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Número 878,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr.

Vem aí o Uber MBA

por Thomaz Wood Jr. publicado 07/12/2015 05h06
Quem tiver paciência para assistir às aulas virtuais ficará assustado com a má qualidade, ressalvadas as exceções
Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas
Uber

Uber e Airbnb: a materialização do conceito de empresa virtual, surgido nos anos 1990

Os serviços Uber, de transporte urbano, que tira o sono dos taxistas, e Airbnb, de hospedagem, motivo de pesadelos entre donos de hotéis, alimentam a febre atual de novidades movidas à tecnologia. Não se sabe se desaparecerão em um ano ou se podem ser tornar novos Facebooks. Por enquanto, hipnotizam a mídia de negócios e atraem a atenção de usuários e investidores.

Uber e Airbnb constituem materializações do conceito de empresa virtual, surgido nos anos 1990. Por trás do conceito, há uma ideia simples, de que o acesso amplo às tecnologias de informação e comunicação possibilita a criação de modelos lucrativos de negócios sem depender de fábricas, escritórios ou quadros inchados de empregados.

Os componentes dos novos sistemas são facilmente identificados e incluem uma proposta de valor funcional e contemporânea, comunicação fácil, porém sofisticada, foco no uso em lugar da propriedade, utilização intensiva de tecnologia e aproveitamento de recursos ociosos existentes, os assentos vazios em carros particulares, para o Uber e residências desocupadas, para o Airbnb.

As duas empresas operam como agentes de intermediação e direcionam a sua comunicação para provedores e usuários de recursos. O Uber apela para o status de ter um “motorista particular”, o empreendedorismo e a liberdade do “trabalhe quando puder e ganhe dinheiro sem ir ao escritório e enfrentar um chefe chato”. O Airbnb esforça-se para criar uma atmosfera intimista e funcional, com os apelos ao aluguel do espaço próprio extra com pouco esforço e a possibilidade de os viajantes se sentirem em casa.

O que ocorreria se a criatividade nerd, que desenvolveu esses dois modelos de negócios, mirasse a educação universitária? Uma amostra do resultado pode ser avaliada nas iniciativas de ensino a distância que se multiplicaram nos últimos anos, algumas delas em parceria com renomadas universidades. Quem tiver paciência para assistir às aulas virtuais ficará assustado com a má qualidade daquilo que é veicula­do (será isso mesmo que se ensina nas universidades?) e comprovará que o ensino virtual é ainda mais aborrecido, comparado ao presencial. Em montanhas de joio, talvez encontre algum trigo.

Mas o que seria uma Air School ou um Uber MBA? Uma reinvenção completa do modelo de geração e de transmissão de conhecimento, hoje tão criticado? Estudantes com possibilidade de agendar módulos em diferentes universidades, por meio de um aplicativo? Motoristas-professores a explicar marketing e finanças durante o trajeto?

Em artigo publicado há alguns anos na revista científica Academy of Management Learning & Education, Paul N. Figa, Richard A. Bettis e Robert S. Sullivan rea­lizaram um curioso exercício de futurologia, com foco nas escolas e no ensino de administração. Os grandes motores da mudança, segundo os pesquisadores, são a globalização, rupturas provocadas por novas tecnologias, mudanças demográficas e a desregulamentação. Eles tomaram como referência os impactos dessas forças sobre a saúde, os serviços financeiros e o transporte aéreo de passageiros e se perguntaram o que aconteceria se a educação sofresse consequências similares àquelas verificadas nesses três setores.

A leitura do texto leva a identificar seis grandes mudanças. A primeira relaciona-se ao movimento de fusões e aquisições, com o surgimento de grandes grupos educacionais. A segunda diz respeito à entrada de novas instituições no setor de educação, com propostas baseadas em massificação, padronização e baixo custo. A terceira indica a internacionalização das instituições de ensino, com atração de alunos e professores estrangeiros, e a abertura de campi no exterior. A quarta sugere a superação do modelo artesanal de geração de conhecimento, pulverizado em múltiplas instituições, e a criação de polos especializados que abasteceriam todo o sistema de ensino. A quinta diz respeito ao declínio e eventual desaparecimento de instituições subsidiadas que apresentam alto custo e geram baixo impacto na formação de quadros e na geração de conhecimento. A sexta é o aumento da utilização de modelos mistos, combinando atividades presenciais e atividades remotas.

Algumas dessas transformações já estão acontecendo. Podemos observar seus efeitos e defeitos. Outras soam como sacrilégio ou delírio, mas podem estar a caminho. Quem viver verá... ou lamentará! 

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