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Número 861,

Política

Operação Lava Jato

Lava Jato: Copa e obras em MG ficaram pelo caminho

por Henrique Beirangê publicado 06/08/2015 04h28
Documentos e planilhas de dois casos pouco explorados até agora indicam uma investigação ainda mais longa
Nélio Rodrigues/ Estadão Conteúdo
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O ex-secretário Paulo Paiva e seu subordinado Fernando Janotti "fiscalizam" a obra em Belo Horizonte. O preço final subiu quase 400%

Após um ano e quatro meses, a Operação Lava Jato acumula números expressivos. As 16 primeiras fases levaram à abertura de 160 inquéritos, à investigação de 500 suspeitos, 96 mandados de prisão, 53 pedidos de cooperação internacional, 28 denúncias e 30 condenações, sem contar os 42 políticos cujo destino depende do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo os investigadores, os prejuízos à Petrobras somam 19 bilhões de reais. Na última terça-feira 28, o caso avançou sobre o Programa Nuclear Brasileiro, com a prisão do almirante Othon Pinheiro, ex-presidente da Eletronuclear. Na segunda-feira 3, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, condenado no "mensalão", foi preso

Em uma investigação tão complexa e com tantas ramificações, é natural que algumas pontas fiquem soltas pelo caminho. Como define nos bastidores o ministro do STF Teori Zavascki, na Lava Jato, quando se puxa uma pena, vem uma galinha. E a sensação é de que o galinheiro ainda está longe de ser devidamente preenchido. CartaCapital selecionou dois casos que ainda podem resultar em apurações futuras, dado o emaranhado de nomes, planilhas e menções a contratos. São eles:

Obras em Minas Gerais

 Um arquivo encontrado durante a busca e apreensão na casa de Dalton Avancini, ex-presidente da Camargo Corrêa, detalha o relacionamento da construtora com os responsáveis por obras em Minas Gerais nos tempos dos governos de Aécio Neves e Antonio Anastasia, hoje senadores. Avancini já foi condenado a 15 anos de prisão por envolvimento no escândalo da Petrobras, mas acabou beneficiado pelo acordo de delação premiada.

Se a sentença for mantida por instâncias superiores, o executivo cumprirá dois anos em regime semiaberto. Para prosperar, a investigação em Minas precisa despertar o interesse do Ministério Público do estado. Procuradores estaduais têm liberdade de solicitar à força-tarefa instalada em Curitiba a documentação referente aos contratos. 

No computador de Avancini havia uma pasta de arquivos com um sugestivo título: “Item arrecadação”. No relatório de análise de mídia 335/2015, surge uma série de nomes de funcionários do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais e do ex-secretário estadual de Transportes Paulo Paiva. Os arquivos, dizem os investigadores, referem-se à obra da Linha Verde na capital Belo Horizonte.  

A Linha Verde, lançada em maio de 2005, é um conjunto de obras viárias que incluiu intervenções nas avenidas Andradas e Cristiano Machado, além da Rodovia MG-010. Uma via de trânsito rápido, com 35,4 quilômetros de extensão, para ligar o centro da capital mineira ao aeroporto de Confins. A planilha de Avancini indica que as estimativas de gastos eram bem mais modestas no início das obras. Um arquivo em formato de apresentação inclui a previsão de 99,9 milhões de reais. Em 2006, o valor saltou para 139,6 milhões. 

O executivo, avalia a força-tarefa, esforçava-se para aumentar os gastos na obra. Ele descreve em uma das mensagens: “Relacionamento vem transcorrendo de forma adequada. Existem ações a serem tomadas para garantir andamento da obra e revisão de valores contratuais”.

Realmente, os custos foram revistos. Os investimentos na Linha Verde totalizaram 483 milhões de reais, alta de 382%. Aécio Neves, então governador, assinou o contrato. O nome de Paiva, seu secretário de Transporte, aparece logo antes do de um subordinado, Fernando Janotti, secretário-adjunto. Os dois acompanhavam de perto o andamento do projeto, como revelam fotos do período.

 Na sequência dos dois nomes desfia-se a indicação de uma lista de funcionários do DER e uma tabela de valores que totaliza 34 milhões de reais. Por que os nomes aparecem na planilha de Avancini? A que se referem os valores? Qual o motivo de insistir na revisão dos valores da obra? São perguntas ainda em aberto. Vários desses funcionários continuam a ocupar cargos no órgão estadual ou arrumaram emprego na prefeitura de Belo Horizonte.

Copa do Mundo

Outro mistério a ser elucidado vem da rede de relações do doleiro Alberto Youssef. Em uma das mensagens interceptadas pela Polícia Federal, uma das filhas do doleiro garante que o pai arrumaria emprego para uma delas na Organização das Nações Unidas. “O pai disse que vai arrumar um estágio na ONU para a Su.”  

Diz o relatório da Polícia Federal: “Chama muito a atenção uma anotação em que, possivelmente, Taminy (filha do doleiro) escreve que Alberto Youssef vai ‘arrumar’ um emprego na ONU para sua outra filha Surraily. Tal indicação demonstra a influência do alvo”.  Não há informações sobre o suposto contato do contraventor nas Nações Unidas. 

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Fornecedora da Petrobras obteve contratos na Copa de 2014, com apoio de Paulo Roberto da Costa. Créditos: J.P Engelbrecht/PCRJ

A força-tarefa também não se debruçou sobre os contatos de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, no mundo do futebol. Documentos apreendidos em sua casa expõem seu envolvimento em negócios esportivos. Um dos documentos é uma procuração em nome de Alberto Antonioli, italiano dono de uma empresa chamada Value Partners. A companhia participou do Consórcio Copa 2014, responsável pelo “suporte de gerenciamento” ao Ministério do Esporte no Mundial no Brasil. O contrato somava 15 milhões de reais. 

O Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a auditar os contratos e encontrou irregularidades nos pagamentos feitos ao consórcio integrado pela Value Partners. O Ministério do Esporte desembolsou 48 milhões de reais por quatro anos de consultoria. Custo 270% superior ao preço inicial previsto, de 13 milhões. Nas auditorias do TCU, foi identificado o pagamento a funcionários cuja prestação de serviços não restou comprovada.

 A Value Partners não atuava apenas no meio esportivo. Segundo documentos apreendidos na casa de Costa, a empresa detinha um “contrato de consultoria” para serviços na Petrobras na área “de eficiência energética”. 

O envolvimento de Costa em contratos do Ministério do Esporte é mais um mistério da Lava Jato, uma operação com começo certo, mas sem fim à vista. 

 

*Reportagem publicada originalmente na edição 861 de CartaCapital, com o título "Fiapos soltos no meio do caminho"