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Número 865,

Cultura

The Guardian

Existe alguém mais elegante do que Audrey?

por Bee Wilson — publicado 04/09/2015 19h38, última modificação 06/09/2015 23h44
Uma exposição em Londres capta o enigma do ícone que suplantou a atriz
Antony Beauchamps
audrey

Audrey, por Antony Beauchamps, 1955

Os maiores astros do cinema inspiram certos rótulos que colam neles de maneira tão segura e superficial quanto apelidos de escola. Marlon Brando é sempre a “lenda das telas”. Lauren Bacall, a “sereia”, e Montgomery Clift, um “destruidor de corações”. Quanto a Audrey Hepburn, ela foi, e é, “icônica”; às vezes um “ícone de elegância”, ou um “ícone do estilo”, mas em geral simplesmente um “ícone”. 

No que se refere a rótulos, poderia ser pior. Certamente é menos redutor que “símbolo sexual” (o destino de Marilyn Monroe). A posição duradoura de Hepburn como ícone é um sinal de que seu valor cultural permanece forte. Autores ou jornalistas de moda a citam constantemente. Quando se entusiasmam sobre óculos escuros, vestidinhos pretos ou luvas, ainda é de praxe mencionar aquela cena de Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961, de Blake Edwards) em que Hepburn segura um copo de papel com café e um croissant, enquanto olha friamente para uma vitrine cheia de joias.  

Agora, mais de 70 fotos da estrela podem ser vistas em uma pequena, mas surpreendente exposição na National Portrait Gallery, em Londres. A metade delas vem da coleção pessoal de seus filhos, Sean Hepburn Ferrer (que a atriz teve com seu primeiro marido, o ator Mel Ferrer) e Luca Dotti (com o segundo marido, um psiquiatra italiano). Ferrer e Dotti são donos do nome de sua mãe como Audrey Hepburn™. 

Em 2013, eles deram permissão ao chocolate Galaxy para recriar sua imagem em fotos computadorizadas. Talvez você tenha visto os anúncios; tinham um ar de A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday, 1953, de William Wyler), com uma Audrey jovem dirigindo um carro conversível pela Itália. Seus filhos também trabalharam estreitamente com a galeria londrina para a nova exposição. Seu título, como talvez se pudesse esperar, é Audrey Hepburn: Retratos de um ícone.

E que ícone! Como disse Billy Wilder, “Deus beijou Audrey Hepburn no rosto, e lá estava ela”, querendo dizer: já nasceu estrela. Ninguém jamais usou uma camisa branca como ela. Admirar essa glamourosa coleção de fotos – que inclui trabalhos de Cecil Beaton, Yousuf Karsh e Irving Penn – é lembrar-se do quanto Hepburn era sublimemente fotogênica. Outras foram chamadas de gamine – menina com apelo sexual –, mas somente ela habitava plenamente essa identidade: vivacidade e inocência. Em outro rosto, ter as sobrancelhas pintadas tão escuro e os olhos tão delineados poderia ser destruidor; nela ficava natural. 

Recital de dança, aos 13 anos, em 1942.

Fotografava igualmente bem em preto e branco e em cores. Na mostra a vemos em 1951, em um de seus tops pretos informais, sorrindo para a Vogue América, como uma criança que tem um segredo. E lá está ela quatro anos depois, radiante em um Givenchy rosa durante a filmagem de Guerra e Paz (de 1956, dirigido por King Vidor).

Mesmo em instantâneos dos álbuns de família – ou pelo menos nos exemplos escolhidos pela galeria britânica – ela tem pose de bailarina. A mais antiga imagem na exposição a mostra em 1938, com apenas 9 anos. Tem um corte de cabelo de boneca da época e ainda não usa delineador nos olhos, mas já domina a câmera com seu sorriso, sem entregar tudo de uma vez.  

Richard Avedon – cujos 60 retratos são dos mais fascinantes da exposição, acentuando a vulnerabilidade de seu pescoço de cisne – disse que achou paradoxalmente difícil fotografar Hepburn. Ela quase não deixava nada para ele fazer: “Como quer que você definisse o encontro entre o fotógrafo e seu modelo, Audrey ganhava”. 

