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Número 869,

Sociedade

Gastronomia

Pela primeira vez, uma mulher leva o campeonato mundial da pizza

por Nirlando Beirão publicado 03/10/2015 12h32, última modificação 04/10/2015 10h08
Em meio às mais diversas extravagâncias, Teresa Iorio apresentou uma comum Margherita, com discretos enfeites de figos abertos
iStockphoto
Teresa-Iorio

Uma simples Margherita, enfeitada com figos

Susan Smillie, colunista do The Guardian, desfrutou dias atrás do peculiar privilégio de ser uma das juradas do campeonato mundial de pizza na sua cidade por excelência (errou quem pensou em São Paulo; a cidade original da pizza é, querendo ou não querendo os paulistanos, Nápoles). Acabou desfrutando, a jornalista, de um inesperado show de extravagâncias, hum, gastronômicas que, aí sim, lembrava São Paulo, Nova York e outros redutos novos-ricos da pizza – festim bastante estranho a um cenário em que a autenticidade artesanal da pizza é tão respeitada.

Foi uma maratona. Começou às 8 da noite e os jurados tiveram de saborear os petiscos à razão de uma fatia a cada cinco minutos. Felizmente, anotou Susan Smillie, a empreitada abriu-se com uma pizza a metro apresentada por um veterano pizzaiolo da Basilicata, com um tempero delicado – tomates e abobrinhas de sua própria horta – bem adequado a uma tradição que, na Itália do Mezzogiorno, remonta ao século XIX. E, há quem diga, a tempos bastante anteriores.

A categoria “estilo livre” obrigou o júri a involuntárias e muitas vezes constrangedoras experiências gustativas. Um francês já bastante experimentado pela vida achou por bem ornar sua massa de décor rococó com flores de abobrinha e pequenas torres de batata. Um brasileiro aparentemente tímido decidiu ousar ao se inspirar na paisagem local, salpicando sua pizza com pequenos cones inspirados no Vesúvio e recheados de cream cheese, heresia das heresias. A jurada inglesa definiu: “Parecia uma pizza recheada da rede Domino”.

Nem assim conseguiu ser o mais estapafúrdio de todos. Para escândalo dos napolitanos, acostumados a agasalhar seu paladar naqueles singelos, mas deliciosos nacos disponíveis na lendária Via dei Tribunali, um candidato à fama culinária inventou uma pizza em que a mozzarella rimava com nutella; outro saiu-se com presunto, abacaxi, uva passa, hortelã e azeite balsâmico.

Numa cidade em que qualquer pizzaiolo tem status de pop star, o campeonato mundial consagrou uma surpresa: pela primeira vez em 14 edições, ganhou o prêmio maior uma mulher. Ou, melhor, una vera mamma. Teresa Iorio é uma napolitana de sotaque típico que comanda, com as filhas, um restaurante bem popular e de preço agradável na zona portuária, o Dalle Figlie Di Iorio (Via Conte Olivares, 73, tel. +39 081 5520490).

Teresa apresentou uma comum Margherita, com discretos enfeites de figos abertos. “Houve um momento, em meio a toda aquela mastigação, que cheguei a pensar: pizza, nunca mais”, desabafou a colunista Susan Smillie. “A iguaria clássica que Teresa Iorio nos trouxe à mesa me fez mudar de opinião.” Vale lembrar que uma célebre peça de Gabriele D’Annunzio leva o título A Filha de Iorio