente reformulou seu entendimento, pois o fluxo de refugiados sírios na Europa estaria interrompido caso fosse liquidado o EI. No fundo, Merkel imagina um novo roadmap para a Síria e conhece as divergências entre os já aderentes à “guerra ao terror” de Hollande, quer sob o rótulo de coalizão, quer de ações coordenadas. Barack Obama e o próprio Hollande pretendem derrubar o tirano alauita Bashar el-Assad, isso num país de 74% de muçulmanos sunitas e apenas 12% de alauitas, pertencentes ao tronco imamita do Islã xiita.

Hollande conquistou a adesão de uma Turquia com 97,5% de sunitas e cujo premier, Recep Erdogan, é suspeito de armar o sunita Estado Islâmico. Mais ainda, de fazer vista grossa à entrada em território turco de contrabando de petróleo extraído de poços tomados pelo EI à Síria de Assad: o petróleo representa uma das fontes de receita dessa organização, ao lado de extorsões mediante sequestro, “pedágio” de comerciantes e doações, em especial as provenientes dos sunitas Catar e Arábia Saudita, esta inimiga declarada do xiita Irã.

Para complicar o quadro geopolítico, a Turquia acabou de abater um caça russo ao longo da fronteira entre Turquia e Síria, em local conhecido pela presença de rebeldes envolvidos na guerra civil síria. Em outro caso, a Rússia de Putin posicionou-se, igual faz a França, como vítima do EI, dado como responsável pelo atentado que provocou em pleno voo a explosão, em outubro, no sul do Sinai de um avião comercial russo. Putin quer exterminar o EI e manter no poder Assad, também apoiado pelo Irã. Enquanto Obama e Hollande, bem antes de 13 de novembro, forneciam armas e munições para os insurgentes sírios, o presidente russo é suspeito de mandar bombardear, a pretexto de atacar o Estado Islâmico, opositores do ditador sírio.

Nesse imbróglio, o EI consegue indiretamente golpear o Irã e isso ao atacar o libanês e xiita Hezbollah, destacado pelo Irã para atuar em território sírio em defesa de Assad. O Estado Islâmico, com controle de território, recursos financeiros, exército de jihadistas, propaganda e emprego de ciberterror, mostra disposição e musculatura para enfrentar a declarada “guerra”. Segundo estimativas feitas pela Reuters, a NBC e o jornal milanês Corriere della Sera, os seus ataques terroristas são baratos. O último atentado desfechado em Paris custou cerca de 7,5 mil euros, incluídos aluguéis de três automóveis e compras de Kalashnikovs. No momento, o EI não só inspira, mas financia futuros mujaheddin, sem prejuízo de incitar os “lobos solitários”, fanáticos a
atuar por conta própria.

O núcleo de produção de imagens e propaganda do Estado Islâmico está próximo à conquistada Alepo, segunda maior cidade síria. As produções, como visto nas difundidas decapitações, são sofisticadas, e jihadistas mortos em combate recebem maquiagem e os lábios ajeitados como se estivessem a sorrir felizes com o martírio. Esse núcleo é dirigido por Muhammad el-Adnani, 38 anos, e cabeça a prêmio por 5 milhões de dólares. Adnani teve papel fundamental nos ataques a Paris como elo do EI com Abdelhamid Abaaoud, líder do grupo (caçado pela polícia francesa e morto com sua prima em Saint-Denis), e Salah Abdeslam, que não se fez explodir e parece já se encontrar em terra síria.

Na tragédia de Paris, o Estado Islâmico demonstrou capacidade de articulação e condição de ofertar treinamentos a jihadistas na Síria. Pelos vídeos de propaganda, arregimentou 30 mil combatentes em 155 países. Até o Departamento de Estado dos EUA reconhece a força terrorista do EI em alarme global: “Evitar locais com grande concentração de pessoas até 24 de fevereiro de 2016”. Em síntese, Hollande prioriza ações militares e esquece ser imprescindível secar as fontes financeiras do Estado Islâmico.