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Número 875,

Sociedade

Xenofobia

O Haiti não é aqui

por Miguel Martins, de Navegantes — publicado 14/11/2015 07h39
O assassinato de Fetiere Sterlin abala os imigrantes do país caribenho em Santa Catarina
Jean Knetschik
Chinita e Bethzatha

Chinita e Bethzatha estão com medo: "Ha muito racismo"

Um grupo de haitianos joga uma partida de dominó em frente à casa de Chinita Mervilus. Sentada em um sofá velho e encardido, a amiga Bethzatha Josafa recolhe as peças após uma disputa contra a moradora. “Jogamos porque não temos nada para fazer”, diz Chinita, aos risos. Há quase cinco anos no Brasil, entre momentos de prosperidade e desencanto, as haitianas, atualmente desempregadas, conservam o bom humor.

Os semblantes fecham, porém, ao lembrarem o amigo Fetiere Sterlin, assassinado em 17 de outubro nas proximidades da casa de Chinita, no bairro de Machados, em Navegantes, cidade balneária de Santa Catarina. Vítima do ataque de um grupo de cerca de dez adolescentes, provavelmente moradores do mesmo bairro, Sterlin foi espancado com barra de ferro e levou diversas facadas no peito. Morreu na frente de amigos e da mulher, Vanessa Pantoja.

Embora não tenham testemunhado o absurdo crime que chocou o País, Bethzatha e Chinita estavam prestes a encontrar com Sterlin antes de sua morte. As amigas organizavam o “Bailão dos Haitianos”, uma festa realizada semanalmente pela comunidade de imigrantes do país caribenho em Machados, frequentada também por brasileiros.

Na noite de 17 de outubro, a polícia de Navegantes fechou o local após uma denúncia de excesso de barulho. Segundo Chinita, Sterlin dirigia-se para o galpão onde ocorria a festa quando parou para conversar com um amigo haitiano, que lhe contou sobre o fechamento da casa. Neste momento, um adolescente brasileiro, diz Chinita, comemorou de forma irônica a suspensão do evento pela polícia. Irritado, Sterlin teria perguntado: “E por que está feliz com isso?” Em seguida, o jovem local teria chamado o haitiano de macici, termo crioulo, língua nativa dos haitianos, para homossexual. Houve uma troca de ofensas. Poucos minutos depois, Sterlin foi espancado na calçada pelo grupo, enquanto sua mulher pedia desesperadamente pelo fim da covardia. Não adiantou.

O caso tornou ainda mais angustiante o cotidiano da comunidade haitiana de Navegantes. Em meio ao desemprego crescente e o assassinato de Sterlin, Bethzatha está desiludida com seu futuro no País. “Amizade mesmo, só quando precisam nos usar. Não são amigos da gente”, diz. “Tem muitas pessoas racistas por aqui.” Três anos atrás, a realidade era outra. A cidade de pouco mais de 70 mil habitantes tornava-se um dos destinos favoritos dos imigrantes após o terremoto do Haiti de 2010, que deixou 200 mil mortos. Por causa do desenvolvimento da indústria naval e da construção civil no balneário catarinense, em 2013 a cidade chegou a abrigar perto de 600 imigrantes. Hoje, há menos de 300, segundo a Associação dos Haitianos de Navegantes.

Uma das empresas pioneiras na contratação de caribenhos na região, a Itacorda, da indústria têxtil, chegou a bancar em 2012 passagens rodoviárias e estadia de um grupo que estava em Rondônia. A partir deste convite, os imigrantes passaram a ver Navegantes como um eldorado brasileiro, onde, mais do que empregados, eram abraçados pela indústria local.

A pujança econômica da cidade, que conta com um porto privado, um estaleiro e um aeroporto de passageiros e cargas, perdeu fôlego este ano por conta da crise econômica. Grandes estaleiros multinacionais, como Navship, Keppel e Detroit Brasil, passaram a demitir funcionários. A fila da sede do Sistema Nacional de Emprego da cidade cresce a cada dia, especialmente aquela para a obtenção do seguro-desemprego. Na terça-feira 3, o haitiano Charles Ernock aguardava na sala de espera do Sine para saber se alguma oportunidade havia surgido. Vestido com uma camisa de Fetiere Sterlin, com dizeres em crioulo equivalentes a “Fará muita falta”, os haitianos pareciam aguardar pelo pior. Everson dos Santos Vidal, diretor do órgão, sepultou qualquer esperança: não há vagas.

