Você está aqui: Página Inicial / Revista / Assim caminha o Brasil / Higiene e asma
Número 875,

Saúde

Substância

Higiene e asma

por Drauzio Varella publicado 16/11/2015 05h10
A enzima A20 ajuda a desvendar por que crianças do campo têm menos asma
iStockphoto

Crianças da zona rural têm menos asma. Na cidade, as que frequentam creches ou vivem em famílias numerosas são menos suscetíveis do que os filhos únicos criados em ótimas condições de higiene. Há 26 anos, essas observações serviram de base para a “hipótese higiênica”, segundo a qual o estilo de vida relativamente livre de germes da infância de hoje e o uso disseminado de antibióticos teriam impacto negativo no funcionamento harmonioso do sistema imunológico.

A convivência com microrganismos pouco agressivos presentes no ambiente desde o tempo de nossos antepassados, modularia a resposta imunológica para evitar reações exageradas a substâncias estranhas, já nas primeiras fases do desenvolvimento.

A suspeita recaiu sobre o ar respirado desde as mais tenras idades na zona rural, rico em fragmentos de moléculas das paredes celulares de bactérias mortas: os lipopolissacarídeos. Também conhecidos como endotoxinas, esses fragmentos causariam um estado temporário de inflamação nos pulmões, que de alguma forma lhes diminuiria a capacidade de reagir com energia desproporcional aos alérgenos do ambiente.

Um grupo europeu acaba de publicar na revista Science um estudo que propõe uma nova explicação para o efeito protetor das endotoxinas. Os pesquisadores demonstraram que a injeção de lipopolissacarídeos na mucosa nasal de camundongos com 6 meses a 1 ano de idade é capaz de protegê-los mais tarde contra a asma causada pelos germes existentes na poeira.

A proteção estaria associada à menor produção de moléculas pró-inflamatórias, das células que revestem a superfície interna dos pulmões, ao entrar em contato com o pó. Uma enzima (A20) existente nas células dessa camada interna teria papel central no bloqueio parcial da resposta inflamatória. Camundongos transgênicos que não produzem a enzima A20 não são protegidos contra a asma pela administração de endotoxinas. 

Quando foram testadas as células brônquicas de pessoas saudáveis, a exposição às endotoxinas reduziu a liberação de moléculas pró-inflamatórias em níveis semelhantes aos encontrados nos camundongos. Nos asmáticos, a diminuição foi menos acentuada.

Finalmente, em cerca de 500 crianças do ambiente rural que foram estudadas, aquelas com mutações que reduzem a produção de A20 têm cinco vezes mais chance de apresentar asma. O pneumologista Bart Lambrecht, envolvido no estudo, diz: “Precisamos dessa exposição ambiental para esfriar o epitélio respiratório e ensiná-lo a distinguir o que é do que não é perigoso”.

É provável que a atividade da A20 também seja importante para restringir a reatividade excessiva da mucosa intestinal dos recém-nascidos, de modo a torná-la tolerante às bactérias que ajudam a digerir os alimentos. Falta demonstrar se esse efeito protetor persiste durante a vida adulta, e explicar por que a ingestão de leite não processado também protege contra a asma, embora não entre em contato com as mucosas respiratórias. 

registrado em: , , ,