Você está aqui: Página Inicial / Revista / O teatro de Cunha / A Pangeia musical de Victor Gama
Número 876,

Cultura

Angola

A Pangeia musical de Victor Gama

por Ana Ferraz publicado 19/11/2015 16h17, última modificação 22/11/2015 08h29
Ao unir tecnologia e tradição, o músico e etnógrafo angolano cria instrumentos únicos
Victor Gama

A toha é uma longilínea metáfora do ninho de um pássaro angolano

O angolano Victor Gama tinha 6 anos quando viu um músico tocar ao vivo. Numa praia de Luanda, um pescador tirava melodias de um ungu, arco musical precursor do berimbau. Tomado por um tipo de transe, seguiu-o por todo o percurso, desejoso de prorrogar o instante mágico. Em casa, impulsionado pela epifania, construiu um objeto capaz de produzir som. “Eu queria tocar qualquer coisa e inventei um instrumento composto de uma corda de náilon, uma régua e uma caixa.” 

Quase 50 anos depois, a viagem sonora iniciada na infância transpôs as fronteiras de sua África natal. A formação em engenharia eletrônica e a especialização em organologia forneceram a Gama as bases para explorar um novo processo de composição a partir de instrumentos tão únicos quanto inovadores. O músico, designer e etnógrafo ancora-se na tradição e na tecnologia para fazer a música do século XXI. Seu mais recente projeto, a ópera multimídia 3 Mil Rios: Vozes da Floresta, resulta de um trabalho de campo de quatro anos nas florestas tropicais do Equador, montanhas dos Andes e Amazônia colombiana e brasileira. 

O som que esse artista visionário cria com a toha, por exemplo, é etéreo e magnético. Nos moldes de uma harpa circular de 44 cordas, a toha surge da observação de um pássaro que tece o ninho num poste de linha telefônica no deserto. “Vi uma série desses ninhos em Cunene, Angola, completamente vazios. Era uma região de conflito e toda aquela natureza havia migrado. Metaforicamente, o objetivo foi o de chamar os pássaros de volta. O instrumento transformou-se num mediador e ganhou sentido ao ter essa função.” Com base redonda de fibra de carbono, suporte de madeira de 1 metro e meio de altura e pequenas pontes onde as cordas são fixadas, essa delicada metáfora longilínea do ninho pode ser tocada a quatro mãos. 

Gama
No interior de Angola, Gama ensina crianças a recriar instrumentos tradicionais. Créditos: Rui Peralta

Ao processo de composição ao qual se dedica nos últimos 20 anos Gama denomina Teoria dos Modos Golianos e se relaciona à cosmogonia da antiga civilização Congo/Angola, território hoje parte de seu país natal. “O reino do Congo exerceu grande influência na música ocidental a partir do fim do século XVIII. Há dois elementos-chave, o cosmograma Dikenga, uma espécie de logotipo da cultura Bakongo, no norte de Angola, que representa uma visão cíclica do universo e da vida. Esse círculo tem outro menor em seu perímetro, que gira em torno do primeiro. Dentro do menor, por sua vez, há outro ainda menor, movendo-se da mesma forma, uma representação fractal cíclica repetida infinitamente, característica da música africana.”

Outro elemento-chave é o conceito de Mpungu, objeto usado como mediador entre o mundo dos vivos e o dos antepassados. “É uma espécie de altar, por meio do qual o sacerdote faz a intermediação com o mundo espiritual. Os Modos Golianos são uma abordagem a uma forma de escrita e composição em que a criação e a performance ganham outros significados ativados pelo músico.”

A sofisticação tecnológica dos instrumentos desenvolvidos pelo angolano de ascendência portuguesa evoluiu a ponto de demandar apoio acadêmico. Na Universidade Metropolitana de Londres, Gama aperfeiçoou a organologia digital como metodologia de construção. E recentemente passou seis meses no Centre for Computer Research in Music and Acoustics da Universidade de Stanford, onde aprimorou os sistemas de afinação da toha e do acrux. Inspirado no Cruzeiro do Sul, o acrux tem base hemisférica, tampo acústico de vidro e luz interna para representar o brilho das estrelas. O sistema de ressonância é formado por discos de aço temperado fixados em torno de quatro suportes verticais e o som evoca o do xilofone. 

