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Número 876,

Política

Editorial

O homem e a máscara

por Mino Carta publicado 13/11/2015 10h18
Pequena reflexão a respeito das características de algumas figuras da República, a começar por Eduardo Cunha
Lula Marques/Agência PT
Eduardo-Cunha

O notável inventor de enredos

Eduardo Cunha é inventor notável de enredos, mas ele próprio é personagem romanesca. Eleito faz menos de um ano para a presidência da Câmara, provou que os manobristas políticos da presidenta Dilma não se esmeraram na leitura de Maquiavel. Mostrou, também, um traço invulgar da sua personalidade: o prazer do risco.

Como entender, de outra forma, que alguém se atire a um embate parlamentar aparentemente tão renhido, e se disponha, ao vencê-lo, a acuar o governo até colocar em xeque a rainha, digo, a presidenta, a despeito de seu conspícuo telhado de vidro? Como chegar tão longe na ousadia sem imaginar que, mais cedo ou mais tarde, as mazelas viriam à tona? Vieram mais cedo.

Personagem a seu modo fascinante, talvez dotado para a roleta, ou o pôquer. Em lugar do cassino, aportou ao Congresso. Desassombrado até o limite, sem alterar a expressão irônica de quem se regala no desafio sem trair emoção.

Murmuram meus céticos botões: mais um que confia na impunidade, a par da incompetência dos adversários. Quem sabe também ele não se tenha dedicado à leitura de Maquiavel. Nem por isso Cunha tira a máscara.

Deste ponto de vista, o presidente da Câmara é bem mais interessante do que, digamos, os ministros Levy e Cardozo. Estes não usam máscara, são exatamente o que aparentam ser, não há disfarces para seu escasso alcance. De forma diferente, entenda-se.

O ministro da Justiça é um ser hesitante, nele, porém, a ausência de certezas não é sinal de mente fervilhante. O ministro da Fazenda, pelo contrário, é munido exclusivamente de certezas, baseadas na devoção ao deus mercado e no emprego de uma calculadora.

No começo do seu primeiro governo, Dilma soube como se livrar de algumas figuras incômodas, embora competentes ao cuidarem em primeiro lugar dos seus negócios pessoais. Hábeis operadores, como se diz, mas ambos com suas falhas.

Nelson Jobim é, antes de mais nada, um farejador das mudanças barométricas. Quanto a Antonio Palocci chegou a montar uma casa do prazer às margens do Lago de Brasília, aberta à frequentação de figurões e figurinhas da política e até, incautamente, de jornalistas mais ou menos graúdos.

Agora cabe perguntar aos botões se a presidenta saberá livrar-se de outros ministros escassamente eficazes em postos-chave. O ministro da Fazenda, de ceifadeira em punho, entregue à sanha do corte, pronto a sacrificar a maioria pobre qual fosse relvado inculto.

Máscaras
Quem sabe também Cunha não se tenha dedicado à leitura de Maquiavel. Nem por isso ele tira a máscara

Já Cardozo prefere ficar sentado na cadeira almofadada do seu gabinete, assistente impassível de graves irregularidades da mesma Justiça que deveria controlar.

Sobre minha mesa de trabalho conservo a primeira página do Estadão de 5 de julho, onde a manchete chama para a entrevista do diretor da PF, Leandro Daiello. Diz ele, em letras pesadas: “A Lava Jato prossegue, doa a quem doer”. A quem haveria de doer?

É claro que Daiello se refere a quem o nomeou, e não é, obviamente, da competência do diretor da PF um pronunciamento deste gênero. Que fez o ministro da Justiça? Ficou sentado em perfeito silêncio. Haveria de dizer, incontinente: “Rua, prezado delegado, rua!” Diante da sua indiferença, Dilma é quem teria de convocar o insubordinado para uma seca despedida.

Há quem suponha não faltarem candidatos à substituição de Levy, que, segundo os arautos midiáticos, estaria em vias de fritura. Não ouso aventar nomes. Quanto a Cardozo, existe a recordação do mitológico ministro Márcio Thomaz Bastos.

Há um elo entre os dois, chama-se Daniel Dantas. Ambos advogaram para o banqueiro do Opportunity. Bastos, quando no governo, ou pelo menos seu escritório, contra o acima assinado, no Criminal. Cardozo foi à Itália para sustentar uma tentativa de ataque dantesco contra a TIM e teve um desempenho patético.

DD regressou batido, turva figura do bastidor, concreta como um fantasma cinematográfico. Em relação ao banqueiro, Bastos manteve uma atitude esquiva durante a Operação Chacal, aquela que apreendeu o célebre disco rígido jamais aberto.

Se o fosse, disse a mim diante de testemunhas o então diretor da PF, o impecável delegado Paulo Lacerda, “cairia a República”.

DD detém poderes infindos. Os botões sugerem que dispõe de informações cabeludas demais. Seria por causa disso que o próprio Cardozo, illo tempore, secundado pelo deputado Sigmaringa Seixas, organizou um jantar do ministro Márcio com o banqueiro na casa do senador Heráclito Fortes?

Nem todas as maracutaias vêm à tona neste nosso peculiar país.