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Número 867,

Economia

Entrevista - Mikael Ahlström

"A tecnologia digital é um pilar da sociedade"

por Juliana Elias — publicado 18/09/2015 09h27, última modificação 19/09/2015 08h53
Sócio da Hyper Island explica a ideia por trás da instituição sueca, referência em inovação no mundo
Mikael-Ahlström

Ahlström, um dos sócios da escola sem provas nem salas convencionais

leitor caminha pela rua e recebe em seu celular uma mensagem do jornal preferido. “Olá, tudo bem? Há um acidente há duas quadras de onde você está. Quer nos ajudar?” O aplicativo sabe a localização do usuário e o convida a produzir e enviar fotos do acontecimento à redação, mediante remuneração de 100 dólares.

O “repórter”, o jornal e os demais leitores ganham com a cobertura instantânea da notícia postada na web. A solução, adotada por publicações da Suécia, foi criada por um grupo de estudantes da Hyper Island, escola especializada em educação profissional para mídias digitais. O aplicativo é uma amostra do trabalho da instituição sueca fundada em 1996, hoje referência internacional em inovação e um celeiro de start-ups e projetos procurados por empreendedores e multinacionais.

Com filiais em Londres, Manchester, Nova York e Cingapura, a Hyper instalou há cerca de um ano um escritório em São Paulo e começa a formar as primeiras turmas no País. Mikael Ahlström, um dos sócios, explica a seguir o projeto.

CartaCapital: Por que a Hyper Island dispensa salas típicas e provas?

Mikael Ahlström: Desde 1995, quando mal existia a internet, percebemos que o mundo das tecnologias mudava rapidamente e não valia ensiná-las da maneira tradicional. No fim de um curso de dois anos, a tecnologia aprendida era obsoleta. Então, desde o início, ensinamos os alunos a identificar e usar a melhor tecnologia disponível a cada momento.

CC: Como funcionam as aulas?

MA: Nossas escolas são mais uma agência ou um escritório, onde o aluno tem todo o espaço para desenvolver suas ideias. Os “professores” são facilitadores, não sabem nada de tecnologia digital nem estão interessados em marketing. São profissionais que acompanham a jornada de conhecimento de cada um. Muitos deles vêm do mercado, são diretores de grandes empresas e ministram aulas especiais. Ikea, General Mills, Unilever, Procter & Gamble são algumas das empresas que trabalham conosco e nos procuram porque precisam inovar. 

CC: Qual é o perfil dos estudantes?

MA: Em geral, eles têm alguma experiência profissional. São designers, desenvolvedores, gerentes de projeto, analistas de mídias e de dados, entre outros. Há também aqueles com carreiras consolidadas em setores tradicionais, em busca de um capital digital para usar em sua atividade. De cinco anos para cá, começaram a aparecer indivíduos com perfil prático e empreendedor. Antes, o sonho da maioria era trabalhar em uma grande agência com uma grande marca. Hoje, um terço diz sentir-se preparado para iniciar o próprio negócio e um em cada cinco o faz. É uma taxa acima daquelas das escolas tradicionais de administração. E este nem é o nosso foco.

CC: Se não é o foco, por que começaram a atrair muitos projetos de star-ups?

MA: No início, trabalhávamos essencialmente com agências, pois a publicidade foi uma das primeiras áreas a explorar o mundo digital. Mas as novas gerações têm se revelado mais empreendedoras. São jovens que respiram o ambiente digital e o mundo online, um universo intimamente ligado à força das start-ups. A cultura desse tipo de negócio é muito alinhada à nossa. São empresas pequenas, com processos interativos, pouca hierarquia, que experimentam muito e avançam entre constantes tentativas e erros.

Escola-Hyper-Island
"Não há mais a opção de um negócio estar fora do mundo digital", diz Ahlström

CC: Qual é, hoje, a importância da tecnologia para os negócios?

MA: As tecnologias digitais são, hoje, um dos pilares centrais da sociedade. Não há mais a opção de um negócio estar fora do mundo digital. Gasta-se muito mais do tempo de compra, consumo de informação ou em diferentes processos de decisão no espaço online. E, se a empresa não sabe como seu consumidor navega nesse espaço, será praticamente impossível tornar-se relevante para ele. A questão não é a tecnologia em si, que muda constantemente. O importante é entender o usuário e seu comportamento, principalmente as mudanças nesse comportamento.

CC: Por que abrir uma escola no Brasil?

MA: O Brasil é mesmo uma experiência curiosa. Em nossa página no Facebook, cerca de metade dos “likes” vem do Brasil. É mais do que na Suécia. A pergunta poderia ser, portanto, por que não estávamos aqui antes. A cada mês que volto, há uma nova start-up aberta. E os alunos daqui são também muito engajados, não querem só abrir uma empresa, almejam construir uma comunidade empreendedora, trabalhar juntos e compartilhar conhecimentos.

CC: Por que a crise econômica do País não desencorajou a sua empresa?

MA: Uma crise é, na verdade, o que acelera a necessidade por mudança. Quando a economia vai bem, os clientes compram de tudo. Na crise, não. Então você realmente precisa ser inteligente e muito mais eficiente para continuar a atingi-lo. As empresas que nos procuram são essencialmente aquelas de setores que passaram por uma crise. Companhias de comunicação, jornais e agências foram as primeiras em busca de novos modelos de negócios. Hoje, já trabalhamos com bancos, companhias de seguro, setor imobiliário e outros. Todos têm de enfrentar a guerra digital em algum momento. As crises são como um funil, um processo de consolidação.

CC: Como mudou o perfil dos alunos?

MA: Quando a escola foi criada, quem trabalhava conosco eram profissionais da indústria de games, gerentes de tecnologia, nerds digitais, programadores, designers. O que aconteceu de lá para cá foi que a internet se espalhou na economia e as mídias digitais estão em todas as profissões e escalas hierárquicas. Hoje, nossos clientes e alunos incluem também diretores e CEOs de companhias globais. 

*Publicado originalmente na edição 867 de CartaCapital, com o título "Inovação contínua"