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Número 875,

Internacional

Turquia

O retorno do sultão

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 11/11/2015 04h50
A eleição restaura a hegemonia do partido islâmico, após meses de incertezas
Kayhan Ozer/Anadolu Agency/Getty Images
Palácio-de-Erdogan

O novo palácio é de matar de inveja Solimão, o Magnífico

Contra o prognóstico das pesquisas, o presidente Recep Tayyip Erdogan obteve uma ampla vitória nas eleições parlamentares de 1º de novembro. Em junho, seu Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, conservador islâmico) foi o mais votado, com 41%, mas obteve 258 das 550 cadeiras e perdeu pela primeira vez a maioria absoluta que teve desde 2002.

Erdogan não quis ceder à exigência do Partido Republicano (CHP, nacionalista laico de centro-esquerda, herdeiro de Kemal Atatürk) de se comprometer com quatro anos de governo de coalizão e convocou novas eleições. As pesquisas indicavam um resultado quase idêntico ou com um pequeno crescimento do CHP e a repetição do dilema, o que forçaria Erdogan a ceder.

Em vez disso, o AKP conseguiu desta vez 49,5% dos votos e 317 cadeiras à custa do Partido de Ação Nacionalista (MHP, extrema-direita laica), que caiu de 16,3% para 11,9%. O CHP obteve os mesmos 25% (esperava 30%) e o Partido Democrático Popular (HDP, esquerda aliada a curdos moderados) caiu de 13,1% para 10,8%.

A aposta de Erdogan foi bem-sucedida e o quadro volta a se assemelhar ao de 2011-2015. Não basta para viabilizar seu projeto de uma república semipresidencialista à francesa, que exigiria uma maioria de 60%, mas, após a confirmação da vitória, ele deu a entender que tentará reformar a Constituição por referendo.

Burguesia-islâmica
Uma nova burguesia, mais islâmica, tomou o lugar da elite ocidentalizada / Osman Orsal/Reuters/Latinstock

Para Israel, é uma má notícia e confirma seu isolamento. Os governos laicos do CHP foram seus aliados, mas Erdogan simpatiza com a Irmandade Muçulmana e o Hamas. O ataque israelense à Flotilha da Liberdade para Gaza em 2010, liderada por turcos, resultou na retirada dos respectivos embaixadores e no julgamento e condenação à revelia dos comandantes israelenses na Turquia, importante demais para os EUA e a Otan para ser pressionada. 

O recuo do AKP em junho pôde ser explicado pela queda do crescimento econômico (da ordem de 3% ao ano desde 2012, ante taxas de 4,5% a 10% em 2002-2011, salvo na crise de 2008-2009) e pelos reveses causados pelo fracasso da Primavera Árabe à ambiciosa política externa de Erdogan.

Sua recuperação tem sido atribuída à escalada de violência nos últimos meses, relacionada à retomada da repressão aos curdos, à guerra civil na vizinha Síria e às suas repercussões no país, especialmente o duplo atentado suicida de 10 de outubro em Ancara, que deixou 102 mortos e 400 feridos entre os participantes de uma passeata pela paz com os curdos, promovida pelo HDP, sindicatos e outras organizações de esquerda.

Apesar de o HDP culpar Erdogan pelos atentados, a maioria parece aceitar a investigação oficial que responsabiliza o Estado Islâmico. Ao EI – e não ao partido separatista curdo PKK ou a organizações de extrema-esquerda, sobre os quais o governo inicialmente também lançou suspeitas – estavam ligados os dois irmãos que atuaram como homens-bomba, método mais típico de fundamentalistas do que de agências de repressão, por mais que Erdogan pareça mais interessado do que Al-Baghdadi em combater a esquerda turca.

É razoável, porém, a acusação de descuido do Estado com a segurança da manifestação. O HDP foi praticamente impedido de realizar comícios de campanha por ameaças de violência, sem intervenção das forças públicas. Pressões do governo limitaram seriamente o acesso das oposições à mídia.

Também é verdade que muito da tensão se deve à interrupção do processo de paz com os separatistas curdos desde setembro de 2014, devido aos ataques e bombardeios aos curdos na Síria e Iraque e ao mau tratamento dos refugiados dessa etnia, em contraste com a ambiguidade da postura de Ancara ante o Estado Islâmico.