No processo de produção, usa modelagem 3D, software de análise vibracional de cada componente e fabricação controlada por computador. Feitos com matéria-prima da natureza ou materiais obtidos com a mais alta tecnologia, os instrumentos resultam visualmente atraentes, um convite para ser manipulados e experimentados.

Foi o que ocorreu no National Museum of Scotland, que pretendia renovar o interesse do público pela coleção de antigos instrumentos de África, Ásia e Oriente Médio. A convite da instituição, Gama criou o tipaw, o tartul, o tonal matrix e o vulk, inspirados no acervo. Robusto, o tipaw (junção das palavras tigre e pata, em inglês) utiliza tigelas tibetanas, cujos sons são usados há milhares de anos com finalidades terapêuticas, representantes das patas do animal. Tocadas como sinos, criam uma vibração etérea. Com cabaças colombianas, o tartul, semelhante a uma aranha, produz som inspirado no xilofone. O tonal matrix, tocado na vertical por até três músicos, remete à kalimba africana, e o vermelho e laranja vulk, cujas cores evocam a lava, daí o nome assemelhado a vulcão, sobrepõe címbalos capazes de soar como a cítara. Expostos perto da coleção do museu, os novos instrumentos atraíram ruidosos e interativos visitantes.

tipaw
O tipaw, cujas tigelas tibetanas produzem som etéreo, atrai visitantes em Edimburgo. Créditos: Rui Peralta

Gama dedica-se mais a apresentações e pesquisas do que à produção de álbuns. Do início da carreira, em 1991, até hoje lançou os CDs Pangeia Instrumentos, Oceanites Erraticus e Naloga e produziu Odalantan, Tsikaya – Músicos do Interior e Huambo Música Sessions. Considera mais significativas as peças desenvolvidas nos últimos oito anos, como a apresentada em outubro no Brasil, SOL(t)O, e a mais recente, Vela 6911. 

Neste hall de obras em breve será incorporada 3 Mil Rios: Vozes da Floresta, com estreia prevista para maio de 2016 no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, participação da Orquestra Gulbenkian, das sopranos Yetzabel Arias Fernández, cubana, Betty Garcés, colombiana, Té Macedo, angolana, e Waira Nina Jacaminejoy, da Amazônia colombiana. “Uso a toha e o acrux e uma vasta paleta de sons e imagens gravados na Amazônia.” Em parceria com organizações e comunidades locais, Gama recolheu vozes dos moradores vítimas de impactos causados pela destruição ambiental. 

Trabalho semelhante começou a desenvolver em 1977, com o primeiro arquivo digital de músicos do interior de Angola. “O objetivo do Tsikaya (www.tsikaya.org) é oferecer um canal para promoção de artistas do meio rural. É um projeto que atua nas ‘zonas de silêncio’, regiões onde apesar dos meios de comunicação e tecnologia eles ainda não se fazem ouvir. Queremos permitir a uma audiência global conhecer a diversidade, beleza e valor desse patrimônio.” 

Tsikaya é um deleite e uma surpresa a cada clique. Um passeio aleatório pela plataforma revela entre outros os garotos que formam o duo Ovana Voinaimwe. Compõem e cantam em kwahama, língua da província de Cunene. O “violão” foi construído com restos de metal de um tanque militar unidos a um pedaço de madeira. O tambor da percussão é uma enferrujada lata de óleo automobilístico. O resultado é contagiante. 

A partir do Projeto Pangeia, surgido em 1993, referência geológica ao continente único do qual os outros derivaram, Gama amplia sua atuação. Para impedir o desaparecimento de instrumentos tradicionais angolanos fez workshops com 800 crianças de escolas do interior de Angola. “Nenhuma sabia o que é um kissange (lâminas sobre uma tábua, tocadas com o polegar), uma mburumbumba (berimbau) ou mesmo uma txiumba (cordas presas em arcos que saem de uma caixa de ressonância). Raras são as que conhecem uma marimba. O desafio de transmitir nossa cultura às novas gerações é grande e cabe-nos a todos enfrentá-lo.”

registrado em: , , ,