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Número 872,

Cultura

HQ da crise

Super-heróis no divã

por Nirlando Beirão publicado 29/10/2015 04h45
Eles estão apanhando mais da realidade do que dos vilões
DC Comics
Batman-#44

De repente, os aliados do combate ao crime também são criminosos

Na sombria gotham city, crimes acontecem todos os dias, a despeito da patrulha do incansável Batman nos telhados da metrópole. No novo capítulo de sua saga (Batman#44), o Rei das Trevas se vê desafiado pela morte de um adolescente negro, vestido num daqueles típicos suéteres de capuz. O enredo lembra o rumoroso assassinato de Michael Brown, 18 anos, por um policial branco, em Ferguson, Missouri, um ano atrás; e também o de Trayvon Martin, 17 anos, num condomínio rico da Flórida. 

De repente, o sofrido Homem-Morcego é estapeado não por seus impertinentes vilões, mas pela cruel realidade do racismo – e da brutalidade e da corrupção na polícia. Percebe: os aliados do combate ao crime também podem se tornar criminosos.

É, de novo, uma história em flashback, escrita por Scott Snyder e desenhada por Jock, como várias outras em 75 anos de um personagem cujo passado é um fardo, ele que presenciou, criança, o assassínio de pai e mãe por um assaltante, explicação para seu humor cavernoso e para aquilo que um psicanalista chamou “um permanente estado de negação”.

Que inclusive impede o alter ego Bruce Wayne de usufruir a expectativa erótica que tanto lhe atribuem: a homossexualidade. Não, o Morcegão não tem nada com o menino Robin, tanto que o parceiro, agora crescidinho, foi despachado para outras paragens. A canhestra tentativa de fazê-lo interessar-se por uma Batgirl, vilã provocadora, revelou-se infrutífera.

Homem-Aranha
O Homem-Aranha deixou de ser o adolescente deprimido para ser o adulto deprimido / Marvel Comics

A moça desistiu e acaba de assumir que é lésbica. Na mesma linha sair-do-armário, a Mulher Maravilha, encomendada para estimular o Super-Homem, depois de completar com sua irrefreável libido o álbum completo da Sala da Justiça resolveu diversificar.

Avisou ao mundo que é bissexual. Já o Super-Homem, pioneiro dos super-heróis, gerado em 1938, ainda que procedente de uma civilização superior, aqui continua travadão, disfarçado em jornalista – medíocre – de um jornal de província.  

Mulher-Gato
Com sua habitual vilania, a Catgirl tentou em vão seduzir o Batman. Aí, saiu do armário / DC Comics

Sempre foram complicados, disfuncionais, os campeões dos quadrinhos, mas as piruetas do tempo têm sacudido suas rotinas e suas certezas. O Incrível Hulk tornou-se um monstrengo incontrolável e não é somente porque alguém pode confundi-lo com aquele homônimo, atacante da Seleção Brasileira dos 7 a 1.

O Homem-Aranha, gestado na atmosfera de moralidade ambígua dos anos 60, continua enredado numa teia de neuras pegajosas, não mais na identidade secreta daquele estudante rejeitado e solitário, mas como fotógrafo freelancer, igualmente inseguro. 

Hulk
O Incrível Hulk perdeu de vez o controle. Terá alguma coisa a ver com aqueles 7 a 1? / Marvel Comics

O Capitão América, que surgiu em 1941 para enfrentar, primeiro, os nazistas e, depois, os comunistas, perdeu as ilusões no Vietnã e nem sequer aventurou-se pelos atoleiros do Iraque e do Afeganistão.

Num texto publicado nos anos 70, Jô Soares tira-lhe a máscara chauvinista e percebe como o seu escudo estrelado exprime a hipocrisia da política externa americana. O escudo é uma arma de defesa nas mãos de um personagem que, no entanto, só pensa em atacar e agredir. 

Mulher-Maravilha
A insaciável parceira do Super-Homem saciou-se com todo o elenco e ainda diversificou / DC Comics