Você está aqui: Página Inicial / Revista / Cunha encolhe / O seu lugar no mundo
Número 872,

Cultura

Cinema

O seu lugar no mundo

por Rosane Pavam publicado 22/10/2015 04h51
A Mostra Internacional de São Paulo dribla a crise para apresentar as desilusões contemporâneas
Chronic

Tim Roth em "Chronic"

As cinzas cobrem o corpo dos cortadores de cana avizinhados aos incêndios, as vespas ameaçam a cidade fugidas do fogaréu e os corpos quase inertes pela doença vivem as últimas horas sob as mãos paliativas.

A 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo não tem boas notícias a dar sobre o lugar que ocupamos. São quase inequívocos a esse respeito os 311 títulos, de 62 países, a ser exibidos em 22 endereços na capital paulista, no interior do estado e no Rio de Janeiro, entre 22 de outubro e 4 de novembro. O mundo está na UTI e devemos nos preparar para a cerimônia do adeus.

Não à toa, uma das mais importantes ficções programadas para o evento, Chronic, dirigida em inglês pelo mexicano Michel Franco, gira em torno de um enfermeiro de pacientes graves, vivido por Tim Roth. O ator inglês, também produtor-executivo da obra, premiada pelo roteiro no último Festival de Cannes, surge no filme como se houvesse pertencido sempre às enfermarias.

Seu papel reveste-se de simbologia, assim como o de Robert de Niro em Taxi Driver, de Martin Scorsese, diretor cujos desenhos, presentes no storyboard de seu filme recente, Silence, servem à confecção do cartaz desta edição da mostra.

Mil-e-uma-noites
A baleia metafórica de "As Mil e Uma Noites"

O evento homenageia sua The Film Foundation, que em 25 anos restaurou 25 filmes de 19 países, entre eles o brasileiro Limite, de Mário Peixoto, incluído em uma retrospectiva junto a outros célebres recuperados pelo cineasta.

Todos sabem que os bons perderam. Eis por que parecem desnecessárias as investigações sobre as causas do desastre e urge tratar das vítimas. É como se o alerta dado por tantas obras-primas políticas do passado, entre elas Salvatore Giuliano, de Francesco Rosi, presente na Retrospectiva The Film Foundation, de pouco servisse após o mal plenamente feito.

Os filmes da mais importante mostra brasileira sinalizam que não nos sentimos preparados para virar a mesa, nem mesmo à primária moda do taxista vingador. Antes, será preciso encenar com bom ritmo os cuidados finais ao paciente, como fez Michel Franco em Chronic, ou entender a tragédia com viés humorístico, como providenciou Miguel Gomes na meditativa trilogia As Mil e Uma Noites.

A-terra-e-a-sombra
O colombiano "A Terra e a Sombra"

Gomes é uma espécie de Jean-Luc Godard português, ainda que no primeiro título da trilogia descarte ironicamente, por meio da narração em off, a reflexão intelectual para uma invasão das vespas: “Eu sou burro para a abstração”.

Embora ostente o título das fábulas de Sherazade para adiar a morte, estas de Gomes, apenas inspiradas no formato dos contos orientais, talvez fizessem cochilar um grão-vizir. Nos três filmes, o segundo deles indicado por seu país a concorrer ao Oscar de melhor estrangeiro, o diretor apresenta os portugueses como vítimas da crise mundial, provocada por risíveis banqueiros de “pau feito”.

Seus compatriotas estão perdidos existencialmente a ponto de, em um dos episódios, mal detectarem se a baleia morta na praia (uma metáfora para seu sonho ou seu país) é mesmo um cadáver.

Reinam na mostra os tempos mortos praticados pelo diretor chinês Jia Zhangke, provados pioneiramente pelo italiano Vittorio De Sica no clássico Umberto D. Roteirizado por Cesare Zavattini, seu filme de 1952 expunha de forma incomum a velhice desprovida de recursos.

O-Ladrão-Apaixonado
Magnani e Totò em "O Ladrão Apaixonado", de Monicelli
Uma sequência de dez minutos mostrava uma servente ao entrar na cozinha, acender o fogo, colocar a panela, jogar água sobre as formigas e tomar a temperatura do velho. Eram manobras triviais, sem uso no cinema comercial, e por isso provocavam a admiração de realizadores como Luis Buñuel.

Hoje, tais procedimentos se tornaram disseminados, quase a razão de ser dos filmes, a exemplo do vencedor do prêmio Caméra d’Or no Festival de Cannes A Terra e a Sombra. Dirigido pelo colombiano César Augusto Acevedo, repete a sensação de impotência assistencial herdada daquele De Sica.

