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Número 868,

Sociedade

Papinho Gourmet

Cadê a bochecha que tava aqui?

por Marcio Alemão publicado 25/09/2015 15h51, última modificação 26/09/2015 08h50
Jovens chefs tatuados falavam da bochecha de porco como se fosse a descoberta do sifão na cozinha contemporânea
iStockPhoto

-Alguém aqui pode me dizer onde foram parar as bochechas de porco?

– E como é que “alguém” vai saber.

– Deveria, deveriam. Não faz muito não se falava em outra coisa em restaurantes descoladinhos. Jovens chefs tatuados haviam descoberto a bochecha de porco e falavam disso como se fosse a descoberta do sifão na cozinha contemporânea.

– Quem sabe tenha caído.

– Bochecha caída?

– Saiu da moda. Na nova coleção, bochecha tá out.

– E você sabe que tinha criador de suíno superanimado com a onda da bochecha?

– Imagino.

– Até geneticistas foram contratados para fazer um porco na levada do frangão, do chester que, caso você não saiba, é marca registrada.

– Disso eu sabia. Mas no porco qual era a proposta?

– O porco bochechudo.

– Não daria certo. Ou melhor: daria certo por um tempo, mas aí um dos tatuados diria que a melhor bochecha tem de vir do porco anêmico, caipira, que quando berra a gente sabe se veio de Minas ou São Paulo. E se veio da capital ou do interior.

– E eu imagino que teria de ser orgânico.

– Com certeza! Mas isso hoje não é mais impeditivo de grande produtividade. A Korin, por exemplo, tem, além do frango, uma lista imensa de produtos, incluindo arroz e feijão.

– Cerveja artesanal?

– Acredito que terão em breve.

– Te falei que fui num cantinho superdescolado? Um tal de EMA?

– Você não me falou, mas já ouvi falar. Abre só algumas noites, poucos lugares, cozinha de autor.

– E um bom sommelier.

– Paraíso!

– Se a tua ideia de paraíso for a mediocridade, apenas mais um lugar lotado com cheiro de fritura, mas puxa que legal estar aqui entre esses poucos eleitos que estão assim como eu sentindo esse forte cheiro de fritura, mas em breve seremos agraciados com um  prato campeão tipo a casquinha de siri que tipo assim eu já comi centenas bem melhores, mas tem também o cupim que é o único cupim seco do planeta e que vem com um purê que eu já comi em dezenas de outras casas, mas que vem com o diferencial do caju assado que  é muito... CARAMBA! Tudo tem o mesmo gosto? O que está acontecendo? Todo cantinho transadinho tem alguém fazendo um pratinho igualzinho aos amiguinhos? Que tédio, cara! Que tédio, que preguiça, que pobreza.

– Mas lota, bomba.

– E eu vou te dizer: nem a Dilma nem o PT são culpados por essa pasteurização descolada da mediocridade gastronômica.