As trajetórias de Bethzatha, Chinita e Ernock têm um ponto em comum: a chegada ao Brasil sem visto. O haitiano saiu de seu país quando seu filho tinha apenas 2 anos. Nascido em Gonaïves, no norte do Haiti, Ernock embarcou em 2012 para o Panamá e de lá seguiu para o Equador. No país sul-americano negociou a entrada clandestina no Brasil com coiotes que realizam o transporte ilegal de imigrantes nas fronteiras. Segundo dados da Agência Brasileira de Inteligência, a rede de coiotes faturou mais de 60 milhões de dólares nos últimos quatro anos com o transporte de ao menos 38 mil haitianos. Para completar a travessia, Ernock pagou 3 mil dólares.

O haitiano desembarcou primeiro no Acre, onde permaneceu por poucos dias antes de seguir para Navegantes. A promessa de um emprego não se cumpriu. Tentou uma oportunidade em Cuiabá, onde ficou por três meses, sem sucesso. Voltou a Navegantes e arrumou vagas temporárias, entre elas a de servente de obras, um dos ramos que concentram mais imigrantes na cidade. Tímido, com dificuldade de se comunicar, conta seu plano. “Quero passar cinco anos no Brasil e voltar ao Haiti apenas para ver meu filho, por dois meses que seja.”

Ernock saiu frustrado mais uma vez da sede do Sine. A situação era inversa em 2014. Por causa do aquecimento da economia naval na região, sobravam vagas, em especial para indústria naval, responsável no ano passado por mais de 7 mil postos, o equivalente a 10% da população de Navegantes. “Chegamos a ter 600 vagas disponíveis. Hoje, há no máximo 50”, afirma Vidal. “Tenho me assustado com o tamanho da fila para obter o seguro-desemprego. Fico preocupado especialmente em relação ao próximo ano. Como a população vai se virar sem emprego e benefícios?”

Diante do aumento da procura, o Sine local suspendeu o atendimento prioritário a haitianos e passou a tratar todos os candidatos da mesma forma, embora mantenha uma funcionária que fala francês para facilitar a comunicação com os imigrantes. Sobre a resistência de algumas empresas a contratar estrangeiros, Vidal afirma jamais ter testemunhado preconceito, mas o baixo domínio da língua portuguesa pela maioria costuma ser um entrave.

O prefeito Roberto Carlos de Souza, do PSDB, garante que Navegantes é uma cidade acolhedora e procura desconstruir a tese de xenofobia na morte de Sterlin. “Não acredito nessa motivação de ódio racial. Foi algo localizado.” A investigação, diz Souza, aponta para o uso de drogas por parte dos adolescentes que cometeram o crime. “Lamentamos muito, mas não sinto esse preconceito na cidade.” Por enquanto, a polícia local também rechaça a tese de crime de ódio.

Sterlin haitiano
Sterlin foi espancado e esfaqueado por um grupo de dez jovens. Créditos: Reprodução

Para afastar a imagem negativa da cidade, o prefeito recorre ao fato de a Região Sul do País ter sido “construída por estrangeiros”. Há, de fato, muitos descendentes de açorianos, alemães e poloneses em Santa Catarina. Negros sempre foram, porém, minoria. A população do estado tem a menor proporção de pretos no Brasil, pouco mais de 15%, segundo o IBGE.  Souza afirma que casos de xenofobia em Navegantes não têm relação com racismo, mas com a disputa por vagas no mercado de trabalho.

Ao defender o “espírito tolerante da cidade”, o prefeito cita o Navegay, principal bloco carnavalesco da cidade. A atração anual costuma atrair milhares de homossexuais de Santa Catarina e do Brasil. Souza lembra que o bloco é alvo de críticas da comunidade evangélica local. “Infelizmente, vivemos um aumento da intolerância em todo o mundo.”

A comunidade haitiana de Navegantes não comunga da mesma opinião do prefeito. Seus integrantes temem novos ataques, e não apenas por conta da morte de Sterlin. Há quatro anos no Brasil, Teóphile Jean-Baptiste acabou de obter um certificado do Senai após a conclusão do curso de soldagem industrial de eletrodo revestido. Embora afirme se sentir bem, as notícias de outros conterrâneos vítimas de episódios violentos no restante do País o preocupa. “Não sei o que acontece, mas há vários casos de intolerância. Recentemente, atiraram em haitianos sem motivo algum em São Paulo.”

