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Número 865,

Internacional

Crise

A crise vai muito além de Pequim

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 09/09/2015 08h44
A desaceleração chinesa expõe a fragilidade da economia mundial e a falta de instrumentos financeiros e políticos para estimulá-la
Spencer Platt/ Getty Images/ AFP
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Mesmo se a China se acalmar, as Bolsas ocidentais seguem vulneráveis.

As principais bolsas ocidentais caíram 3% a 5% na segunda-feira 24, após a queda da Bolsa de Xangai, cuja retração de 8,5% levou o índice de volta ao que era no fim de 2014. No dia seguinte abriram em alta, apesar de nova queda de 7,6% das bolsas chinesas, mas logo perderam o impulso e voltaram a fechar no vermelho.

O governo chinês tomou então mais medidas para contrariar a maré, principalmente baixar juros para facilitar o financiamento de carteiras e estimular o consumo. Xangai caiu apenas 1,3% no terceiro dia e se recuperou  5,4% no quarto. As bolsas estadunidenses reagiram, mas poucos analistas acreditam que a “correção” tenha terminado e alguns temem uma queda prolongada. Bastaria a quebra de uma instituição financeira importante para deflagrá-la.

Pouco importa se Pequim administrará a desaceleração de seu crescimento de modo satisfatório para seus próprios objetivos. O problema de fundo não está no Oriente, mas no fraco dinamismo do capitalismo desde o início da era neoliberal. A revolução da informática jamais cumpriu a promessa de deflagrar um salto de produtividade sustentado comparável àqueles das primeiras revoluções industriais. Houve ganhos de lucratividade à custa de concentração de renda e desemprego nos países ricos e do deslocamento da produção para países de mão de obra barata, mas esses processos não poderiam continuar para sempre.

Entre os momentos de crise, o crescimento do comércio internacional foi garantido, primeiro, pelo enorme déficit comercial dos EUA e, depois, pela industrialização explosiva da China, dois processos finitos. O primeiro esgotou-se em 2007, o segundo chega ao fim agora. A economia chinesa pode continuar a crescer, mas a um ritmo mais “normal”, típico de países mais maduros com crescimento fundamentado no mercado interno e na modernização gradual de uma base produtiva já existente. Não bastará para puxar a economia mundial sem ajuda.

Existe algo capaz de deflagrar um novo ciclo de crescimento de médio prazo? Não custa sonhar com um boom indiano, mas há pouco para fundamentá-lo. O país tem há décadas um crescimento decente, mas não comparável ao da China em seus melhores anos e sua participação no comércio mundial é de apenas 1,7%, pouco maior que a do Brasil. A “globalização” estagnou e as trocas internacionais, que se expandiam acima de 15% ao ano até 2011, há anos crescem menos de 3% anuais.

Inovações tecnológicas sempre podem surpreender, mas as mais promissoras e necessárias são as que poupam matérias-primas e energia, não as que promovem o consumo. Em todo o mundo, o envelhecimento da população, os limites da ecologia, o esgotamento dos recursos naturais e os estragos da mudança climática conspiram para reduzir o crescimento.

Enquanto o crescimento mundial freava, a liquidez, ou seja, a quantidade de moeda e títulos em circulação, continuou a crescer. A flexibilização quantitativa, ou seja, compra de ativos bancários de liquidez duvidosa pelo Banco Central, de modo a aumentar a disponibilidade de dinheiro para empréstimos, iniciada nos EUA em 2007, foi seguida pelo Reino Unido, Japão e União Europeia. Isso amenizou as crises financeiras e pode ter evitado que a crise de 2008 atingisse as proporções daquela de 1929, mas dinheiro barato e abundante ante oportunidades limitadas de investimento tende a ver mais oportunidades do que realmente existem e inflar bolhas especulativas. 

Esse dinheiro alimentou projetos de energia, mineração, agricultura e infraestrutura para atender a uma demanda que, ao menos no prazo previsto, não se concretizará, criou excesso de oferta e deprime os preços de commodities. Sobretudo, levou à supervalorização de empreendimentos de risco e dos mercados acionários em geral. 

