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Número 876,

Economia

Análise

Seguir contra a manada

por Thomaz Wood Jr publicado 17/11/2015 05h08
Estudo sugere que comportamentos estratégicos contracíclicos durante recessões podem ser vantajosos para as empresas
Roberto Stuckert Filho/PR
Programa-Bem-Mais-Simples

O programa Bem Mais Simples e a flexibilização de um ambiente de negócios menos burocrático

Vistas de perto, as empresas são singulares. Cada uma com sua história, práticas, produtos e cultura. Entretanto, em conjunto, comportam-se com frequência como uma manada, disparando intrépida rumo a direção desconhecida, a cada alarme, verdadeiro ou falso.

A economia desacelerou? O dólar subiu? Cortam-se cafezinhos e brindes, suspendem-se viagens. Um inverno polar desceu sobre a economia tropical?  Então é hora de agir: eliminam-se empregos, cortam-se investimentos e adiam-se expansões.

Em consequência do efeito manada, o que podia ser o pequeno alerta de um drama localizado torna-se profecia a induzir uma catástrofe de grandes proporções. E até que a fase depressiva se esgote, a manada segue com seu galope pesado e soturno, arrepiando-se a cada nova notícia, ceifando o futuro. 

Será tal comportamento inexorável? Não necessariamente. Em um artigo publicado na Revista de Administração de Empresas, da FGV-Eaesp, Claudio Ramos Conti, Rafael Goldszmidt e Flavio Carvalho de Vasconcelos lembram que as recessões de fato geram impactos severos para a maioria das empresas. Em uma crise, algumas delas são pouco afetadas, porém, e chegam até a prosperar. Segundo os autores, “em um cenário de demanda reduzida, competição aumentada e muitas incertezas, a maioria das empresas tenta sobreviver cortando custos e investimentos, de maneira pró-cíclica”. Elas poderiam aproveitar a situação, entretanto, para investir de modo contracíclico, identificar oportunidades e superar a concorrência.

Conti, Goldszmidt e Vasconcelos estudaram três tipos de estratégias empresariais. As de suprimentos incluem quadros, produção e compras. As de demanda abrangem definições de preço e investimentos em marketing e em pesquisa & desenvolvimento. As estratégias de capital envolvem políticas de crédito, gastos em ativos e aquisições. Em recessões, as empresas costumam adotar estratégias pró-cíclicas em quase todos esses tópicos. Cortam-se quadros, reduzem-se compras, adiam-se investimentos e diminuem-se os investimentos em marketing e em pesquisa. A exceção é a política de preços, nem sempre reduzidos.

Manada
Manobrando a crise: negociações entre a empresa Mercedes e trabalhadores reverte 500 demissões / Créditos: Adonis Guerra/ SMABC

Os períodos de recessão aumentam a disponibilidade de recursos qualificados, com custos reduzidos, que podem ser usados para investimentos contracíclicos, mas o aproveitamento de oportunidades é condicionado pela capacidade de as empresas modificarem, com flexibilidade, seus focos e práticas.

Em recessões leves, apontam os pesquisadores, as mudanças no mercado são pequenas e basta ter flexibilidade operacional para ajustes na programação da produção e no mix de produtos e adoção de uma estratégia contracíclica. Em recessões severas ou prolongadas, as mudanças são mais profundas e exigem novos focos e realocação de recursos, realizados com forte restrição de custos. Neste caso, a transformação deve ser estrutural.

Outro fator-chave para o aproveitamento de oportunidades surgidas durante períodos de recessão é a própria capacidade de reconhecê-las. Diante de contextos recessivos, muitas organizações entram em depressão, tornando-se incapazes de detectar oportunidades. Outras as percebem, entretanto, e agem para aproveitá-las.

Os pesquisadores coletaram informações com mais de cem gestores financeiros e de planejamento de empresas brasileiras de capital aberto, sobre a crise de 2008-2009. A maioria das empresas adotou estratégias pró-cíclicas durante o período. Poucas empresas fizeram o oposto.

A partir da análise estatística dos resultados, Conti, Goldszmidt e Vasconcelos concluíram que estratégias contracíclicas relacionadas a maiores investimentos durante recessões levam a desempenhos superiores. Eles também comprovaram o efeito positivo da flexibilidade e do grau de empreendedorismo. 

O artigo oferece um bom retrato do comportamento das empresas brasileiras de capital aberto durante uma crise de curta duração e sugere que seguir contra a manada requer competências específicas, mas pode ser vantajoso. O prolongado período recessivo agora em curso mostrará para onde a manada seguirá, quanta grama destruirá no caminho e quanto as reses mais empreendedoras e flexíveis poderão avançar.