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Número 871,

Cultura

Al mare

Um caso de amor no mediterrâneo

por Nirlando Beirão * publicado 30/10/2015 23h01, última modificação 01/11/2015 23h55
A última etapa das regatas Panerai mostra por que os veleiros, em sua beleza volúvel, ficam melhor no feminino
regatas

"Quando estamos no mar é que nos divertimos", diz Skipper. Exaustivo jeito de se divertir

* De Cannes

No manto cintilante do Mediterrâneo, reverberando as últimas alegrias policromáticas do verão, elas – as velas – exercitam a plenitude literal do Mare Nostrum; é o nosso mar, desde tempos antigos, armadilha dos deuses, labirinto das marés. O Mediterrâneo e os barcos a vela contam uma velhíssima e aventurosa história de amor.

Diante de Cannes, a cidade dos festivais, na qual a selfie na escadaria de tapete vermelho das esperanças cinematográficas se impõe, obrigatório, mesmo fora de estação, bem é dali do vizinho vieux port, coroado pelas relíquias do Château de la Castre, que as velas vão sair para navegar, derradeiro ensaio para a etapa final da regata de maior pedigree de um esporte que é 100% pedigree. 

Não por acaso, a regata final de um circuito que começou lá em abril, no Caribe, chama-se Régates Royales, com o merecimento de todas as fanfarras nobiliárquicas. Antes de Cannes, as velas passaram por Antibes, ali ao lado, na luminosa Côte d’Azur, por Porto Stefano, entre Livorno e Roma, no Mar Tirreno, e por Mahon, nas Ilhas Baleares, onde a escala espanhola ganha o imponente título de Copa del Rey de Barcos de Época.

O verão está de despedida e, como diz Andy Culley, skipper do magnífico Eilean, de dois mastros e 66 pés, os veleiros vão hibernar de agora até a primavera, não para o repouso das velas e dos guerreiros e, sim, para uma fatigante temporada de restauro e reparos. “Descansamos quando estamos no mar, é a nossa diversão”, diz ele.

Ao acompanhar uma regata, a bordo de um veleiro ao sabor do vento incerto e no manejo tenso das cordas, ou mesmo quando a gente só vê de fora, dá a impressão de que Andy Culley, ao dizer isso, só pode estar experimentando aquele conhecido sarcasmo britânico. Não é atividade para amadores.

Lá estão as velas, enfim, singrando o litoral de Cannes, com sua dignidade enfunada, sua solenidade esperta, buscando, no lufa-lufa da competição, a cumplicidade com as forças severas da natureza: as rajadas de ar, as ondulações do oceano, as correntezas do acaso e, o pior dos cenários, as teimosas calmarias.

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O restauro, em Viareggio, quando Eilean não passava de uma carcaça corroída. Créditos: Guido Cantini/ Seasee.com

Aí é que você percebe como faz sentido que os povos de língua inglesa tratem os barcos no feminino, todos eles – cada um deles é she, ela, seja uma escuna das pequenas, seja um majestoso transatlântico. Veleiros, então, mais do que todos, exageram naqueles predicados bem femininos do charme irresistível e da beleza volúvel.

Esta última etapa do Panerai Classic Yachts Challenge – que além do Caribe também tradicionalmente tem o litoral norte-americano de Massachusetts e de Rhode Island como concorridas etapas – é a 37a edição das Régates Royales e premia três categorias: a dos barcos grandes, a categoria vintage e os clássicos.

Oitenta veleiros, entre 7 e 60 metros, alguns desafiando as tormentas por aí desde quando Sarah Bernhardt ainda era virgem, outros com cara polida de quem acabou de sair do estaleiro, deslizaram por esse tapete esmeralda de encrespações tão súbitas que, no segundo dia, confrontada por descabelada ventania, a competição teve de ser suspensa. 

Um acervo de grifes náuticas entrou mais uma vez em cena, na hospitalidade da Riviera Francesa. A categoria dos clássicos, por exemplo, premiou um mitológico dragon de 20 metros e mastro único, Il Moro di Venezia I, de bandeira italiana, mas desenhado pelo argentino Germán Frers no início dos anos 90, com tecnologia que faculta a leveza de uma pluma que flutuasse por sobre as ondas.

Já a Moonbeam IV usou de toda a sua corpulenta envergadura de 35 metros de madeira e aço para abiscoitar, tricampeão nesta regata, o troféu das grandes damas do mar. Ele, aliás, ela traz a assinatura de William Fife & Son, do mais prestigioso estaleiro da Escócia. Beijou as águas pela primeira vez em 1914.

Angelo Bonati
Angelo Bonati, o CEO, fanático das velas, faz as vezes de capitão. Créditos: Gilles Martin-Raget

Tinha competição acirrada pela frente. Uma delas, com um suave sotaque brasileiro. A Shamrock V, construída em 1930 bem a propósito de integrar a ilustre estirpe dos veleiros J Class, com design do britânico Charles E. Nicholson, a pedido de sir Thomas Lipton, o potentado do chá e velejador lendário, pertence há mais de uma década a Marcos de Moraes, filho do recém-falecido Olacyr de Moraes, empresário sabido e sortudo que aproveitou, em três centenas de milhões de dólares, a primeira bolha do pontocom no Brasil. 

(Marcos é de uma geração de aficionados da vela que já não fazem o gênero ostentação dos xeques árabes e dos magnatas deslumbrados. Discretos, eles costumam observar as regatas a uma conveniente distância.) 

Na cola da vencedora Moonbeam IV estaria também a elegante e graciosa Eilean, outra obra de arte do terceiro William Fife, da tradicional William Fife & Son de Fairlie. Ganhou as águas em 1937. Se regatas são a passarela para um capricho pessoal de Angelo Bonati, CEO da Panerai, a mais tradicional grife de relógios de Florença, Eilean é a certeza luxuosa de que esse capricho faz o maior sentido e tem tudo a ver. 

Na verdade, a mais que centenária Panerai especializou-se, no século XX, em equipamentos náuticos de precisão, por encomenda da Marinha Italiana (box abaixo). Eilean nasceu, por encomenda dos irmãos Fulton, de Londres, no mesmo ano em que Panerai manufaturou o primeiro relógio de mergulho para a frota de guerra da Itália. 

Depois da guerra, Eilean acabou dando com os costados no Caribe e parecia destinada a um precoce aniquilamento até que Angelo Bonati encontrou-a por acaso, fez transportar a carcaça corroída até Viareggio e ali a converteu, a partir de 2006, na requintada fachada de sua grife de relojoaria fina. Quem teve o privilégio de sair al mare a bordo desse hotel-butique de cinco-estrelas terá usufruído, como diz aquele velho tango dos irmãos Exposito, “numa paisagem de amor”, “o canto perfumado do azul”. 

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