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Número 865,

Cultura

Esporte

Correr é um prazer

por Estella Maris Lassalvia — publicado 08/09/2015 03h34
Uma maratona vai além da adrenalina. É um momento de elogio à vida
Mark Cardwell/ AFP
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A Maratona de Nova York e sua paisagem humana.

Drauzio Varella conta em seu novo best seller que a tardia decisão de correr depois dos 50 anos já trazia uma meta de corajosa determinação: uma maratona. Hoje, depois dos 70, Drauzio perdeu a conta de quantas maratonas correu, num circuito globe-trotter que vai de Chicago a Tóquio, de Boston a Londres, de Berlim a Miami, de Nova York ao Rio de Janeiro. Quem vê de fora há de achar essa – percorrer 42 quilômetros esfalfando-se atrás da típica e compreensiva ambição de bater seu próprio recorde – uma curiosa maneira que Drauzio tem para descansar de sua estafante rotina de trabalho. Ele e tantos outros corredores.

Há casos, como o meu – tudo bem, sempre gostei de esporte, mas meu vício, e o do meu marido, era a escalada em pedra, minha origem, o montanhismo –, em que o aprendizado da corrida, pouco a pouco, em etapas graduais, a partir dos meus 37, 38 anos, não visava o desafio último da maratona, mas simplesmente correr pelo prazer de correr, de manter a forma, incrementar a resistência já adquirida, ir pegando ritmo, participar, sim, de competições mais modestas, no ritmo possível, no pelotão dos que fazem o mesmo tempo. 

Acontece que peguei o livro de Drauzio para ler e ele é tão inspirador, tão convincente, tão estimulante, que reafirmou coincidentemente um projeto para o qual já vinha me preparando: correr a Maratona do Rio. O que acabou ocorrendo. Sou obrigada a recomendar: o livro assim como a maratona. Se tenho agora no acervo de minhas melhores emoções uma medalha por ter concluído uma maratona em minha primeira tentativa, devo a um médico capaz de estender seu conhecimento enciclopédico com uma linguagem clara, acessível e bem-humorada. Este é um livro que reafirma os dotes de um tremendo escritor (é bom lembrar, Drauzio Varella é colunista de Saúde nesta CartaCapital).

Sua autoridade de médico é, de mais a mais, um antídoto contra preconceitos que costumam perseguir a nós, os aplicados corredores. A começar pela ideia de que – minha família sempre se arrepiou ao pensar nessa possibilidade – você vai cair duro no asfalto. Drauzio alerta prudentemente para os problemas que o despreparo e o desconhecimento podem acarretar, mas, no fundo, este é um livro que encoraja – não importa que idade você tenha.

O pessoal de corrida de aventura tem uma frase que fiz minha: “A dor é inevitável; o sofrimento é opcional”. Você vai exigir do corpo, vai surrá-lo, o corredor é um obcecado pelo próximo desafio, o próximo, o próximo, mas é possível compreender, juntamente com Drauzio, que o corpo sempre será soberano na hora de determinar qual é o seu limite. O principal objetivo, e o mais óbvio de todos, de quem corre é não se machucar. 

Para esportistas como Drauzio e, modestamente, também como eu, outro atrativo da corrida é desenvolver o prazer de ser turista em sua própria cidade. Integrar-se a ela, palmilhá-la, percorrê-la ao rés do chão, desfrutá-la de um ângulo novo – eis aí um presentão de perder o fôlego.