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Número 868,

Internacional

The Guardian

A invasão de turistas na Europa

por John Hooper — publicado 25/09/2015 17h19, última modificação 27/09/2015 00h21
Uma inundação de turistas exerce pressão sobre os principais destinos europeus, mas conter a maré é ético ou mesmo possível?
Mustafa Yalcin/Anadolu Agency/AFP
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Torre Eiffel, a campeã de audiência: só a Mona Lisa, no Louvre, consegue competir.

Um bar a menos de 300 metros da Piazza di Spagna. Duas mulheres russas – talvez mãe e filha – tomam aperitivos. Um casal falando português do Brasil espera por sanduíches no balcão, enquanto um grupo ruidoso de chineses passa pela porta de vidro, fechada por causa do calor sufocante lá fora.

Roma é um bom lugar para se observar as tendências do turismo global, e o que os romanos têm experimentado nos últimos anos é uma maré de brasileiros, russos, indianos e chineses. Pessoas de países cujas línguas quase não eram escutadas nas ruas da Cidade Eterna – a Turquia é outro – chegam a Roma em números cada vez maiores.

Sua presença é a evidência visível de um apogeu no turismo internacional, promovido pela recém-adquirida prosperidade dos gigantes do G-20, que confundiu as previsões de crescimento moderado no rastro da crise financeira global. Segundo a Organização Mundial de Turismo da ONU (UNWTO, em inglês), os desembarques superaram a média de longo prazo ano após ano, de cinco anos para cá. Em 2014, o tráfego internacional de turistas cresceu 4,7%, acima da previsão máxima dos analistas da ONU. 

Tal inundação de humanidade espalhando-se pelo planeta levanta muitas questões. Os desafios ambientais já foram extensamente discutidos. Mas há outros relacionados à equidade e discriminação que até agora quase não foram abordados. Em números absolutos, a Europa é de longe o principal destino: 588 milhões de turistas cruzaram suas fronteiras internacionais em 2014. Mas o aumento desse volume é um fenômeno global. 

Se existe algo como um “turista típico”, ele não é mais um americano de camisa florida, chapéu-panamá e câmera pendurada no pescoço. Ele – ou ela – é hoje um membro da florescente classe média do país que hoje rivaliza com os Estados Unidos pela supremacia econômica global. 

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O órgão de turismo da ONU estima que desde 2012 a China abastece o mercado global com mais viajantes que qualquer outro país. E a maioria deles não vai a Miami ou a Paris, mas a outros países da Ásia. Assim como seus antecessores americanos do pós-Guerra, tão caricaturizados, o comportamento dos novos turistas chineses nem sempre respeita as tradições e crenças asiáticas. Em fevereiro, houve uma comoção na Tailândia por causa de evidências de que um turista, supostamente chinês – em um vídeo feito na época ele fala mandarim – havia tocado e depois chutado os sinos de um templo do século XIV em Chiang Mai. 

Mas os chineses não detêm o monopólio do comportamento ofensivo. Em agosto, moradores fizeram uma manifestação espontânea em Barcelona, depois que três turistas italianos passearam nus pelo bairro de Barceloneta. No mês passado, uma britânica foi presa na Malásia por posar nua no alto de uma montanha sagrada. Neste mês, foi a vez de um jogador de futebol búlgaro em férias em Roma, que foi multado por gravar suas iniciais nas paredes do Coliseu.

Tais incidentes são raros. Mas chamam atenção para o fato de que o turismo na escala que o mundo experimenta hoje talvez não seja o benefício indiscutível que se apregoava. Ele realmente amplia a mente, ajuda a atenuar os estereótipos nacionais das pessoas e as apresenta a outras mentalidades? É difícil defender essa tese em relação à maior parte do turismo encontrado em Magaluf, Phuket ou Cancún.

Mas, como indicam a UNWTO e o setor de turismo, a indústria gera empregos e prosperidade. “Nos últimos anos, o turismo mostrou-se uma atividade econômica surpreendentemente forte e resistente, um fator fundamental para a recuperação econômica”, disse em janeiro o secretário-geral do órgão, Taleb Rifai. “Isso vale para destinos no mundo todo, mas particularmente para a Europa, região que luta para consolidar sua saída de um dos piores períodos econômicos da história.”

Em lugar algum isso é mais verdadeiro do que nos países mais atingidos pela crise da Zona do Euro. Nos últimos cinco anos, a Europa Meridional esteve constantemente entre as sub-regiões onde o crescimento do turismo foi mais forte.

A transformação da Primavera Árabe em um inverno violento e caótico garante que a bonança continue. Os viajantes que poderiam ter ido para o Egito e a Tunísia, ou destinos mais aventurescos como o Iêmen e a Síria, preferiram agora o sul da Europa.

Um dos aspectos mais bizarros da recente crise na Grécia foi o contraste entre o ar de iminente apocalipse financeiro e as multidões de turistas despreocupados nas ruas de Atenas. Bem em frente ao Parlamento, do outro lado da Praça Sintagma, fica a Rua Ermou. Dia após dia e noite após noite, enquanto os deputados gregos debatiam a hipótese de desafiar as instituições europeias e arriscar-se a sair do euro, uma enxurrada de gente em férias percorria a Rua Ermou até o principal ponto de encontro de jovens em Atenas, a Praça Monastiraki.

