Você está aqui: Página Inicial / Revista / Discussão errada, obras certas / Entre mares galáticos
Número 874,

Internacional

The Observer

Entre mares galáticos

por Robin McKie — publicado 08/01/2016 23h58
A busca dos cientistas por água não se restringe a Marte
Alfred McEwen/JPL/University of Arizona/NASA
Marte

A descoberta de água existente no Planeta Vermelho reabre o questionamento sobre vida em Marte

Sem água, a vida como a entendemos seria impossível. É a principal substância da qual nossa vida depende. E agora foi encontrada pelos morros vermelhos e empoeirados de Marte. A descoberta, anunciada pela Nasa poucos dias atrás, de que o Planeta Vermelho tem água corrente deu uma grande esperança aos cientistas que procuram vida em Marte. Como disse Jim Green, diretor de ciência planetária da agência espacial dos Estados Unidos, “se você examinar a Terra, a água é um ingrediente essencial. Onde quer que encontremos água, encontramos vida”.

Daí a comoção internacional com a descoberta, embora a caçada por água, e por vida, no sistema solar não se restrinja a Marte. Na verdade, astrônomos descobriram recentemente que nosso sistema solar é cheio de reservas imensas da substância, incluídas várias luas de Júpiter e Saturno. Agora os pesquisadores disputam verbas de apoio a projetos para estudar esses mundos muito diferentes e notáveis, mesmo se alguns deles se encontrarem a mais de 1,5 bilhão de quilômetros do calor benfazejo do Sol.

É um passeio pelo sistema solar que nos leva às profundezas do espaço, embora comece em Marte, um de nossos vizinhos mais próximos. Engenheiros espaciais têm enviado sondas para lá há décadas, mas até recentemente seu histórico era fraco, pois um grande número delas desapareceu ou se chocou contra o alvo. Os índices de sucesso melhoraram na última década, porém. Em consequência disso, hoje há cinco satélites na órbita de Marte, todos a enviar dados, enquanto dois veículos de exploração robóticos continuam a chacoalhar em sua superfície. 

Tamanhos-Relativos
Créditos: NASA

Essa armada levou, no entanto, muito tempo para encontrar evidências de água no planeta, o que mostra como as condições em Marte são inóspitas e áridas. Sua pressão atmosférica é de apenas 0,6% a da Terra, e sua superfície é bombardeada por radiação ultravioleta. Qualquer reservatório de água ou depósito de formas de vida só pode existir no subsolo, calculam os cientistas. Encontrá-los será difícil. 

Um esforço ousado será feito pela missão europeia ExoMars, em 2018. Lançada em um foguete russo Proton, ela deverá depositar no planeta um módulo de pouso que está em construção em
Stevenage, na Inglaterra. O veículo será equipado com uma longa broca que permitirá retirar amostras de solo de 2 metros de profundidade. Estas serão analisadas em busca de sinais de atividade biológica.

“A ExoMars foi projetada para identificar materiais orgânicos complexos, mas de uma maneira que permitirá aos cientistas na Terra determinar se eles foram produzidos por organismos vivos ou por simples atividade química”, disse Ralph Cordley, um líder do projeto da missão. “O fato de hoje termos encontrado sinais de água corrente na superfície marciana é enormemente animador, é claro.” 

A água em Marte continua a ser uma perspectiva fascinante, principalmente em comparação com várias outras partes do sistema solar onde ela existe em abundância. Destas, Europa, uma das principais luas de Júpiter, é provavelmente a mais notável. Coberta por uma capa de gelo, ela é o objeto mais suave do sistema solar (com a possível exceção de George Clooney) e é conhecida por ter um reservatório de água misturada com matéria orgânica, muito abaixo da superfície.  

Esse oceano alienígena também é considerado um lugar provável para se encontrar vida, e duas missões diferentes, a ser lançadas por volta de 2020 para estudar Europa, estão em fase de projeto: a missão americana Europa e a missão europeia Juice (Jupiter Icy Moon Explorer, ou Explorador da Lua Gelada de Júpiter). Esta última vai se concentrar em Europa, a partir de dezenas de sobrevoos em sua superfície, na tentativa de detectar qualquer material orgânico complexo que possa evaporar da superfície. 