Nossa constante reverência por Hepburn é interessante porque revela a medida em que continuamos fascinados por belas poses. Um ícone é algo adorável e precioso, mas também imóvel: simbólico, irreal. É uma imagem plana de um santo dourado diante do qual você se ajoelha, indigno. Por isso, uma exposição de fotografias – mais que uma retrospectiva de filmes – talvez seja a maneira perfeita de prestar homenagem ao encanto de Hepburn. 

Na teoria, habitamos a era da imagem em movimento: Netflix, YouTube, Skype. Mas a Hepburn de fama e marca duradouras não é, como se poderia esperar, a inteligente e falante que realmente sabia atuar – Katharine Hepburn –, mas a que fotografava bem. 

Quanto mais se olha para as refinadas imagens na exposição da NPG, mais se vê que o gênio de Hepburn para as imagens fixas eclipsava em muito suas conquistas no cinema. Pergunto-me como muitos a veem hoje em Sabrina (1954, diretor: Billy Wilder), uma comédia romântica bastante estranha e artificial, em que Hepburn faz uma de suas muitas apresentações menos que convincentes como a filha do motorista, dividida entre Humphrey Bogart e William Holden. Mas ainda nos lembramos das calças e sapatilhas pretas que ela usava no filme, e de sua cintura de sílfide. 

Audrey, vestindo Givenchy, 1955

O culto a Hepburn como um “ícone” muitas vezes pareceu tratar-se menos de devoção a seu trabalho no cinema do que uma maneira de outras mulheres se diminuírem. Quem pode se equiparar a esse nível de elegância, para não falar na cintura esguia? A própria Hepburn insistia que comia “terrivelmente bem nas refeições”, mas mesmo assim sua silhueta seria perigosa para outras copiarem. 

“Audrey manteve impressionantes 80 x 56 x 80 centímetros durante toda a sua vida”, comentou Pamela Keogh em seu livro profundamente perturbador What Would Audrey Do? Timeless lessons for living with grace and style (O Que Audrey Faria? Lições atemporais para viver com graça e estilo), de 2008.

No catálogo da exposição, a curadora Helen Trompeteler admite que o cinema “foi apenas uma das formas como a imagem de Hepburn foi moldada, e possivelmente não a mais duradoura”. Ela indica que, no auge da carreira da atriz, o público geralmente assistia a um filme apenas uma vez, enquanto as fotos eram guardadas para ser vistas e revistas. Por meio de publicações como Picture Post e Picturegoer, a imagem de Hepburn alcançou o grande público. 

Ela esteve na capa da revista Life nove vezes, mais que qualquer outra celebridade (Marilyn conseguiu sete). Em 1954, a revista Vogue disse que Hepburn havia capturado a imaginação do público de tal maneira que estabeleceu um “novo padrão de beleza”. Foi a figurinista Edith Head a primeira a identificar que Hepburn mais parecia uma modelo que atriz. Head trabalhou com Hepburn em A Princesa e o Plebeu e disse: “Sua figura e seu talento me disseram imediatamente que aquela garota tinha nascido para dar alegria aos estilistas”.

Passar de Hepburn em forma fotográfica para uma de suas atuações em filme é muitas vezes uma decepção. Ela falava com entonação de princesinha, como se o inglês fosse uma língua estrangeira, o que era. Sua mãe era uma baronesa holandesa e seu pai – que as abandonou quando Audrey tinha 6 anos –, um fascista inglês. Audrey e sua mãe passaram a guerra na Holanda, onde sofreram terrível desnutrição, e a menina sempre foi advertida de que não devia falar inglês em público. Talvez isso explique o tom forçado de sua voz. 

O problema não é o sotaque – afinal, não houve obstáculos para Ingrid Bergman –, mas a sensação de que ela deixa de se conectar com o registro básico que uma fala exige. Seu melhor desempenho foi, de longe, em My Fair Lady (de 1964, dirigido por George Cukor), como Eliza Doolittle, em que o modo de falar normal de Hepburn é apresentado como algo falso e inventado. É um choque ir desse filme para Cinderela em Paris, por exemplo, e perceber que é apenas seu jeito de falar, e não algo que Henry Higgins lhe ensinou. 

