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Número 862,

Internacional

Irã

A estrada de Teerã

por Celso Amorim* — publicado 10/08/2015 01h09, última modificação 10/08/2015 12h46
Começa a disputa ocidental pelos melhores negócios com o Irã
Fabrice Coffrini/AFP
Lula-e-Erdogan

O acordo poderia ter sido fechado cinco anos atrás se Lula e Erdogan não tivessem sido boicotados

Teve alguma repercussão na mídia internacional (pouca no Brasil) a visita a Teerã, no fim de julho, do ministro das Relações Exteriores francês, Laurent Fabius. O ministro portava uma carta do presidente François Hollande, em que este convidava seu contraparte iraniano a visitar a França. Algo que, aos espíritos mais inocentes, causaria surpresa, haja vista a resistência que Paris opunha a qualquer tipo de concessão ao regime dos aiatolás na negociação do acordo sobre a questão nuclear. O Wall Street Journal chegou a ironizar a postura de Paris e do próprio Fabius, até há pouco apontado por um veículo da mídia francesa como o “homem de ferro” nas discussões entre os P5+1 (os cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha) e o Irã.

Segundo relato de um atento analista indiano, M. K. Bhadrakumar, a mensagem do presidente francês, além do convite, estendia-se em considerações elogiosas sobre a contribuição do Irã ao desenvolvimento da ciência e da cultura. Destacava os contatos, não tão intensos assim, ao longo da História, entre a França e a civilização persa. Bhadrakumar não chega a mencionar as famosas “cartas” de Montesquieu. Naturalmente, Hollande e seu emissário esmeraram-se em ressaltar o valor da tecnologia francesa para os consumidores e o governo do Irã. Em outras palavras, Fabius levou a bandeira que precede o comércio.

Fabius-e-Rohani
O francês Fabius agora oferece diálogo a Rohani | Crédito: Atta kenare/AFP

Nada de errado nisso, embora se possa argumentar que o volte-face pudesse ter sido realizado com mais pudor e discrição. Mas os franceses têm pressa, assim como os alemães, que pouco antes haviam enviado um vice-ministro a Teerã, com propósitos semelhantes, embora sem convite, aparentemente. Outros seguirão o exemplo de Fabius e não deverá ser motivo de espanto a eventual retomada de negócios entre o “Grande Satã” e um dos integrantes do “eixo do mal”, caso Barack Obama consiga vencer as resistências no Congresso. Esse é um trajeto normal no relacionamento entre países até há pouco hostis que iniciam um processo de aproximação. Veja-se a rapidez com que se movem as relações entre Washington e Havana, também incluída por George W. Bush naquele eixo perverso e acusada igualmente de patrocinar o terrorismo. 

Todos esses movimentos são bem-vindos e demonstram que nem sempre a “marcha da insensatez” é inexorável, como querem alguns. Quanto mais integração, mais comércio, mais intercâmbio cultural e mais engajamento político e diplomático, menores as possibilidades de conflito e maiores as oportunidades de cooperação, inclusive em assuntos relativos à paz regional e mundial. 

Essa evolução nos faz pensar no tempo perdido em relação ao dossiê iraniano. Juntamente com a Turquia, o Brasil enfrentou o desafio de percorrer a “estrada para Teerã” em um momento em que essa atitude exigia certo desassombro, apesar dos incentivos recebidos do próprio presidente dos Estados Unidos. Sempre que me pedem para comparar a “Declaração de Teerã”, de maio de 2010, com o “programa global conjunto de ação” (seria a maneira literal, embora algo rebarbativa, de traduzir o original), não me furto a reconhecer que o acordo atual é muito mais amplo e complexo, uma vez que, diferentemente da “Declaração”, resulta de uma “barganha” (restrições e inspeções, de um lado, e relaxamento das sanções, de outro).  

Encontro
Quanto mais integração, mais comércio, mais intercâmbio cultural e engajamento político | Crédito: Farzaneh Khademian/AFP

A “Declaração” de 17 de maio de 2010 era essencialmente um gesto unilateral do Irã destinado a criar confiança em seus adversários e futuros parceiros, embora chegar até ela tenha exigido, da parte do Brasil e da Turquia, árduos esforços, conforme narro no meu livro Teerã, Ramalá e Doha: Memórias da política externa ativa e altiva

O maior mérito do acordo alcançado por Brasil e Turquia foi mostrar que uma negociação séria com Teerã era possível. Esse fato foi percebido, entre outros, pela ex-assessora de Planejamento da Secretaria de Estado dos EUA, Anne-Marie Slaughter, que, preocupada com a iminência de uma ação armada, sugeriu, cerca de dois anos depois, em um artigo no Financial Times, que se voltasse a olhar para a “Declaração” como possível base para uma negociação entre o Ocidente e Teerã. 

Volto a dizer: todos os passos dados agora, em que pese as objeções de setores mais conservadores, merecem ser saudados, por nos conduzirem a um mundo mais pacífico e seguro, fato que tem sido repetido à exaustão pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry. E não foi só a “comunidade internacional”, ou que nome se queira dar ao grupo de países condutores das negociações, que perdeu tempo com a rejeição ao acordo de 2010. O Brasil tampouco se empenhou, como poderia ter feito, em um relacionamento mais profundo com o Irã.  Em consequência, deixamos de ser um ator relevante na construção do quadro geopolítico pós-acordo e ainda perdemos a chance de trilhar a “estrada de Teerã” não só com a nossa mensagem pacifista, mas também com os nossos bens e serviços em direção aos bazares persas, ora objeto de tantos olhares cobiçosos.  

*Foi chanceler durante os dois mandatos de Lula e ministro da Defesa no primeiro governo Dilma.