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Número 874,

Cultura

Exposição

Para vestir a arte

por Rosane Pavam publicado 08/11/2015 08h55, última modificação 16/11/2015 05h12
O Masp exibe 78 peças demonstrativas da Rhodia
Eduardo Ortega
vestidos curtos

Vestido curto trapézio (1968), de Maria Bonomi, e o croqui de Alceu Penna.

Curadoria não era algo que Livio Rangan imaginasse fazer. Nos anos 1960, sua atribuição como funcionário da multinacional Rhodia (Arte na Moda: Coleção Masp Rhodia, Museu de Arte de São Paulo. Até fevereiro de 2016) resumia-se a gerir a publicidade da empresa, então mergulhada na difícil tarefa de difundir o fio sintético no Brasil. Os olhos públicos eram hostis, à época, às roupas confeccionadas a partir de tecidos entendidos como pobres ou padronizados, e Rangan precisou trabalhar contra esse amplo entendimento na medida da urgência criativa. Seu caminho foi o de adicionar ao produto desprezado a marca de autenticidade da arte.

Naqueles anos, o gerente-curador exibiu seu produto em eventos exuberantes, quase espetáculos musicais, sob a condução de talentos como os de Rita Lee e Gilberto Gil. Durante as feiras nacionais da indústria têxtil, seu papel era o de estimular o gosto público por meio de desfiles espetaculares, mas não só isso. As roupas demonstrativas, jamais vendidas, eram também concebidas em grande parte por ele. O gerente intermediava as criações de artistas do período, Fernando Martins,  Hércules Barsotti,  Aldemir Martins ou Maria Bonomi, à dos designers, como Ugo Castellana , Alceu Penna e Dener.

Rangan, portanto, não fez moda, antes transformou a arte em vestidos ou os vestidos em arte. Promoveu geometrias e abstrações a partir de uma temática brasileira, de sua vegetação, fauna ou religiosidade. Em 1972, o fundador do Masp, Pietro Maria Bardi, recebeu naturalmente a doação desse material, pois fora ele mesmo a incentivar a moda brasileira 20 anos antes, ao promover, nas dependências do museu, um desfile pioneiro. 

Até recentemente, as 78 peças agora exibidas sob a curadoria geral do diretor-artístico Adriano Pedrosa, da curadora-adjunta Patrícia Carta e do curador Tomás Toledo vinham guardadas em caixas do acervo. O trabalho de curadoria incluiu reanimar os tecidos. Como obras de arte, as peças não poderiam ser passadas a ferro ou esticadas a vapor. Eis por que calças, casacos, vestidos, túnicas e sobreposições permaneceram por três meses pendurados em cabides, à espera que a pressão natural os esticasse e revitalizasse.

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