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Número 878,

Cultura

Música

Samba na veia

por Ana Ferraz publicado 04/12/2015 05h26
Aos 79 anos, Patativa, pérola da velha-guarda maranhense, grava primeiro CD
Carol Carquejeiro
Patativa

Arruda e olho-grego, alegria e sarcasmo, para combater as tristezas

Há dois anos, o músico Zeca Baleiro, apoiado por uma legião de entusiastas, considerou chegado o momento de a cantora e compositora Patativa registrar em CD algumas de suas múltiplas pequenas pérolas. Muito popular no Maranhão, onipresente nas rodas de samba de São Luís, trocista de primeira, sorriso escancarado para as dificuldades da vida, ela compõe a qualquer momento, em qualquer lugar. Armazena tudo na memória, assim como faziam outros grandes representantes da velha-guarda maranhense, nomes como Antônio Vieira, autor de cerca de 300 composições, e o parceiro João Batista Lopes Bogéa, igualmente prolífico.  

Conhecedor do incalculável valor desse patrimônio cultural sob risco de ser tragado pela poeira do tempo, Baleiro registrou em disco a obra desses artistas intuitivos, de talento tardiamente reconhecido. Um rico legado formado por sambas, boleros, valsas e ritmos regionais como baralho e carimbó.

O Samba É Bom, que Vieira gravou ao vivo em 2001 no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, foi o primeiro trabalho-solo da longa carreira do músico, morto em 2009 aos 88 anos. Ele divide 18 faixas com Célia Maria, Elza Soares, Rita Ribeiro (hoje, Benneditto), João Pedro Borges, Sivuca e Baleiro. “Mestre Vieira é um dos últimos representantes de uma geração de artistas maranhenses”, declarou Baleiro um ano antes da morte do compositor. Entre tantas composições merecedoras de perpetuação está o contagiante samba Cocada, gravado por Rita em 1997.

Balançou no Congá, de Lopes Bogéa, começou a ser registrado na casa do artista em 2002. Ao chegar à fase de estúdio, o estado de saúde do compositor tornou-se delicado e sua voz foi aproveitada apenas em quatro faixas. As demais músicas, sambas, baiões, toadas de boi, marchas e carimbós, com letras carregadas de falas regionais pesquisadas pelo compositor, ganharam interpretações de bambas do calibre de Germano Mathias, Genival Lacerda, Beth Carvalho e dos maranhenses Rita, Baleiro, Criolina, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, César Teixeira e Tião Carvalho.

A Saravá Discos, fundada por Baleiro em 2006, dá vez a talentos esquecidos pelas grandes gravadoras e ignorados pela mídia. Agora chegou a vez de Patativa, artista nascida em Pedreiras, cidade de João do Vale, moradora do bairro pobre de Vila Embratel e desde os 17 anos frequentadora do reduto boêmio Madre Deus. “Lá, a festa não para. Se aparecer quem batuque, fico horas, não canso. Desde criança eu canto em qualquer lugar.” 

Na terra do coco, do cacuriá, do tambor de crioula e do bumba meu boi, ela esbalda-se mesmo é no samba. “Nasci assim, com o samba na veia, no sangue, na alma.” Na feira da Praia Grande, por onde passa, todos mexem com ela e ela mexe com todos. “Eles me provocam, falamos molecagem.” Às vezes, a composição brota na hora. “Mas sou mais de idealizar. Quando estou pra baixo vem a inspiração maior.” Difícil imaginar Patativa em estado de ânimo que não o do riso solto. A pilhéria, o chiste e a galhofa são lenitivo para cicatrizes deixadas por uma vida de poucos recursos materiais e muitos obstáculos

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Vieira e Zeca Baleiro, patrimônio musical preservado. (Carol Carquejeiro)

Dos oito filhos, três estão vivos. Um neto de 18 anos foi assassinado na porta de casa. Não conheceu o pai. “Quando me entendi no mundo fiquei injuriada ao saber que ele abandonou minha mãe. Tremendo sacana.” Depois de cuidar dela uns tempos, a mãe entregou-a a uma conhecida. “Quase não tive contato, quando conheci fiquei gostando dela”, relembra, olhos aquosos. Patativa foi faxineira em casa de família, faz-tudo na prefeitura, vendedora de caranguejo, peixe frito e pamonha. Uma vida na corda bamba. Até hoje há momentos em que não sabe se terá comida na mesa. “Aí fico jururu.”

