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Número 866,

Cultura

Plural

A força ancestral

por Ana Ferraz publicado 14/09/2015 06h18
Tiganá Santana, Bahule Quartet e Aláfia bebem na matriz africana, no jazz e nos ritmos brasileiros
Anna Caroline Negri
força-ancestral

Tiganá Santana, som que transporta a outras dimensões

cenário vulcânico primevo de Toubab Dialaw, vilarejo de pescadores no Senegal, moldou Tempo & Magma, terceiro disco de Tiganá Santana. Por quatro meses e meio, o poeta, filósofo, compositor e intérprete nascido em Salvador tudo observou e muito absorveu. Aproveitou a estada para gravar com músicos locais e insuflar alma ao barro primordial formador do novo trabalho, lançado primeiro no Japão, com previsão de chegada ao Brasil neste mês. 

A voz grave e profunda de Tiganá transporta a outras dimensões. Com o violão-tambor, criado ao tirar uma das seis cordas em busca de frequência própria, tece um rendilhado sutil e comovente. A religiosidade com a qual se conecta desde a infância, exercida no candomblé onde cumpre função semelhante à de ministro, permeia suas composições.

Primeiro brasileiro a compor, cantar e gravar em quimbundo e quicongo, além de português, inglês, espanhol e francês, Tiganá caiu nas graças de público e crítica na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia e Oceania. Por lá, sua música é encaixada em categorias que vão de jazz a world music. “Ainda bem que não dá para classificar”, diz, satisfeito com a impossibilidade. 

A fusão entre a chamada música de terreiro e outros ritmos atrai artistas de uma nova geração interessados nas matrizes rítmicas africanas alicerçadas em forte trabalho autoral. De modo semelhante a Tiganá, o Bahule Quartet e o grupo Aláfia navegam além dos rótulos.

O quarteto liderado por Lenna Bahule traz de Moçambique cantos populares tradicionais e religiosos, enquanto o Aláfia usa a essência da cosmovisão iorubá para criar uma música urbana com um apelo de combate à intolerância.

Além da cantora moçambicana Lenna, o Bahule Quartet é formado pelos brasileiros Gabriel Draetta (bateria e percussão), e os irmãos Ed (bandolim e guitarra) e Kiko Woiski (baixo elétrico e acústico). O quarteto mergulha na matriz africana, bebe no jazz, pega embalo no choro e samba.

“Diante de nossa formação, o público espera um som africano dançante, com um toque dos ritmos brasileiros. Mas não é isso. O ouvinte então imagina que seja afro jazz, mas não é por aí. Tem um pouco dessas influências, e o que sobressai, no entanto, são os detalhes do timbre de cada instrumento”, diz Draetta. 

Quando a voz múltipla do continente africano representada por Lenna se junta aos instrumentos que assumem funções além de acompanhamento, o baixo pode, por exemplo, fazer coro com a voz e o bandolim, o contraponto, o resultado é uma inesperada fusão de timbres e fonemas.

“O Brasil é um solo fértil, um lugar especial onde muita coisa brotou de forma autêntica e universal”, avalia Lenna, que trocou a possibilidade de especialização na Universidade da Califórnia em Berkeley, por um chamado mais forte.

“Em Moçambique, amigos brasileiros me apresentaram um pouco do bom do Brasil. Mostraram-me um lugar sensorial que tem Naná Vasconcelos, Hermeto Pascoal, os Barbatuques, e isso mexeu muito comigo”, diz a cantora de 26 anos, que estudou oito anos de piano erudito e canto coral.

“Apontamos para o passado, o presente e o futuro. Temos a música primitiva, que reflete a experiência humana, e ao mesmo tempo nos interessa a transformação. Nosso som é sutil, trabalhado, traz a beleza da contemplação”, diz o percussionista, cuja configuração da bateria foge do tradicional para estabelecer um diálogo com as referências levadas ao palco. No lugar do bumbo, usa a zabumba, relacionada à percussão brasileira. “Nossa música é de pesquisa.” 

