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Número 869,

Cultura

Plural

Leonardo Padura aborda o judaísmo por uma perspectiva cubana

por Rosane Pavam publicado 03/10/2015 12h52, última modificação 04/10/2015 10h09
Escritor busca o romance policial filosófico, diz que vive para escrever e vê a literatura maior que o cinema
Ivan Giménez
Leonardo-Padura

Padura, em torno do livre-arbítrio e da responsabilidade do artista

esperança era uma teimosia a bordo do SS Saint Louis. Em 1939, o transatlântico zarpava de Hamburgo com 937 judeus autorizados por Adolf Hitler a migrar para Cuba. Destituídos de sua dignidade e de seus bens, acompanhados de suas famílias ou do que restara delas, os passageiros percorriam entusiasmados os corredores da embarcação, ainda que com 4 dólares no bolso, a quantia permitida para a viagem.

Mas os nazistas haviam mentido para eles mais uma vez. Enquanto autorizava a viagem, o ministro Josef Goebbels informava erroneamente às corruptas autoridades cubanas que os viajantes tinham fortunas em seu poder. Eis por que o desembarque na Ilha apenas seria permitido a um judeu sob a condição de entrega de meio milhão de dólares ao setor de imigração.

Os viajantes nunca aportaram em Havana, e muitos deles, retornados à Europa, morreriam em campos de concentração. O episódio, que ainda envergonha os cubanos, roubaria as horas de pensamento de um deles, o escritor Leonardo Padura, instigado a abordá-lo em uma ficção histórica. Depois de seu romance O Homem Que Amava os Cachorros, que no Brasil vendeu 55 mil exemplares em duas edições desde 2013, o autor continua a abordar a condição humana dentro de uma narrativa eletrizante. Mas parece procurar outros caminhos também.

Lançado agora no Brasil, para onde acorre o escritor, que participará de mesas literárias em São Paulo e no Recife até 2 de outubro, Hereges quer ser mais conceitual, “quase filosófico, como você terá percebido, ainda que eu tenha horror a esta palavra em referência à literatura”, como diz o escritor. “Eu me enamorei da possibilidade de entrar no mundo do judaísmo por meio de uma perspectiva cubana. E a partir daí criei a cadeia de interesses que aparece na novela: a convivência cultural, a busca da liberdade, o livre-arbítrio dos judeus, a responsabilidade do artista.”

Hereges
Leonardo Padura. Editora Boitempo,460 págs., R$ 56. Créditos: Tusquets Editores

 Distante de O Homem Que Amava os Cachorros como possa parecer, é ainda um livro que discorre sobre o fracasso das utopias e o medo. Não o temor que há nos livros de Budd Schulberg ou Horace McCoy, autores norte-americanos populares que, críticos do estado de coisas nos anos 1940, descreviam um clima aterrorizante a pairar entre os homens comuns. “No meu caso, o medo tem outro sentido, mais social que individual”, especula, “não o medo natural da morte, mas o medo da morte civil ou da marginalidade.”

Segundo o escritor, que jamais desejou morar fora daquela Cuba que lhe dá régua e compasso, trata-se principalmente do temor causado pelo poder determinante sobre a vida de todos. O pavor de perder o trabalho, a tranquilidade, o espaço social. “Em um país onde quase tudo passa pelas mãos do Estado, alguém com poder muda sua vida a partir de uma decisão política ou pessoal, determinada pelo ódio, pela inveja, pelo oportunismo.”

Volta à ação, no novo livro, o personagem Mario Conde, que investiga a autoria de um crime no passado, decorrente ficcional do episódio do Saint Louis. Hereges é uma história de cinco séculos que tem início quando o pintor holandês Rembrandt produz uma série de cabeças de Cristo, uma delas em poder de um passageiro do transatlântico.

Esse homem, que viajara com a mulher e a filha, teria usado a pequena tela como moeda de ingresso em Havana. Mas, se o desembarque não ocorreu, qual teria sido o paradeiro da relíquia? E qual o destino daquele que a roubou? É o que pergunta seu neto, Elias Kaminsky, mas ele não cresceu na Ilha. O pai de Elias, enviado a Cuba antes do Saint Louis, migrara de modo misterioso a Miami antes da revolução.