Emerge da tristeza como submergiu, ligeira. A vida chama. “Sou muito ruim/mas ninguém é melhor do que eu/Bebo, fumo, jogo e danço/Faço os compromissos meus”, apregoa no samba que dá título ao disco, Ninguém É Melhor do Que Eu. O recado foi endereçado a uma vizinha, incomodada com a alegria ruidosa da sambista. “Eu vinha pra casa alta madrugada, bêbada, ligada, cantando, vindo do bumba meu boi, do Carnaval. A mulher não gostava. Tem gente que não gosta de nada.”

A deliciosa faixa-título é dividida com Zeca Pagodinho. O dueto deu-se apenas no mundo da tecnologia e ela acalenta o sonho de conhecer o ídolo. “Quem dera eu pudesse encontrar com ele. Não ia resistir, ia beijar aquele cangote gordinho”, interrompe a frase para rir. “Tenho tudo dele. LP dele ainda magrinho. Em São Luís fazemos samba pra ele.” A verve ácida de Bezerra da Silva, as melodias de Dona Ivone Lara e a voz ancestral de Clementina de Jesus são igualmente veneradas.

Blusa de renda, brincos, pulseiras, anéis e chapéu de malandro de palha de buriti. Entre os colares coloridos, o de olho grego não sai do pescoço por nada. Atrás da orelha esquerda, um eterno ramo de arruda. “Uso desde novinha. Tem gente que te odeia por qualquer coisa, pela profissão, se vestir bem, ser linda.” Vaidade mesmo, diz, é mais com as unhas, sempre cuidadas. Esmalte escuro nas mãos e claro nos pés. Ou ao contrário. Importante é se gostar. “Eu me amo, me acho legal. Linda não, mas não sou a coisa mais feia do mundo.”

Maria do Socorro Silva, “não gosto que ninguém saiba meu nome, que é pra não me matar de macumba”, virou Patativa numa de suas muitas noitadas. “Estava no Madre Deus, terra de poeta, consolo de apaixonado. Cheios de cachaça, eu e meu amigo Justo Santeiro travamos uma discussão sem briga. Ele disse não sei o quê, me zanguei e chamei ele de Amigo da Onça. Ele era a cara do personagem. ‘E tu que é uma patativa, vive cantando noite e dia?’ Não gostei. Demorou pra gostar.”

Hoje, ela molha o bico somente na cerveja. “Sou de família de cachaceiro, mas ninguém dos parentes morreu disso. É só saber se controlar.” Patativa deve parte do estilo à branquinha. “Ela chama suas composições de ‘samba de cachaceiro’, curto e rápido pra ninguém esquecer. É quase um gênero”, define Baleiro. “Música compridona a gente vacila no meio do caminho”, explica a autora de versos enxutos, esculpidos com sarcasmo e lascívia. 

Xiri Meu, sucesso nas rodas de samba de São Luís, une essas duas características e revela a altivez da mulher cujo primeiro casamento foi forçado pela família e ao longo do percurso tornou-se dona da própria vontade. “Naquele tempo a gente temia Deus e praga de mãe.” O samba é um desagravo a Cara Azeda, comerciante de Bragança, interior do Pará, onde viveu uns tempos. “Ele tinha um problema sério, porque contava na rua o que fazia com as mulheres entre quatro paredes. Se achava bambambã e queria ficar comigo a todo custo. ‘Tu vai morrer de dente seco, mas não vou te dar. O xiri é meu e dou pra quem quiser.’ E ele morreu na vontade.” 

Patativa tem a rara sabedoria de rir das próprias loucuras e sorver a vida com entusiasmo juvenil. “Agora mesmo estive na festa de um bamba que morreu. Acho terrível morrer. Queria passar dos 300 anos.” Credita a boa disposição à alegria de viver. “Sou feliz. Adoro carinho. Tenho uma música em que canto assim: ‘Sou doidinha por beijinho furta-cor’.” A variante em Technicolor pressupõe fúria arrebatadora, explica, praticada por ela de modo generoso. “Já dei muito beijos assim, milhares, trilhares.”

Sem experiência de estúdio, deixou o produtor Luiz Jr. espantado com a facilidade para gravar. “Cantei as 14 músicas direto, num só dia.” O segundo CD, Sou de Pouca Fala, está previsto para o primeiro semestre de 2016. Enquanto sonha o sonho de um ter uma casa em Madre Deus e desfilar na Beija-Flor, cai no samba. “Meu forte é a fuleiragem. A coisa pegando fogo.”