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Número 870,

Internacional

Espanha

Uma simulação de independência

por Gianni Carta publicado 03/10/2015 12h12, última modificação 04/10/2015 10h07
Os separatistas conquistam a maioria das cadeiras na Catalunha
Sergio Perez/Reuters/Latinstock
Vitória-na-eleição

A vitória empurra a pauta do separatismo para a disputa presidencial em dezembro

A independência da Catalunha será um dos mais espinhosos temas das eleições legislativas espanholas em meados de dezembro. Determinante nas campanhas dos líderes de diversas legendas será o diálogo sobre as eleições regionais catalãs do domingo 27, quando deputados separatistas obtiveram a maioria de cadeiras no Parlamento regional.

Por tabela, alegam os vencedores, a região autônoma tem o direito de soltar as amarras da Espanha e virar uma nação. Como havia anunciado Artur Mas, presidente da Catalunha e líder da campanha pela separação, o pleito seria também um referendo pela independência. Entretanto, aqueles em busca da autodeterminação não obtiveram os 51% necessários.

Além disso, a Constituição espanhola não prevê plebiscitos separatistas. Na eleição presidencial, o diálogo de surdos terá continuidade. O desfecho é uma incógnita. E a violência não pode ser descartada. 

A coalizão Junts pel Sí, liderada e formada pela legenda neoliberal de Mas, Convergència i Unió, e pela pequena formação separatista de esquerda, a Candidatura de Unidad Popular (CUP), conquistou, respectivamente, 62 e 10 das 135 cadeiras parlamentares. A maioria dos novos eleitos é de deputados separatistas. Artur Mas anunciou: “Venceu o sim, venceu a democracia”. A vitória, afirmou o economista de 59 anos, teria conferido o necessário mandato para a Catalunha obter sua independência.

Mais: o comparecimento às urnas, recorde de 78% dos eleitores registrados, revitalizaria essa verdadeira declaração de independência. No meio tempo, Mas se empenhará na criação de uma Constituição catalã, um banco central, um sistema judicial e um exército. Um processo de 18 meses. Tarefa imponente para uma região com 7,5 milhões de habitantes, equivalente à população da Suíça.  

O quadro não é, porém, tão simples. No geral, os separatistas obtiveram 47,8% dos votos. Como salienta o premier conservador Mariano Rajoy, não se formou uma maioria. Rajoy acrescenta: um referendo, exigido por 80% dos catalães, deveria ser nacional, não regional. Nesse caso, as chances dos separatistas seriam nulas.

Mas conhece os limites de um referendo em termos legais. Um plebiscito, em novembro de 2014, registrou 80% de apoio à independência, mas não foi reconhecido por Madri. Por ter organizado a consulta e por supostos desvios de recursos públicos, o líder do Junts pel Sí teve de comparecer a um tribunal na terça-feira 29. O processo pode transformá-lo em um herói.

O premier Rajoy tem motivos para se preocupar. Um referendo na Catalunha poderia estimular um movimento semelhante no País Basco, outra região que reivindica há anos, de forma até violenta, sua independência. Além disso, seu partido, o PP, cometeu muitos erros na região e não é visto com bons olhos pelos catalães. O principal alvo do Junts pel Sí, excluída a luta pela separação, é a legenda do primeiro-ministro.

Responsável por um quinto do Produto Interno Bruto, a Catalunha é a região mais rica do país. Os favoráveis à independência não estão, porém, nada satisfeitos com a forma com que são tratados pelo governo central. Acreditam pagar impostos demasiadamente elevados e receber, em troca, investimentos de menos. Com um Tesouro próprio, Barcelona seria mais próspera, acreditam.

Os nacionalistas ainda levam em conta outras questões, históricas inclusive. Até o século XVIII, quando a monarquia estava instalada há dois séculos no país, os locais falavam apenas o catalão. Sob a ditadura de Francisco Franco, de 1936 a 1975, foram obrigados, a exemplo dos bascos e galegos, a falar somente o espanhol. Os republicanos mais radicais defendem que as escolas adotem o catalão como língua única.

Nas últimas décadas, Barcelona passou a ser um dos destinos prediletos dos turistas. E enriqueceu. Em 1992, os bem-sucedidos Jogos Olímpicos na cidade deram maior prestígio aos catalães. E, recentemente, o time do Barcelona adotou o slogan  “més que un club”, na língua local. As disputas entre o Barça e o Real Madrid são verdadeiras batalhas geopolíticas.

Pesa, óbvio, o fato de os jogadores do time catalão serem favoráveis à independência da região. Mas até que ponto o atacante argentino Lionel Messi é separatista? Se a Catalunha se tornar um país, não integraria imediatamente a União Europeia, o que tiraria o Barça dos campeonatos europeus. Isso até a Catalunha passar por um longo processo para ser aceita pela UE.

Artur Mas pode ter conseguido tornar o separatismo um assunto crucial das eleições de dezembro, mas encontra-se em um labirinto. O governo que tentará formar nos próximos 20 dias refletirá a dificuldade de administrar uma Catalunha independente. Seu partido neoliberal e a aliada legenda anticapitalista CUP têm em comum tão somente a bandeira do separatismo.

A alternativa seria agregar o Podemos, formação esquerdista com ambíguo programa político. A legenda obteve 11 assentos nas regionais catalãs, mas tem consideráveis chances na presidencial de dezembro. O partido declarou aceitar um referendo legal sobre a independência catalã, embora seja contra a independência da região. O diálogo de surdos começou na Catalunha. E em toda a Espanha. 

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