Entre as comunidades judaicas de Havana e Miami, os Kaminsky deste livro caminham cinematograficamente, acumulam diálogos, absorvem ambientações. E a narrativa, que também corre pela Amsterdã do século XVII, tem o idêntico engenho do imperceptível, acrescida dos embates existenciais dos personagens. “O romance policial pode trabalhar a partir de qualquer trama, mas a histórica me parece o grande desafio”, considera Padura. “A história é algo que ocorreu e que o leitor talvez conheça, razão pela qual o exercício de criar suspense se torna ainda mais complicado. Para mim, a história é parte do presente. Somos o que somos porque temos o passado.”

E por que seríamos escritores? No caso de Padura, o primeiro intento fora o beisebol. “Mas quando compreendi que não me tornaria um bom jogador, quis escrever sobre o jogo na imprensa”, conta. Aos 17 anos, terminava seus estudos pré-universitários quando Cuba fechou a escola de jornalismo. (“Alguém disse que já havia jornalistas suficientes no país.”) Sem jamais ser um “grande leitor”, como diz, mas um “bom leitor”, decidiu enfrentar as letras com a postura do jogador.

“Mergulhei na literatura como quem entra numa partida de beisebol, em uma competição. E ainda sigo competindo. Contra os mortos, como dizia Ernest Hemingway, contra os mestres, contra mim mesmo.” Um jogo duro demais para alguém cujos ídolos literários são William Faulkner, o grande narrador do Sul americano, ou Mario Vargas Llosa, o autor daquele que Padura ainda tem por seu primeiro livro, Conversa na Catedral.

 Nos anos 1980, exerceria ele próprio o jornalismo porque decidira “viver de escrever”, uma ação mais relacionada a um mundo material e econômico, como diz, enquanto “viver para escrever é diferente, tem mais relação com a vontade, o desejo pessoal”. Mas o jornalismo serviu para catalisar o ofício do narrador. “Graças a ele fiz uma viagem muito importante. Fui reportar um encontro de escritores policiais em Gijón, na Espanha, e regressei a Cuba com uma maleta de livros que mudaram minha perspectiva do que poderia ser uma novela policial. Esta viagem ajudou a definir meus interesses literários.”

Antes mesmo de Raymond Chandler e seu muito celebrado O Longo Adeus, lera Balzac, Dostoievski, Flaubert e Alexandre Dumas, pai, que lhe parecera uma “revelação”. Machado de Assis, a quem diz “admirar muito”, conheceu na escola, Rubem Fonseca apareceu depois e Chico Buarque, de quem se aproximou agora, respeita “duplamente, como músico e escritor”. Há duas décadas, quando contava 40 anos de idade e a situação econômica em Cuba era a pior possível, Padura simultaneamente decidira “viver para escrever”, como seus antecessores.

William-Faulkner
William Faulkner, escritor que revelou o Sul americano, uma inspiração. Créditos: AP

É um apaixonado por cinema, especialmente aquele capaz de contar bem uma história. Nós Que Nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola, sobre crenças e desilusão, é o filme mais importante de sua vida. Entre as escrituras cinematográficas próprias, algo assemelhadas ao filme, estão Retorno a Ítaca e Sete Dias em Havana, enquanto adapta para a televisão as quatro primeiras novelas da série policial protagonizada por Mario Conde. Vê boas possibilidades no cinema, que o ensina, em parte, a escrever. Mas não deseja ir longe demais com ele, por manter a certeza de que a literatura é o que faz melhor. “

Como escritor, é preciso aprender a narrar com imagens, não somente com palavras”, argumenta. “Pode-se, contudo, ir mais longe com a literatura do que com o cinema. A palavra se move em um espaço infinito, o das ideias, enquanto o cinema é o espaço limitado da imagem visual.” Atingir outros portos da imaginação é algo que prefere fazer sem sair de Cuba, eis por que espera pelos americanos na mesma casa onde nasceu.

Para ele, essa proximidade com os vizinhos só será decisiva quando o bloqueio econômico desaparecer. “Os Estados Unidos têm uma máquina de produção cultural muito forte, e resistir nesse embate pode ser complicado para Cuba. Toda essa troca, se um dia de fato ocorrer, gerará mudanças em nosso país, algumas muito necessárias, outras talvez não muito desejáveis. Esperemos para ver.”