Lenna descende da etnia chope. Cresceu numa família de hábitos ocidentais, cujo pai DJ nos anos 1980 enchia a casa de sons de diversos matizes. A pluralidade cumpriu seu papel rumo à criação. “Ouvi cantos tradicionais e me impregnei dessa linguagem. Absorvi quando estava em Moçambique e passei a pesquisar quando saí de lá.” Entre as músicas incluídas no repertório há releituras de cantigas populares, como A Matwe Twe, cujo refrão provoca reação acalorada da plateia.

Aláfia-funk
O Aláfia combina com funk, com candomblé e usa o iorubá em letras que expõem as contradições sociais do País. Créditos: Sté Frateschi

As letras de Lenna contemplam o autoconhecimento, o desejo de união de forças pela transformação social. “Sou feliz por ter vindo para cá, um lugar artístico. Muitos outros músicos vêm em busca desta autenticidade”, diz ela, que neste mês lança o trabalho-solo Nômade, coproduzido por Jonas Tatit e viabilizado por meio de patrocínio coletivo.

Os caminhos de Tiganá Santana e do Bahule Quartet cruzaram-se nesse novo cenário musical. “O som dele tem tudo a ver com o nosso. Vamos fazer algo juntos”, anuncia Lenna, entusiasmada com a perspectiva de trabalhar com o baiano de fala culta, entremeada de hiatos meditativos.

“Sou o tipo que rumina”, explica o artista, preparado pela família para ser diplomata, em razão da facilidade com idiomas e do perfil intelectual. Na infância, acompanhava a mãe, formada em artes cênicas, nas aulas de quicongo no Centro de Estudos Afro-Orientais na Universidade Federal da Bahia. 

Com um tio arquiteto depurou o gosto pela multiplicidade musical. “Num dia ele colocava um disco do Uakti, no outro, música árabe, Tom Jobim, Chico Buarque. Fui contaminado por isso tudo.” Aos 14 anos começou a estudar violão. “O professor me ensinou notação musical e foi um grande mestre, porque me deixou ser.” O aprendiz percebeu que se permanecesse nos moldes preestabelecidos se sentiria aprisionado. “Minha música não é pautada por essa escola.” 

Tiganá sabe que os caminhos que percorre não são os mais usados no Brasil. “Refletem a busca por mim mesmo.” A jornada interior tem apoio na filosofia e na ancestralidade. “Em quimbundo não há diferença entre arte e filosofia, são a mesma coisa com manifestações diferentes”, diz o cantor e poeta, que em 2010 lançou Maçalê, que significa “você é um com sua divindade”, gravado no Brasil. E, em 2012, The Invention of Colour, produzido em Estocolmo, e agora o álbum duplo Tempo & Magma, no Senegal.

Com 11 integrantes, o Aláfia diz ao que veio ao escolher uma palavra iorubá para denominar o grupo (“aláfia” significa plenitude, caminhos abertos). O som formado por duas percussões, bateria, baixo, guitarra, teclado, trombone e gaita deriva das narrativas míticas, cantigas e mitologia das festas de terreiro do candomblé. “Eu e os percussionistas nascemos no terreiro”, afirma Eduardo Brechó, cantor, compositor e diretor musical. 

No segundo CD, Corpura, pela ybmusic, com lançamento dia 20 no Auditório Ibirapuera, São Paulo, o Aláfia ganha sonoridade mais consistente. “No primeiro, ainda estávamos meio perdidos”, avalia Brechó. Nas letras, quando os temas se referem a orixás o léxico do terreiro iorubá aparece por meio de palavras em quimbundo. “O terreiro nos ensinou um pouco da língua, mas a partir disso desenvolvemos uma pesquisa movida pelo interesse e para não sermos levianos no tema.” 

O grupo formado por Xênia França, Jairo Pereira, Fabio Leandro, Alysson Bruno, Filipe Gomes, Gabriel Catanzaro, Gil Duarte, Lucas Cirillo, Pipo Pegoraro, Victor Eduardo e Brechó tem forte compromisso com a realidade social do País.

“Sua verve crítica retrata, delata, expõe as contradições e tensões atuais da vida nas metrópoles brasileiras”, escreve o Titã Charles Gavin sobre Corpura. Ao juntar o respeito às tradições à pegada black com lastro no tambor sagrado do candomblé, o Aláfia deu um nó na cabeça de um repórter da emissora londrina BBC, que acabou por classificar o som da banda como funk candomblé. “Gostamos. Acho que é isso.”