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Número 879,

Cultura

Brasiliana

Ao pó voltarás

por René Ruschel — publicado 14/12/2015 05h43
Fascinada por cemitérios, Clarissa Grassi investe em roteiros culturais pelas lápides
Henry Milléo
Clarissa-Grassi

A relações-públicas já lançou dois livros e guia cegos pelos mausoléus curitibanos

Em novembro de 1985, há exatos 30 anos, a relações-públicas Clarissa Grassi pisou pela primeira vez em um cemitério. Um dia de luto para a família. A avó materna seria sepultada. Daquele dia restou em sua memória, além das lembranças da avó, as imagens de túmulos, imagens sacras esculpidas por artistas anônimos, vielas a dividir os mausoléus como se fosse uma cidade espremida entre muros. Curiosa, Grassi percorria os olhos pelas lápides e, mesmo sem entender muito o significado das frases, perguntava-se quem estaria ali sepultado.

Ao contrário do barulho do movimento de carros e o vaivém dos transeuntes apressados, o silêncio dos cemitérios trouxe-lhe paz. Entre a adolescência e a juventude, estar no meio de mausoléus servia de catarse para seus dilemas emocionais e para os momentos de angústia e aflição.

Cemitério-São-Francisco
Cemitério São Francisco, em Curitiba (Clarissa Grassi)
Até hoje ela não sabe muito bem como tudo começou. “Desde a infância fui educada sem preconceitos, temores ou medos. Acompanhei, ainda muito criança, o drama da doença de minha avó sem que alguém omitisse ou escondesse sua enfermidade. Cresci vendo a vida como ela é.”

A morte nunca a amedrontou. Grassi ainda se recorda de uma cena, no hospital no qual a avó estava internada, quando viu uma mulher sem vida, o rosto retalhado, ser levada por enfermeiros em uma maca. “Olhei e não fiquei chocada. Apenas observei. Sempre encarei a morte com muita naturalidade.” 

Sonhava ser médica, mas no fim optou pela comunicação. Em 1999, graduou-se em Relações Públicas pela Universidade Federal do Paraná. Justamente nesse momento, por sorte ou desígnio do destino, as lápides apareceram novamente em seu caminho.

Em 2002, um cemitério particular de Curitiba contratou seus serviços. Para conhecer um pouco mais do setor, teve de ler um texto sobre arte tumular. “Fiquei encantada, maravilhada. Descobri que os túmulos não eram apenas moradias dos mortos. Serviam como referencial de vida.” 

Era o estímulo que faltava. Em uma tarde, Grassi usou “cinco rolos de filme”, cerca de 180 fotos, para registrar túmulos nos mínimos detalhes. Descobriu verdadeiras obras de arte e passou a se interessar, ler e pesquisar sobre o tema. Seu objetivo era mostrar a beleza nos cemitérios. Foi quando nasceu a ideia de editar um livro, lançado em 2006, chamado Um Olhar... A arte no silêncio

Passeio-no-cemitério
Seus passeios turísticos e saraus viraram marca do São Francisco, em Curitiba (Maringas Maciel)
Nos últimos anos, além do mestrado em Sociologia, sua dedicação ao tema tem sido quase absoluta. Em 2011, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, por ocasião da Corrente Cultural, instituiu visitas guiadas ao Cemitério São Francisco, o mais antigo da capital, que serviu de inspiração para seus livros.

Desde então, grupos de 30 a 40 turistas visitam o local todos os meses. Durante o trajeto, além das informações sobre arte tumular, simbologias arquitetônicas e geológicas, Grassi discorre sobre a biografia de personalidades sepultadas.

Em 2013, foi a vez de um grupo de surdos-mudos e, em 2014, nasceram as visitas noturnas para turmas de 50 “corajosos”. Em comemoração aos 160 anos do cemitério, idealizou um sarau de poesias, quando foram recitados poemas de autoria dos poetas enterrados no local. Para se ter uma ideia, no ano passado, 975 turistas participaram das visitas guiadas. 

Grassi emociona-se particularmente com os grupos de deficientes visuais. Apesar da dificuldade de locomoção, vê-los tocar e sentir os túmulos com consistência e detalhes de riqueza foi emocionante, diz. “O que mais me marcou foi o gesto de cada um na entrega de suas mãos para que pudessem sentir o valor daquelas obras. Poder conduzi-los ao conhecimento me sensibilizou.”

No futuro, Grassi quer se dedicar exclusivamente ao trabalho. Em setembro do ano passado, ela lançou o segundo livro, Guia de Visitação ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula, no qual narra a história de cem personalidades mortas, entre artistas, intelectuais, políticos, empresários, músicos e os milagreiros na crença popular.

Segundo ela, os cemitérios são edificações de memórias e homenagens que recontam feitos e trajetórias. O mergulho em um passado de cidadãos e cidades. Uma história a ser redescoberta e recontada, sempre a partir do fim para o começo. Em vida, Clarissa Grassi reverencia a morte.

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