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Número 879,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Ah, é... é?!!

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 14/12/2015 05h43
Grogue, a economia recebeu no queixo um choque de juros e cortes desordenados dos investimentos
Arquivo Volkswagen do Brasil
Automóveis

O consumo de duráveis ainda mantinha trajetória positiva

Desde 2012, a economia brasileira vinha resfolegando tal como uma locomotiva a vapor com a caldeira furada. A diminuição da pressão não impedia, no entanto, que os vapores do consumo continuassem a empurrar o comboio para a frente. Cada vez mais débeis, os assopros do consumo não reagiram aos estímulos dos novos combustíveis fiscais e monetários injetados na ineficiente caldeira.

Analogias ferroviárias à parte, o exuberante ciclo global que solidarizou o consumo dos ricos americanos e europeus à escalada de investimento dos pobres chineses e de outros asiáticos teve seu papel na continuada bonança que, entre 2004 e 2010, bafejou a economia brasileira.

A despeito do maltrato infligido à indústria nativa pela valorização cambial, o “choque positivo de demanda” global puxou nossa manufatura pelos cabelos. Exportamos para os vizinhos latino-americanos e para outros mais distantes e alcançamos superávits nas transações de bens industriais.

Depois da bonança, os cúmulos-nimbos da tempestade se juntaram no horizonte de Pindorama. O consumo de duráveis ainda mantinha trajetória positiva, mas a derivada-segunda emitia sinais de esgotamento desse componente da demanda. A antecipação do consumo mediante a ampliação do crédito, como soe acontecer, acarretou a sobrecarga dos compromissos do pagamento com juros e amortizações na renda disponível das famílias. Também os acréscimos de renda agregada decorrentes dos reajustes do salário mínimo e dos novos empregos formais perdeu força.

Não há como desconsiderar as hesitações, entre 2012 e 2014, na definição dos novos projetos de infraestrutura e a penalização da Petrobras, afetada por uma despropositada contenção dos preços dos combustíveis.

Como um pugilista grogue no encerramento de um round desfavorável, a economia brasileira foi para o banquinho do corner receber cuidados. Em vez de aliviar seus incômodos, o treinador lhe desferiu um choque de juros e cortes desordenados dos gastos de investimento na ponta do queixo. Ao receber os novos e fulminantes golpes da Operação Lava Jato, nosso pugilista foi a knock down. Isso tudo com o propósito de restaurar a confiança do prostrado em suas forças.

Entrego a palavra aos economistas do Iedi. Peço licença aos bravos rapazes para inverter os parágrafos. Começo pelo segundo: “Ninguém mais duvida da gravidade da atual recessão, mas o quadro fica mais claro quando tomamos as variações trimestrais ao longo do corrente ano. No primeiro, segundo e terceiro trimestres, perante o mesmo período do ano anterior, a evolução do PIB total foi, respectivamente, de -2%, -3% e -4,5%”.

Sigo com o primeiro: “A devastação da presente recessão brasileira parece não ter fim e não encontrar paralelo em qualquer outro momento da nossa história econômica recente. O PIB do terceiro trimestre do ano, divulgado hoje pelo IBGE, teve redução de 1,7% ante o trimestre anterior, com ajuste sazonal. Se considerássemos a taxa anualizada, como fazem outros países, a contração que vivemos nos últimos três meses se encontraria num patamar de 7%.”

Leio as manchetes e os editoriais da quarta-feira, na posteridade da divulgação dos dados do PIB pelo IBGE. Catastrofismo. Meu filho enfia a cara sobre os meus ombros para degustar as últimas do Apocalipse. Irônico e treinado a desdenhar do saber dos economistas, sem poupar o pai, concedeu dois minutos à leitura de um editorial que esperneava as lamúrias dos corifeus do “ajuste”.

Impiedoso editor de vídeos, Carlos Henrique sugeriu uma imagem para substituir as tediosas palavras de perplexidade que recheavam a peça opinativa do jornal: a foto de um “especialista” reconhecido por suas certezas, queixo caído, destilando um sussurro de decepção:  “Ah, é... é?!!”