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Número 862,

Política

Seu País

Marina rumo a 2018

por Marcos Coimbra publicado 11/08/2015 03h39
Ao se descolar dos movimentos pró-impeachment, ela rejeita o papel de coadjuvante
Leo Cabral
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Marina larga bem e não tem adversários internos em relação aos quais precisa se impor

Os resultados da eleição presidencial de 2014 fizeram bem a alguns dos candidatos derrotados e mal a outros. Marina Silva é quem parece ter mais aprendido. Aécio Neves é exemplo de quem andou para trás.

A ex-senadora, em pronunciamentos e entrevistas recentes, revela-se muito mais próxima hoje daquilo que dela esperavam seus simpatizantes durante a campanha. Naquele momento, provavelmente ainda sob a decepção de ter de concorrer ligada a partidos e políticos com quem tinha pequena afinidade, Marina assumiu um tom pouco condizente com sua biografia. Quis tornar-se algo que não podia ser, considerado seu passado e trajetória.

 A radicalização antipetista não fazia sentido para alguém como ela e foi a incongruência que mais a deixou vulnerável. Quando habilmente a campanha do PSDB explorou essa vulnerabilidade, ela ficou sem resposta. Aécio reivindicou o lugar que Marina pretendia ocupar e assim detonou sua candidatura. 

Ao contrário de muitos tucanos, Marina mostra, no entanto, ter superado o trauma de 2014. Olha para o futuro e caminha para chegar a 2018 de forma competitiva. Recusar-se a integrar a atual coalizão pró-impeachment é um passo, provavelmente o mais importante.

Depois da adesão à candidatura de Aécio Neves no segundo turno, Marina corria o risco de nunca mais escapar da subalternidade. Se não tomasse cuidado, estava-lhe reservado, na eleição de 2018, no máximo o papel de figurante de luxo, a quem apenas caberia dar cor brasileira e popular à velha oposição.

Ao deixar claro que repudia as conversas a respeito do impeachment de Dilma Rousseff, Marina mostra não fazer parte da turma que o busca a qualquer preço. Revela ser diferente da mistura de velhos e novos conservadores, saudosistas da ditadura e oportunistas de sempre, reunidos pelo ódio contra o PT e suas lideranças.

Sem ela, a coalizão pró-impeachment fica menos atraente para jovens, indivíduos preocupados com a sustentabilidade e a ecologia e progressistas descontentes com os rumos do PT. Sua presença, claro, não bastaria para levar esses segmentos a apoiar o impeachment, mas seria, com certeza, significativa. 

O caráter restrito dessa coalizão estabelece nítida diferença em relação ao quadro que vivíamos antes da saída de Fernando Collor da Presidência em 1992. Naquela quadra, os movimentos sociais favoráveis ao impeachment eram amplos e reuniam o conjunto do Brasil moderno. Agora, como mostram as pesquisas sobre o perfil dos manifestantes atuais, quem deles participa é quase exclusivamente o eleitorado de direita, em especial das facções mais anacrônicas e reacionárias.

A maioria da opinião pública os percebe dessa maneira. Em pesquisas qualitativas realizadas ao longo do primeiro semestre pelo Instituto Vox Populi, constata-se que as manifestações de 2015 contra o governo e o PT, convocadas oficialmente ou não pela oposição tradicional, perderam a característica de universalidade que aquelas de 2013 possuíam aos olhos da população. Dois anos atrás, os protestos eram “de todos” e “lutavam por direitos e melhoras para todos”. As recentes são “da classe média contrária ao PT” e “apenas defendem seus próprios interesses”.

Marina age com inteligência quando evita a companhia dos políticos pró-impeachment e se recusa a avalizar as manifestações que estimulam. Mesmo se isso implicar a perda do apoio da mídia conservadora, que tem deixado de tratá-la com a simpatia dedicada aos correligionários. Não é por acaso que ela sumiu da cobertura dos veículos de comunicação que a endeusavam quando era vista como aposta para derrotar o PT.

A presidenciável sabe o que faz. Embora diga não se preocupar em ser candidata em 2018, dessa maneira aumenta seu cacife para a próxima eleição. Mostra compreensão maior da sociedade brasileira que a velha oposição, partidária ou midiática.

Daqui a três anos, estaremos em plena eleição. Apenas de uma coisa podemos estar certos: Dilma não será candidata. O que torna praticamente irrelevante a discussão de seus atuais problemas de imagem. Do lado do PT, há ainda muita coisa para definir. Mas, nas oposições, Marina larga bem. E não tem adversários internos em relação aos quais precisa se impor.