Outro bônus em My Fair Lady é que a voz de Hepburn não foi usada nas canções – ela dublou o canto de Marni Nixon –, o que dá à sua atuação uma rara sensação de liberdade. Ela pôde dedicar-se ao puro gestual e não estava mentindo quando dizia: “I could have danced all night”.

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Uma de suas nove capas para a revista Life,clicada em 1954 por Halsman.

Quando jovem, Hepburn não desejava ser atriz, mas bailarina. Sua mãe economizou cada centavo para as aulas de balé, e depois da guerra elas foram para Londres, onde Audrey dançou no coro de shows, ganhando um extra como modelo em anúncios de jornal para Lacto Calamine, um “alimento para a pele”. Ela teve sua primeira grande chance quando a escritora francesa Colette a avistou em um saguão de hotel e a quis para o papel principal de Gigi, na Broadway. Hepburn respondeu, sem falsa modéstia: “Desculpe, madame, mas eu não poderia, porque não sei atuar”.

Mas não foi obstáculo para que se tornasse uma grande estrela. Ícones não precisam atuar; apenas precisam ser, e ninguém era melhor em existir na frente de uma câmera do que Audrey Hepburn. Quer esteja abraçando crianças em uma missão no Sudão, quer posando em uma saia rosa engomada na capa de Life, ela é hipnotizante. Esse corpo de imagens reforça nossa sensação de que Hepburn deve ter sido uma das maiores estrelas de cinema de todos os tempos. O Instituto Americano de Cinema classificou-a como a terceira melhor protagonista, à frente de Greta Garbo e Judy Garland. 

Mas, afinal, suas imagens mais indeléveis são as estáticas; é mais fácil adorar algo fixo do que em movimento. A exposição na National Portrait Gallery inclui uma foto feita por Sam Shaw durante a filmagem de Amor na Tarde, em 1956 (Love in the Afternoon, de Billy Wilder). Ela está sentada em um bar, vestida com um casaco, cercada de homens que bebem e riem. Ela olha fixamente para nós, com a solidão de alguém em uma pintura de Edward Hopper. Há mais pungência e profundidade nessa única foto do que em todo o filme, em que Hepburn faz a garota ingênua para o velho sedutor Gary Cooper. Nossa necessidade de fazer de Hepburn um ícone sugere que muitas vezes amamos mais a ideia de um filme clássico do que a coisa em si.

"No confronto entre fotógrafo e modelo, ela triunfava"

Algumas noites atrás, assisti a Charada. É uma história cômica-policial passada em Paris, dirigida por Stanley Donen e estrelada por Hepburn e Cary Grant. Tem figurinos de Givenchy e música de Henry Mancini. A trama inclui múltiplas identidades, com tons de Intriga Internacional. Tem incríveis créditos iniciais modernistas, como uma pintura de Mondrian que ganhasse vida. Pensei que fosse adorá-lo. A trama vai de mistério a perigo e romance, mas, ao contrário de Grant, que desliza suavemente em seu personagem ambivalente habitual, Hepburn nunca parece capaz de invocar a emoção necessária. Você não compartilha seu medo ou compreende o que ela sente por Grant. “Estou tendo um colapso nervoso! ”, diz ela em uma cabine telefônica, com a voz tão abafada que poderia ser Eliza Doolittle pronunciando “the rain in Spain falls mainly on the plain”.

No entanto, ao longo de Charada, Hepburn tem uma aparência maravilhosa, em uma série de vestidos cintados elegantes, pequenos chapéus e casacos dos anos 1960. Parei o filme para tomar chá. Quando voltei, estava congelado na cena em que Grant e Hepburn assistem a um programa de Punch e Judy. Grant está com um terno formal; Hepburn usa um casaco vermelho e batom coral. Apesar de eu estar entediado com Charada, de repente, parado, parecia um filme clássico, rico em glamour e intriga. Olhei para aquele rosto imortal congelado mais uma vez, antes de apertar o botão e deixar o ícone estático voltar à vida vacilante.