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Número 876,

Cultura

Dry Martini

O drinque nº 1

por Nirlando Beirão publicado 02/12/2015 04h52
Bond, de novo em ação, acrescentou testosterona ao coquetel
Reprodução
james bond

James Bond, o 007, exige um dry martini shaken( vigorosamente sacolejad)

O mais clássico dos drinques nem precisaria do aval do agente 007 de Sua Majestade para assegurar a sua perenidade. Mas que ajuda, ajuda. Toda vez que James Bond retorna às telas, como, agora, em seu insano combate contra a renitente organização de nome Spectre, é fatal que o mundo volte a se dividir entre aqueles que se perguntam, assim como os desaviados bartenders que não conhecem nosso herói, se o martini correto deve ser shaken (vigorosamente sacolejado) ou stirred (suavemente mexido). 

Taí uma daquelas questões das quais, por mais que Bond fosse de um rigor ortodoxo (stirred, ele exigia), a humanidade não carece para definir o seu futuro. Mas, para os fanáticos do dry martini, é, sim, um dilema de vida ou morte. Muito maior até do que a opção gim vs. vodca, que aos degustadores nem parece tão dramática assim (Bond, combatente da Guerra Fria, estranhamente sempre preferiu vodca).

Não se pergunte por que o dry martini é assim – o rei dos coquetéis, desde a época remota em que ainda era o fancy gin cocktail dos beberrões ingleses do século XIX (um primitivo manual assinado por Harry Johnson e publicado em 1888 traz a mais antiga receita do drinque que se tem notícia, gim com uma pitada de genebra). A mística mais que secular do dry martini tem a ver com o sabor aromático que consegue emanar de um mix que, no entanto, prima pela simplicidade. Perto de uma caipirinha de cachaça ou uma margarita de tequila, um dry é brincadeira. Ao longo do tempo, veio se tornando cada vez mais seco – menos doce. Portanto, mais másculo. 

Não por acaso, se converteu o adereço icônico daqueles que precisavam exibir, com a típica taça na mão, a afirmação explícita de sua testosterona. Como Humphrey Bogart, macho alfa de Hollywood. Ou o primeiro-ministro inglês Winston Churchill. Franklin Roosevelt também era fã de carteirinha, o que faz supor que o dry martini tem alguma coisa a ver com a decisão dele, ao assumir a Presidência dos Estados Unidos em 1933, decretar o fim da Lei Seca (Prohibition). 

Consciente de que é mais fácil fazer a paz entre Israel e Palestina do que apaziguar as apaixonadas versões sobre o melhor dry martini, esta CartaCapital aposta na fórmula testada no bar de um hotel francês. É difícil acreditar que um drinque radicalmente anglo-saxão possa ter se acomodado tão bem ao ambiente do Lutétia, na esquina da Saint-Germain-des-Prés com o Boulevard Raspail, na Rive Gauche de Paris. A receita dispensa o dilema bondiano do “mexer” ou “sacudir".