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Número 878,

Cultura

Teatro

Zé Celso recria Oswald de Andrade e flagela classe política

por Alvaro Machado — publicado 04/12/2015 16h37, última modificação 05/12/2015 09h29
Oficina adota a forma musical à qual recorreu o Teatro de Arena na ditadura, com atualização das composições para a peça de 1994
Mistérios Gozosos

Mistérios Gozosos: nudez, erotismo e estribilhos fasceninos

Zé Celso Martinez Corrêa corrobora a definição de Jorge Mautner para o poema dramático O Santeiro do Mangue (1950), adaptado em Mistérios Gozosos: “É o catolicismo do século XXI” (Mistérios Gozosos. Teatro Oficina, São Paulo. Até 25 de janeiro). A obsessão de Oswald de Andrade e de seu avatar Zé em virar de ponta-cabeça dogmas do cristianismo termina, de fato, por erigir uma espécie de religião em negativo.

O diretor sabe que iconoclastia religiosa e dessacralizações da Virgem e do Cristo não mais vão provocar espancamento do elenco por facções de direita, como na turnê de Roda Viva, em 1968. Sabe que ultraconservadores se valem com mais eficiência hoje do Congresso para surrar adversários. Assim, por meio da história do santeiro que vende imagens em zona de meretrício, “freguesia garantida”, na dupla moral característica, Zé flagela a classe política, “esculhambada e golpista”.

A par da pantomima indicada por Oswald, o Oficina adota a forma musical à qual recorreu o Teatro de Arena na ditadura. As composições de Zé Miguel Wisnik e Zé Celso para a peça de 1994 são atualizadas por solistas e coro, destaque para Luiz Felipe Lucas, além das certeiras Sylvia Prado e Camila Mota.

Na estreia os instrumentos ao vivo soaram sem pulso e as três horas avultaram de tempos mortos. Mas os fiéis não desertaram. Nudez, erotismo  e estribilhos fesceninos são a base da linguagem consolidada pelo diretor em espetáculos que soam como missas às avessas.