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Número 865,

Economia

Análise/ Luiz Gonzaga Belluzzo

Trabalhismo inglês, o retorno

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 04/09/2015 03h56
Cresce a oposição ao governo empenhado em um crescimento apoiado em outra bolha
Marcos Santos/USP Imagens
emprego-britânico

“A Inglaterra clama por um programa de investimento público em novas moradias, ferrovias, energia e infraestrutura digital ."

Jeremy Corbyn disputa a liderança do Partido Trabalhista. Em sua campanha, ele oferece ao partido um programa econômico que causou urticária não somente nos conservadores, mas também na turma do Novo Trabalhismo de Tony Blair. 

Na sexta-feira 21, em meio ao derretimento da riqueza fictícia abrigada nas bolsas de valores globais, o porta-voz da campanha de Corbyn criticou duramente a austeridade expansionista do gabinete Cameron, ora empenhado em apoiar o crescimento nos frágeis fundamentos de outra bolha imobiliária e financeira. Diz o comunicado da campanha de Corbyn: “A Inglaterra clama por um programa de investimento público em novas moradias, ferrovias, energia e infraestrutura digital e, por isso, sugerimos os meios para que isso aconteça. Uma das opções, conhecida como a Facilitação Quantitativa do Povo foi prontamente acolhida por Sir Robert Skidelsky, Ann Pettifor e outros renomados economistas”.  O programa foi apoiado por 41 economistas de prestígio, entre eles o ex-membro do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra, David Blanchflower, além de Mariana Mazzucato, Steve Keen e Victoria Chick.

Os economistas assinaram um manifesto em defesa do programa, acusado pela mídia de extremista de esquerda. Retrucam os signatários: “A despeito do fogo de barragem disparado pela cobertura da mídia, extremistas são as políticas e objetivos da política econômica atual. Já falhou no último mandato a tentativa de produzir um reequilíbrio orçamentário mediante cortes nos gastos. É injustificável o aumento da pobreza infantil e a redução do apoio aos mais vulneráveis. Cortar o investimento público em nome da prudência é errado porque afeta negativamente o crescimento, a inovação e o aumento da produtividade, além de elevar a dívida do governo, por causa da queda das receitas fiscais”.

 Corbyn defende duas medidas azedas para o paladar conservador:

 1. A reestatização das empresas de utilidade pública e das ferrovias privatizadas nos governos conservadores de Thatcher & Cia. e nas administrações do Novo Trabalhismo de Tony Blair.

 2. A criação de um banco nacional de desenvolvimento incumbido de financiar a reconstrução da infraestrutura degradada e apoiar a reindustrialização da Velha Albion, hoje um pigmeu manufatureiro.

Corbyn não esconde: seu programa econômico é descendente da experiência trabalhista do pós-Guerra. Na primeira eleição realizada depois de  1945, o conservador Winston Churchill foi derrotado pelo trabalhista Clement Attlee.  Acompanhado por Aneurin   Bevan, seu Ministro da Saúde, pai do National Health Service, Attlee desenhou a arquitetura do Estado do Bem-Estar britânico, inspirado no relatório preparado pelo liberal William Beveridge e por John Maynard Keynes, também liberal. 

Em 1942, na Inglaterra ainda maltratada pela guerra, pelo racionamento e pela debilidade econômica, o liberal Sir William Beveridge, em seu lendário Relatório, fincou as estacas que iriam sustentar as políticas do Estado do Bem--Estar. O Relatório Beveridge recebeu a colaboração das concepções da Teoria Geral do Juro, do Emprego e da Moeda – obra magna do liberal, porém iconoclasta, John Maynard Keynes.

O liberal Beveridge apontou os “Demônios gigantes da vida moderna” que os governos estavam obrigados a enfrentar: carência, doença, ignorância, miséria e inatividade. Em seu Relatório, Beveridge proclamou que a ignorância é uma erva daninha que os ditadores cultivam entre seus seguidores, mas que a democracia não pode tolerar entre seus cidadãos.

As políticas econômicas da Teoria Geral estão ancoradas profundamente nas convicções de Keynes a respeito da instabilidade intrínseca do capitalismo. Maynard chamou de “oportunistas e danosas” as políticas fiscais e monetárias de curto prazo, “formas grosseiras” de enfrentar as flutuações do investimento e seus efeitos sobre a renda e o emprego.

Keynes advogou a “socialização do investimento”, entendida como a coordenação pelo Estado das relações entre o investimento público e privado. Ela  envolve não somente a definição de um “orçamento de capital” de longo prazo, mas a ação das empresas semipúblicas. Tanto o orçamento de capital quanto as empresas deveriam ser administradas e avaliadas por comitês público-privados. 

As políticas de longo prazo preconizadas por Keynes jamais foram executadas, sequer compreendidas por quem se autoproclama keynesiano. Não vale a pena comentar os que se julgam anti-keynesianos. Já os direitos criados pelo Estado do Bem-Estar, sobretudo o National Health Service, tentam resistir às investidas dos governos conservadores, desde Thatcher até os tempos do mauricinho Cameron. Recentemente, o mauricinho podou 12 bilhões de libras do orçamento social.