Crise? Que crise? Quando os bancos foram fechados, era praticamente impossível conseguir um quarto de hotel na cidade. Michael Massourakis, economista-chefe da associação patronal grega, SEV, disse que o turismo nos primeiros quatro meses do ano havia sido “brilhante”.

Depois que a verdadeira situação se tornou dolorosamente visível e longas filas começaram a se formar nos caixas automáticos de todo o país, as operadoras de turismo e os donos de hotéis relataram uma onda de cancelamentos. Mas isso só causará uma enchente maior de pessoas na Itália, Espanha e Portugal.

E é aí que esse maremoto de viajantes de lazer começa a encontrar as primeiras barreiras. Em muitas outras partes do mundo, as pessoas começaram a perguntar: quando o que é bom começa a ser demais? Mas é na Europa mediterrânea – paradoxalmente, uma área muito dependente do turismo – que a indignação pública começa a se traduzir em ação política.

Até agora, o passo mais radical foi dado em Barcelona. A nova prefeita da cidade, Ada Colau, uma ativista contra a expulsão de imigrantes, impôs uma moratória de 12 meses à concessão de licenças para hospedagem de turistas. Em Sevilha e algumas outras cidades espanholas, grupos de ativistas locais conseguiram bloquear a transformação de edifícios históricos em hotéis de luxo.

As autoridades municipais de Veneza estão considerando limitar o número de turistas. Uma das propostas obrigaria os visitantes a comprar um ingresso e imporia um teto para o número de pessoas permitidas a cada momento.

Veneza é excepcional. Seu maior problema é formado pelos aproximadamente 11 milhões de turistas que visitam a cidade só por um dia a cada ano, exercendo uma pressão intolerável sobre os serviços urbanos, quase sem contribuir para suas finanças. A questão foi exacerbada nos últimos anos por uma nova geração de supernavios de cruzeiro, que também representam uma afronta aos sentidos, reduzindo a arquitetura da cidade ao navegar rumo à Praça de São Marcos.

Veneza, porém, é tão suscetível quanto qualquer outra cidade turística a uma nova complicação. Até alguns anos atrás, as autoridades controlavam o número de pessoas que podiam ficar na cidade: hotéis, pousadas e outras formas de acomodação tinham de ser licenciadas. Tudo o que as autoridades precisavam fazer para limitar o número de visitantes de curta permanência era parar de dar licenças.

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Piazza di Spagna. Créditos: Robert Palomba/AFP

Então veio a internet, e com ela o couch-surfing (hospedagem em residências familiares) e o Airbnb.com. O licenciamento continua, mas tornou-se cada vez menos importante. As autoridades municipais de Roma estimam que hoje existam 5 mil estabelecimentos irregulares que oferecem hospedagem por uma noite. Tudo isso favorece um segundo plano proposto para Veneza: instalar roletas em torno da Praça de São Marcos, o ponto “imperdível” para a maioria dos turistas que visitam a cidade. A entrada seria feita com um cartão. E os cartões só seriam dados aos moradores e aos viajantes que pagassem por uma diária em um estabelecimento registrado. 

A crescente popularidade da hospedagem sem licença também levanta dúvidas sobre a iniciativa de Ada Colau em Barcelona. Foi uma reação à virtual colonização da cidade antiga, a Ciutat Vella, e especialmente do Bairro Gótico de Barcelona, sobretudo por jovens turistas.

Mas pode-se apostar que, assim como os que lotam a Praça Monastiraki do outro lado do Mediterrâneo, uma alta porcentagem deles hospeda-se informalmente na casa de outras pessoas. É improvável que sejam dissuadidos pela interrupção da construção de um novo hotel Four Seasons, que está entre as consequências relatadas da proibição.

Tudo isso aguça o foco sobre as questões éticas citadas acima. Os esforços para limitar o número de turistas terão de envolver algum tipo de seleção – e a maneira mais fácil de fazer isso sem atrair acusações de discriminação é barrar alguns turistas pelo preço. Nesse contexto, jovem ou pobre torna-se ruim, enquanto mais velho ou rico torna-se bom. 

Se, por exemplo, a solução da roleta fosse aplicada à Praça de São Marcos, os ricos CEOs japoneses em seu hotel cinco-estrelas no Canal Grande poderiam passear à vontade por ali, enquanto seus compatriotas mochileiros teriam dificuldade para juntar verbas para uma única visita.

Enquanto as limitações são dolorosas, também colocarão questões semelhantes – embora menos vitais – às levantadas pelo debate sobre o aquecimento global. Os indianos e os chineses compreensivelmente rejeitam a ideia da restrição à queima de carvão, afirmando que os países ocidentais puderam poluir – e prosperar – livremente por mais de um século antes de descobrirem sua consciência ambiental – e decidir que os países pobres também precisam segui-la.

O mesmo argumento pode ser aplicado ao turismo, especialmente do tipo que leva coreanos a admirar as glórias de Versalhes e quenianos a maravilhar-se com a arte nos Uffizi. É justo negar, ou restringir, o acesso a tesouros culturais que os ocidentais puderam desfrutar durante décadas? 

No caso do aquecimento global, a conclusão foi de que é impossível não serem injustos. E essa poderá ser a única maneira de garantir que as cidades históricas e os litorais de todo o mundo continuem valendo a pena ser visitados por alguém. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 868 de CartaCapital, com o título "A outra invasão"