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Número 875,

Cultura

QI

Brando x Bogart

por Nirlando Beirão publicado 15/11/2015 07h30
Dois ícones de gerações diferentes. E novas revelações sobre o estofo humano de que são feitos os ídolos
Columbia/The Kobal Collection/AFP
Brando-e-Bogart

De um lado, o Johnny de O Selvagem (1953): moto e jaqueta de couro. De outro, Parry, em Prisioneiro do Passado (1947): o olhar fuzila

Aquela qualidade icônica que o sexo feminino extravasou nas telas na figura de Audrey Hepburn, mais até do que no padrão hollywoodiano loira-lesada-e-indefesa-mas-sedutora de Marilyn Monroe, tem seu equivalente entre os homens em Marlon Brando. Ou será melhor dizer: em Humphrey Bogart? Eis aí uma competição que tende a não ter jamais um claro vencedor, com as respectivas facções exacerbando as virtudes de um e os defeitos do outro. Em vídeo e no papel, novas publicações chegam para botar mais fogo na disputa.

Até sua morte, em 2004, aos 80 anos, Brando foi tão rigoroso na proteção à sua privacidade quanto foi intenso na manufatura de seus personagens. Raramente falava à imprensa – menos ainda quando o assunto era ele mesmo. No entanto, o que Brando cuidava, na intimidade, era de tecer a versão de sua própria vida. Gravou, em fitas de áudio, mais de 200 horas de depoimentos, ao longo de meio século a partir do início dos anos 50, quando chegou ao cinema, musculoso e bonito, reprisando o papel que o consagrara no teatro, o Stanley Kowalski de A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo), de Tennessee Williams. 

O-Poderoso-Chefao
Em O Poderoso Chefão, o sotaque é Brando / Créditos: Paramount/The Kobal Collection/AFP

Listen to Me Marlon é o pungente, surpreendente documentário que resultou da edição das fitas que até mesmo a família desconhecia. O diretor inglês Stevan Riley (de Blue Blood) e o produtor John Battsek (Oscars de documentário por One Day in September e Searching for Sugar Man). O filme é Brando pela voz de Brando, sem a interferência de interpretações alheias, e tendo como ilustração apenas clipes de seus filmes e os fiapos de suas raras entrevistas. Ele por inteiro, sem as máscaras que emprestava a seus tipos memoráveis, de Júlio Cesar a Don Corleone, de Emiliano Zapata ao Coronel Kurtz de Apocalypse Now

Ele, Marlon Brando: um autodidata voraz que reuniu 4 mil volumes em sua biblioteca, gênio construído no alicerce esponjoso de uma atroz autocrítica que beirava a insegurança, um talento nem sempre compreendido – e respeitado – ainda que bafejado de elogios contundentes, tais como o de Martin Scorsese, que nem sequer teve coragem suficiente para escalar o monstro em algum de seus filmes, e apesar disso, dividia a arte de atuar em “antes de Brando” e “depois de Brando”.  

“Antes de Bogart” e “depois de Bogart”, corrigiriam os nostálgicos de uma época em que o carisma dramático se exprimia melhor quando imerso nas brumas da película em preto e branco e nas tramas do film noir. Alinhado com eles está o próprio American Film Institute, que optou por Humphrey Bogart (1899-1957) como “a maior estrela masculina do cinema americano de todos os tempos”. Uma contribuição brasileira, assinada por Luis Felipe Sobral, doutorado em Antropologia Social pela Unicamp, vem reforçar agora a auréola do mito, na forma do livro Bogart Duplo de Bogart (subtítulo: Pistas da persona cinematográfica de Humphrey Bogart; Editora Terceiro Nome/Fapesp, 148 págs., 35 reais).  

Casablanca
O Rick de Casablanca / Créditos: Pictures/AFP

Sobral recorta seu personagem no período de 1941 a 1946, quando aquele nova-iorquino de pai médico e mãe artista, morador no Upper East Side, recebia enfim de Hollywood o reconhecimento que o cinema tanto relutara em lhe dar. Nas duas coisas, Humphrey e Marlon eram totalmente diferentes: nas predestinações sociais do berço (Brando nasceu de família pobre no desprezível Nebraska) e no timing do sucesso. Ambos vieram do teatro, mas o sucesso instantâneo de Brando o catapultou automaticamente para o cinema; Bogart penou em 21 peças da Broadway e numa sucessão de papéis de coadjuvante no cinema antes de se consagrar em A Relíquia Macabra (The Falcon Maltese), dirigido por John Huston.

Na intriga engendrada por Dashiell Hammett, o detetive Sam Spade ofereceu a Bogart a definitiva virada em sua trajetória até então esforçada. Observa Sobral: Spade ilumina, com seu cinismo pragmático, dilacerado entre o amor e o ódio diante das mentiras da perigosamente sedutora Brigid O. Shaughnessy, o estilo pessoal, de magnetismo ambíguo, a alguns passos da caricatura, que levou Bogart ao olimpo da iconografia cinematográfica. Quando, um ano depois, Humphrey Bogart compartilhou com Ingrid Bergman o triunfo de público e crítica que foi Casablanca, de Michael Curtiz, o fascínio dele já não deixava dúvidas.

Seja em Brando, seja em Bogart, o arquétipo do astro que vai além da realidade está embebido em amoralidade. E tanto um quanto o outro podem até dar a impressão de estar sempre fazendo o mesmo papel – no fundo, o papel de si mesmos. Mas é a isso que se chama estilo. Até na voz meio roufenha, mais acentuada em Bogart, mas exercitada por Brando em seu Chefão, eles são únicos. Sem falar nos cacoetes, nos trejeitos, tantos que não surpreende que os dois estejam sempre sujeitos a paródias nem sempre lisonjeiras (a que Woody Allen faz de Bogart em Sonho de Um Sedutor é, no entanto, uma deliciosa homenagem). O certo é: quem quer que tome partido nessa duradoura rivalidade estará fazendo uma digna homenagem ao cinema.