“Se houver vida em Europa, quase com certeza será completamente independente da origem da vida na Terra”, disse Robert Pappalardo, o cientista de projeto da missão. “Europa é tão importante, pois queremos compreender se somos os únicos no universo.”

Nem todo mundo concorda com essa ideia da importância primordial de Europa. John Zarnecki, diretor do Instituto Internacional de Ciência Espacial em Berna, na Suíça, acredita que um alvo ainda mais distante oferece maiores promessas de se encontrar vida aquosa no sistema solar: Titã. Na órbita do planeta Saturno, a 1 bilhão de quilômetros da Terra, descobriu-se que essa lua, com uma espessa atmosfera de nitrogênio, é um mundo com lagos e mares de metano em sua superfície. 

“Ela também tem grandes extensões de dunas e hidrocarbonetos complexos”, disse Zarnecki, um dos projetistas de instrumentos-chave para a sonda Huygens, que pousou em Titã em 2005. “O mais animador de tudo, porém, são os sinais fornecidos por estudos com radar de que Titã também tem um oceano abaixo da superfície que poderia oferecer um lar para a vida primitiva”, acrescenta. “Titã, provavelmente, tem um núcleo quente que mantém essa camada de água em estado líquido. Portanto, temos a perspectiva de uma rica sopa de hidrocarbonetos criados na superfície e que poderiam vazar pela crosta de Titã até um oceano subterrâneo. Perfeito para a vida. Pode haver colônias de micróbios a prosperar lá embaixo.”

Mares-e-Oceanos-no-Espaço
Créditos: University of Arizona

Titã é distante, e perfurar sua superfície até um oceano subterrâneo será extremamente difícil. Uma ideia é pousar uma espaçonave em um dos lagos de metano do satélite, onde ela poderia navegar em busca de substâncias químicas complexas, precursoras da vida. A missão, chamada TIME, sigla de Titan Mare Explorer, foi, no entanto, recentemente vetada por autoridades da Nasa, embora John Zarnecki e outros esperem a sua ressurreição.

Titã não é a única lua de Saturno que chama a atenção. Observações da sonda robótica Cassini, na órbita de Saturno desde 2004, mostraram que no polo sul de Encélado um oceano subterrâneo parece aproximar-se da superfície. E em alguns locais surgiram rachaduras que permitem à água borbulhar na superfície da pequena lua antes de ser projetada no espaço. Além disso, substâncias químicas complexas parecem ter se acumulado em seu mar.

A importância dessa combinação de fatores é salientada por Chris McKay, astrobiólogo da Nasa. “Encélado é um pequeno mundo com um oceano abaixo de sua superfície gelada. Ainda melhor, jatos de vapor desse oceano são expelidos ao espaço, e isso significa um fácil acesso. Esse é o lugar para onde devemos ir”, insiste.

Planos minuciosos foram feitos para lançar uma sonda que varreria a superfície de Encélado para reunir gotículas de água em seus jatos. Instrumentos da espaçonave, chamada Enceladus Life Finder, ou Descobridor de Vida em Encélado, analisariam essas gotas em busca de aminoácidos, isótopos de carbono e outras características que indicariam atividade biológica. “Também estudaríamos o oceano de Encélado em detalhes, assim como os vapores de água que ele produz”, disse o líder do projeto, Jonathan Lunine. “Pode ser um oceano estéril ou pode ser um lugar onde claramente há vida.” Se for essa segunda opção, outra missão seria projetada para trazer amostras à Terra.

O projeto teve o apoio de vários cientistas importantes, mas recentemente sofreu um grande revés, quando a Nasa o retirou de sua lista de futuras missões planetárias. “Vamos reformular o projeto e reapresentá-lo, mas não há dúvida de que isso nos fez recuar dois ou três anos”, disse Lunine. É duvidoso que uma missão possa alcançar Encélado antes de 2030. Tampouco há grande perspectiva, no presente, de que uma missão a Titã possa chegar lá antes disso. “Marte e Europa são os dois preferidos hoje”, reconheceu Lunine. “Se continuarão assim é outra questão.”