O caso mencionado por Jean-Baptiste ocorreu em agosto deste ano. Seis haitianos foram alvejados por tiros de chumbinho em dois ataques distintos na Baixada do Glicério, no centro da capital paulista. De acordo com uma das vítimas, um dos agressores teria dito antes de disparar: “Haitianos, vocês roubam nossos empregos”. Em junho, um vídeo no YouTube gravado pelo gerente de vendas Daniel Barbosa impressionou pelo explícito teor de xenofobia. Barbosa agrediu verbalmente dois haitianos que trabalhavam como frentistas em um posto de gasolina na região metropolitana de Porto Alegre e filmou sua covardia. “Você é um cara de sorte, irmão. Aqui tem um dos milhares de haitianos trazidos pelo governo comunista de Dilma Rousseff, enquanto milhares de brasileiros no mês passado perderam o emprego no Brasil.”

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Segundo o prefeito de Navegantes, o crime foi um caso isolado, ligado a drogas. Créditos: Jean Knetschik

Embora se sintam desamparados após a morte de Sterlin, os haitianos conseguiram importantes aliados locais para defender seus direitos. Em 2013, João Edson Fagundes, professor de sociologia e filosofia da rede pública, propôs à sua turma do 9º ano uma pesquisa de campo sobre o perfil dos migrantes que chegavam às dezenas em Navegantes. A pesquisa oferece bons subsídios a respeito da situação dos imigrantes naquele ano.

Segundo o levantamento dos alunos, 42% dos entrevistados possuíam ao menos ensino médio completo. Além de falar francês e crioulo, 72% dominavam o espanhol, por conta da proximidade do Haiti com a República Dominicana. A maior parte dos haitianos de Navegantes, indicou a pesquisa, é evangélica, apesar de o país caribenho ter, como o Brasil, maioria católica. À época do levantamento, 70% estavam empregados e 29% afirmavam ter sido vítimas de preconceito na cidade.

Pouco após coordenar a pesquisa, Fagundes foi convidado pelo presidente da associação de haitianos a dar uma aula de português para seus conterrâneos. Em pouco tempo, organizava a festa de fim de ano da comunidade, levava mulheres doentes ou grávidas para o hospital e auxiliava mães a conseguir vagas em creches. Até time de futebol ajudou a montar. Depois de algumas derrotas por goleada, os haitianos foram desclassificados do campeonato municipal, não por xenofobia, mas por W.O. “O ônibus que transportava a delegação partiu para o bairro de Porto de Escalvados, mas na verdade o jogo era em Escalvados”, lembra o professor, aos risos.

Colega de Fagundes na rede pública, a professora Tatiana Pawlenko integrou o projeto e passou a dar aulas de português para os haitianos aos domingos na sede da associação, sala cedida pela prefeitura em uma escola municipal. Após a morte de Sterlin, a professora diz que a turma está muito abatida. “Aconselhei-os a não responder quando fossem chamados de macici, a única palavra em crioulo que os locais parecem ter aprendido”, diz. “Eles sempre reclamam de preconceito. Santa Catarina tem tido dificuldade de abraçá-los.”

Segundo Tatiana, a maior parte dos migrantes recebe menos de mil reais por mês, mas envia metade de seu salário para familiares no Haiti. Com a alta do dólar, as remessas tornaram-se mais complicadas. Para mandar recursos ao país de origem, eles costumam converter parte de seus vencimentos na moeda norte-americana.  Em janeiro do ano passado, 500 reais rendiam mais de 200 dólares. Hoje o valor é pouco superior a 100. No caso dos desempregados, a situação tornou-se contraditória. “Antes, mandávamos dinheiro para nossos parentes. Agora, são eles que nos enviam”, diz Chinita.

Desanimada quanto ao futuro, a haitiana quer um dia morar na América do Norte, sonho compartilhado por vários de seus conterrâneos. “Falam que nosso país não tem nada, mas aqui também não tem tanto assim. Nós pensávamos que seria parecido com os Estados Unidos. Lá é muito melhor.” Se aqui os haitianos são alocados em atividades mal remuneradas, nos EUA a oferta de empregos é mais vantajosa. Talvez muitos tenham se interessado pelo Brasil na esperança de serem acolhidos em um país de maioria negra. Com a escalada do preconceito no País, a população haitiana de Navegantes sente na pele a queda vertiginosa dos mitos da democracia racial e da hospitalidade brasileiras.