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Número 875,

Sociedade

Cariocas

Falou, bicho

por Carlos Leonam — publicado 14/11/2015 07h39
Checar a paternidade de certas palavras e gírias é chegar, com certeza, à velha turma do Pasquim
Jaguar
Cariocas

jornalista-escritor Ruy Castro, há dias, numa crônica na Folha, escreveu sobre o que chamou de “palavras com pai ou mãe”. Quer dizer, palavras e expressões “que, de tanto as usarmos, parecem ter surgido do nada ou sempre existido”, mas que apareceram no século passado e “tiveram pais conhecidos e hora para nascer”. 

A maioria das que citou teve seu berço, friso eu, no Pasquim, aquele jornal contestatário que debochou da ditadura e chegou a levar seus redatores para temporadas nos porões da Barão de Mesquita e em outros quartéis do Exército. Alguns vocábulos faziam parte do dialeto dos surfistas do Arpoador e de bares de Ipanema, onde a patota se reunia (olha aí outra expressão criada por aquele pessoal, digo, patota). Outros vieram da Mangueira, desceram o morro quando a classe média desbundou, como me disse Hélio Oiticica.

Alguns de seus autores são conhecidos, como Paul Francis (que, com a tradução de Ulisses debaixo do braço, gostava de dizer que “intelectual não vai à praia”). O chargista Jaguar também foi responsável por algumas tiradas pasquinesas, mas ninguém superou Ivan Lessa, nas dicas (outro neologismo) do supracitado Pasquim, que lançou de quebra a palavra “duca”.

Sobre a frase de Francis, Ivan Lessa me esclareceu, numa carta: “Verdade: 1959. Estou trabalhando como redator da revista Senhor. Levado por Francis, amigo meu desde 1953. Alcina, uma secretária de lá, então namorada de Francis, insistia para ele aparecer no Posto 3 e meio, onde ela morava, para os, digamos, banhos. Francis impávido, o queixo erguido: ‘Intelectual não vai à praia’. Flash forward para 1968. Sou ghost writer de Jaguar. Mandando mesmo de Londres os escrípitis para Os Chopnics. Jaguar pagava religiosamente a Elsie, minha mãe, os cobres que a Skol dava a ele e a comissão que ele julgava que eu merecia (era generoso). Num roteiro, taquei lá o BD (o Capitão Ipanema) com a frase já célebre no grupo, mais o adendo, “intelectual bebe”. Essa a verdade. Pode confrontar o Jaguar à vontade com ela. Também não é nada digno de um Wilde ou Shaw, não é mesmo? Apenas para constar”. 

Nesse depoimento, Ivan também desmentia Francis, já que era um antigo moleque de praia, no caso a de Copacabana, nos anos 1950, cujo boteco pioneiro, a Gôndola, e a Galeria Dezon eram frequentados aos borbotões pelo pessoal do teatro e da imprensa cariocas.

Ruy Castro fala também do termo fossa – para depressão, angústia, derivada de um filme de sucesso, a Fossa da Serpente/The Snake Pit. Cita ainda mifu, sifu, mídia, devagar quase parando, contracultura, aspone – ou o assessor de porra nenhuma, como o economista e boêmio Roniquito de Chevalier se identificava, desde que Walter Clark, o chefão da Globo, o contratara.

Ruy diz ainda que fui eu quem lançou, 1963, a expressão esquerda festiva, no Jornal do Brasil, ao explicar que era ela que havia se reunido numa festa, hoje legendária, no antigo Bar Bem, em São Conrado, e igualmente citada por Elio Gaspari no seu livro sobre os idos de março de 1964.

Gostaria ainda, aproveitando a deixa, de dizer que a palavra colunável, que nomeava, sem citar, personagens do soçaite carioca que sobravam nas citações de presenças, na coluna de Carlos Swann, do Globo, foi um achado de coeditor Fernando Zerlottini, quando assumimos em 1974. O vocábulo, hoje, está nos dicionários e deu origem a presidenciável, ministeriável etc.