Em junho, as ações das bolsas chinesas valiam 68 vezes seu lucro previsto, um excesso que claramente apontava para uma correção. Mas aquelas das bolsas estadunidenses, então com o índice Dow Jones na casa dos 18 mil pontos e as empresas avaliadas a 27 vezes seu lucro, também estavam infladas, especialmente quando se considera que as perspectivas de crescimento a longo prazo dos EUA são bem mais modestas. A média histórica da relação preço/lucro no século XX foi 15,2 e chegou a 44 no auge da bolha das pontocom em 1999. Mesmo após a queda de mais de 10% para um Dow Jones de 16 mil, a relação preço/lucro é de 23,66 e ainda tem muito espaço para cair. 

Além disso, a própria expectativa de lucro das mesmas empresas tende a cair, o que pode levar esse tradicional indicador para menos de 10 mil. Como adverte o economista Paul Krugman, a continuada alta do dólar em relação às demais moedas, agora incluindo também o yuan, pode tornar sua indústria novamente não competitiva. 

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O desemprego é o símbolo de um capitalismo anêmico. Créditos: Hugo Correia/ Reuters/ Latinstock

Isso é particularmente preocupante em um cenário em que em todas as principais potências ocidentais os governos continuam endividados pelo socorro aos bancos na crise de 2008, a inflação é muito baixa e os juros básicos estão próximos de zero. Não há espaço financeiro para medidas convencionais de estímulo à economia e se nega espaço ideológico a medidas não convencionais, tais como o aumento de investimento público e gastos sociais e maior regulamentação financeira que seriam exigidos por um “New Deal” em versão internacional.

Pelo contrário, a corrente dominante da política e das finanças pede juros mais altos e mais austeridade. Pior, muitos querem também mais intervenções militares e mais barreiras a imigrantes. Nos EUA, a desintegração social do México e da América Central, subproduto tanto do livre-comércio imposto a economias despreparadas quanto da guerra às drogas, pressiona a fronteira, se agrava com a crise e o sucesso de Donald Trump dentro do Partido Republicano indica alta receptividade ao discurso xenófobo nesse país de imigrantes.

O caso europeu é, porém, o mais preocupante. O Oriente Médio desmorona e lança uma enxurrada de refugiados sobre a Europa. Em 2014, 200 mil chegaram à Alemanha (cerca de 40% do total europeu) e neste ano serão 800 mil. É mais água no moinho do fascismo de todos os matizes. A própria Angela Merkel foi vaiada por manifestantes xenófobos na quarta-feira 26, ao visitar em Heidenau um centro de refugiados atacado por neonazistas. 

A mesma Merkel, por outro lado, tornou mais explosiva a bomba-relógio da dívida ao quebrar a espinha da resistência grega à Troika. Ao agravamento do abismo financeiro que divide a Europa e à cada vez mais provável ruptura de Londres com Bruxelas acrescenta-se o fechamento explícito das portas à reforma democrática do euro e das instituições financeiras. Para a Comissão Europeia, o Eurogrupo e o Banco Central Europeu, suas normas estão acima da vontade e do bem-estar dos povos. Ou os povos endividados do Sul da Europa se conformam com anos ou décadas de estagnação, austeridade e domínio neocolonial por Berlim apenas para adiar uma moratória inevitável ou rompem com Bruxelas. 

As tensões europeias são um problema mais sério do que aquelas da China. Não faltará combustível para o extremismo xenófobo de um lado e o fundamentalista de outro. A onda desencadeada pelas malfadadas intervenções ocidentais no Afeganistão, Iraque, Síria e Líbia continua a crescer, mas poderá ser lembrada como uma marolinha quando vierem os refugiados de países mais populosos, como o Iêmen, convulsionado pela intervenção saudita na guerra civil e mesmo o Egito, cuja ditadura militar terá dificuldades crescentes para lidar com a insatisfação em um ambiente de violência, pobreza e seca crescentes. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 865 de CartaCapital, com o título Muito além de Pequim"