Um velho fazendeiro que abandonara a família retorna porque seu filho, gravemente doente, vê-se em enfermaria doméstica, resignado diante da insensibilidade de seus empregadores no plantio da cana.

A mostra está em busca, portanto, de mais contornos para a verdade contemporânea, esta que Gabriel Mascaro investiga em Boi Neon. Premiado na seção Horizontes do Festival de Veneza e no Festival do Rio, o filme brasileiro atualiza o Sertão, um lugar onde o exercício da costura agora é permitido ao vaqueiro.

Nesse modo contemporâneo de ver o mundo, as ironias também são bem-vindas. Kaminsky e Eu, o primeiro longa ficcional de Wolfgang Becker após Adeus, Lênin, de 2003, cerca o intento de um repórter que, imbuído de escrever sobre a vida de um artista, deseja sua morte. Visita ou Memórias e Confissões é o desconhecido filme documental que Manoel de Oliveira imaginou ser seu último, embora à época vivesse 74 de seus 106 anos.

Em Meu Amigo Hindu, Hector Babenco relata o drama de fundo autobiográfico sobre os dilemas de um cineasta sobrevivente de longa doença. E José Mojica Marins, o cineasta brasileiro, tem retrospectiva a homenagear seus 80 anos.

Um grande impacto ainda parece reservado ao passado. Em sua maioria, é dos filmes realistas que a revolução parece continuamente feita, a exemplo daquela contida em Os Campos Estão Mortos, filme no qual o diretor Elmanno Olmi, aos 84 anos, narra eventos transcorridos no front italiano durante a Primeira Guerra Mundial.

Assistir à sua obra recente talvez se possa comparar à oportunidade de ver pela primeira vez em tela grande um marco cinematográfico como Aconteceu Naquela Noite, de 1934. O filme de Frank Capra, restaurado, engendrou de delicioso modo a crítica social. No filme, Claudette Colbert foge do casamento arranjado e delicadamente derruba as muralhas de Jericó da moral conservadora ao lado de Clark Gable.  

Rir, ensinou Mario Monicelli, é demolir, algo que se poderá provar na homenagem a seu centenário de nascimento. “Todo diretor de cinema, antes de fazer uma comédia, deveria trancar-se em uma sala para ver os filmes de Monicelli”, declarou em entrevista coletiva a diretora da mostra, Renata de Almeida, que apenas à última hora reuniu os seis patrocinadores necessários à concretização do evento.

39-Mostra-Internacional-de-CinemaNa homenagem ao cineasta italiano estarão cinco de seus filmes restaurados, Os Eternos Desconhecidos, fundador da commedia all’italiana (1958), A Grande Guerra, vencedor do Leão de Ouro de Veneza em 1959, Casanova 70, estrelado por Marcello Mastroianni (1965), Filhas do Desejo (em codireção com Steno, 1950) e O Ladrão Apaixonado, de 1960. 

Pode-se entender este filme, o único da história a ter reunido a atriz Anna Magnani e o máximo cômico Totò, como a grande atração entre aqueles do artista a serem exibidos agora. Mal compreendido à época de exibição, baseado em contos de Alberto Moravia, foi lançado em 1960, ano de A Doce Vida, escandaloso sucesso de Federico Fellini, razão pela qual Monicelli decidiu parodiá-lo.

O Ladrão Apaixonado tem sua própria sequência na fonte, mas não é a de Trevi, antes a da Praça Esedra, na qual um americano bêbado lança uma moeda. Tortorella (Magnani) e Infortúnio (Totò), figurantes de Cinecittà, desejam festejar o Ano-Novo, mas, na Roma noturna, a vida do pobre não parece doce nem feliz (em italiano, no original, o título Risate di Gioia ironiza os “risos de alegria”), razão pela qual um terceiro integrante da história, o ladrão Lello, de Ben Gazzara, entenderá os planos dos pobretões como uma oportunidade. 

Totò vinha de uma afecção na retina que o cegara no palco em 1957 e ainda limitava sua visão. Por esse motivo seus movimentos no filme surgiam tolhidos. Sua máscara cômica, contudo, ainda permitia grandes momentos de uma característica melancolia, aproximada à de um Buster Keaton, especialmente quando interpretava ao lado de Magnani a canção Geppina Geppi, um sucesso da dupla nos palcos 20 anos antes. Por amor à impiedade com que Monicelli enxergava o cômico, arma de contestação raramente vista, vale enfrentar este filme como um drible no fim dos tempos e nas UTIs.