A Turquia oficialmente o condena e desde julho autorizou os bombardeiros dos EUA a usar suas bases para atacá-lo, mas só participa desses ataques de forma simbólica, ao contrário do que faz com os curdos.

Esquerda-turca
A esquerda turca cresce, mas ainda é pouco ouvida / Osman Orsal/Reuters/Latinstock

Não se pode negar as tendências autocráticas de Erdogan. O presidente desafiou a Justiça para construir um enorme palácio de 1.150 quartos e 300 mil metros quadrados ao custo de 615 milhões de dólares, no qual mora desde julho, apesar de a obra ter sido declarada ilegal pelo Conselho de Estado (supremo tribunal administrativo).

E dias antes da eleição fechou dois jornais e duas emissoras de tevê oposicionistas supostamente ligadas ao líder religioso Fethullah Gülen, inimigo político residente nos EUA acusado de conspirar contra o governo.

Mesmo assim, parte da opinião pública voltou a ver maiores chances de o AKP pacificar o país do que seus rivais. Em princípio, faz sentido: a tradição islâmica une, em tese, os dois povos e religiosos tanto turcos quanto curdos votam em Erdogan, ao passo que o nacionalismo laico do CHP e MHP os faz inimigos dos curdos por definição.

Entretanto, o agravamento da guerra civil síria e a irrupção do Estado Islâmico no Iraque deram aos guerrilheiros curdos desses dois países vizinhos uma virtual independência e apoio do Pentágono, transformaram-nos em uma retaguarda do separatista PKK e reforçaram suas esperanças de um Curdistão independente, reivindicação inaceitável para Erdogan e ainda mais para seus militares.

Soma-se a isso a tentativa do AKP, desde o recuo de junho, de recapturar votos nacionalistas com um discurso mais agressivo contra o separatismo. O HDP tem bases na periferia de Istambul e apoio de movimentos feministas e LGBT, mas é visto por conservadores (inclusive Erdogan) e nacionalistas como um partido fundamentalmente curdo e acusado de ser um “braço político” do PKK, o que pode ter assustado turcos de esquerda dispostos a apoiá-lo.

Outro fator provavelmente importante, mas pouco lembrado por analistas, foi o surpreendente impulso dado a Erdogan pelos europeus às vésperas das eleições. A onda de refugiados sírios, iraquianos e afegãos para as costas da Grécia provém, ou no mínimo passa, pela sobrecarregada Turquia, à qual naturalmente interessa repassar parte do problema a quem é mais responsável que ela por suas causas.

Pois Angela Merkel e Bruxelas ofereceram a Ancara um substancial apoio à manutenção dos campos de refugiados, a isenção de visto para cidadãos turcos na Europa e a aceleração do processo de admissão em troca de deter esse fluxo.

Com isso, o autoritário e religioso Erdogan chega mais perto de pôr o país na União Europeia, aspiração de todos os governos turcos desde os anos 1950, do que qualquer dos governos laicos anteriores, esnobados pelos europeus com o pretexto de não se comprometerem o suficiente com a democracia e os valores europeus.

A revista The Economist lamentou a vitória do AKP e prevê lutas internas no partido sobre “se o círculo de assessores econômicos heterodoxos próximos de Erdogan substituirá a equipe experiente e amigável ao mercado liderada pelo ex-ministro da economia Ali Babacan”.

Babacan, tecnocrata presente em todos os gabinetes do AKP desde 2002 e seu negociador nos foros internacionais, foi substituído em agosto pelo ex-ministro do Desenvolvimento Cevdet Yilmaz. Com a inflação razoavelmente controlada (caiu de mais de 50% anuais até 2001 para 6% a 10% desde 2004, hoje é 7,5%) o governo quer um rumo mais desenvolvimentista e pressiona o Banco Central para baixar os juros e promover o crescimento.

Isso não escandaliza Bruxelas nem o capitalismo local, a julgar pela alta da Bolsa turca após a vitória. Hoje, as regiões de maior crescimento estão no interior muçulmano, mais que nos portos ocidentais tradicionalmente laicos e voltados para o Ocidente. Mesmo assim, o futuro continuará nebuloso enquanto a guerra civil síria – em parte impulsionada pelo apoio de Erdogan aos rebeldes – acirrar os ânimos e dificultar a paz com os curdos.

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