Você está aqui: Página Inicial / Revista / O teatro de Cunha / Sem dó nem piedade
Número 876,

Cultura

Cinema

Sem dó nem piedade

por Rosane Pavam publicado 19/11/2015 05h02
Seis filmes de Mario Monicelli ensinam a arte da comédia

Os Eternos Desconhecidos nasceu em 1958 como paródia a um bem-sucedido filme de assalto dirigido três anos antes por Jules Dassin. Em Rififi, pequenos marginais planejavam roubar joias para arranjar a vida difícil, mas seu plano caminhava mal. Enquanto hoje poucos se recordam do filme francês, sua citação italiana, concebida por Mario Monicelli, figura como uma das maiores obras cômicas do cinema, fundadora de um movimento que durou com popularidade até o fim da década de 1970, integrado, entre outros, pelos diretores Dino Risi e Pietro Germi, poderosos críticos da hipocrisia social. 

No filme de Monicelli, até que cheguem ao fracasso, seus mal-ajambrados ladrões servem-se de falas regionais, ritmadas em alucinante sucessão de gags, para fazer rir ainda um espectador, conforme uma exibição durante a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro último, pôde demonstrar.

Escrita pelos roteiristas Age, Scarpelli e Suso Cecchi D’Amico, a obra-prima conduz os atrapalhados personagens de Marcello Mastroianni, Vittorio Gassman, Totò e Renato Salvatori (ao lado, entre outros, de uma Claudia Cardinale que estreava no cinema italiano, aos 17 anos, em gravidez inicial) pela Roma suburbana, herdeira do neorrealismo. 

Mario Monicelli.jpg
Mario Monicelli: 65 filmes e um novo estilo agregado à narração cinematográfica

“À diferença do gênero comédia, a commedia all’italiana caracteriza-se pela ligeireza irônica, decidida a ridicularizar a humanidade a partir de um desenho dramático”, diz o crítico italiano Ennio Bispuri, que às 19 horas do dia 19, no Museu da Imagem e do Som (11° Festival de Cinema Italiano no Brasil - Mostra Mario Monicelli; Museu da Imagem e Som, São Paulo. Entrada gratuita, entre 20 e 25 de novembro), abre com um bate-papo a mostra sobre o artista nascido há um século.

Cinco outros clássicos do diretor a serem exibidos no ciclo, Os Companheiros, Meus Caros Amigos, A Grande Guerra, Um Burguês Muito Pequeno e O Incrível Exército de Brancaleone atravessam as culturas e as nacionalidades sob o signo da permanência, nem sempre, contudo, interessados em exclusivamente fazer rir, como lembra Bispuri: “Com seus 65 filmes, a maioria deles integrada à commedia, Monicelli introduz na narrativa cinematográfica um estilo novo, caracterizado como a união entre a vívida propensão ao riso e a reflexão melancólica sobre a existência”.