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Número 861,

Cultura

Documentário

Abraçado ao violão

por Ana Ferraz publicado 07/08/2015 01h54
Documentário quer devolver Garoto ao centro da cena cultural brasileira
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Com o violão tenor que o consagrou, Garoto brilhou em Hollywood ao lado de Carmen Miranda e do Bando da Lua.

O menino avoado assiste entediado a uma aula de religião na Escola Noturna Santo Antônio do Pari. O professor, e padre, discorre sobre “um homem extraordinariamente dotado, enviado por Deus à Terra, conhecido como Jesus de Nazaré”. Ao notar a indisfarçável desatenção do aluno, o mestre lhe pergunta quem era o ser iluminado de que falava havia pouco. “Ernesto Nazareth”, responde prontamente Aníbal Augusto Sardinha. Aos gritos de “sacrilégio”, o vetusto preceptor exige que o pupilo explique quem é esse sujeito que ele ousa confundir com o Salvador. “É um compositor de choros.” A réplica vem embalada em fúria: “E eu falei em compositor de choros?” “Mas o senhor não falou num homem extraordinariamente dotado?”, pergunta o menino, olhar mergulhado em perplexidade.

Aos 11 anos, Aníbal deixava claro seu universo particular devotado à música. Tudo o mais tinha de se contentar com um distante e pálido segundo plano. Em foto histórica, o garoto do banjo, como se tornou conhecido num primeiro momento, entrelaça as mãos no braço do instrumento. As calças curtas e o corpo miúdo denunciam a idade tenra, em contraste com o semblante compenetrado de quem não está ali para brincar de fazer música. Desde os 5 anos, toca o violão do irmão. Passa a dominar bandolim, violão tenor, cavaquinho, guitarra portuguesa e guitarra havaiana, entre outros, 14 instrumentos de corda no total.

O menino nascido em São Paulo, em 1915, de pais imigrantes portugueses, moradores da Vila Economizadora, no Centro, não tarda a seduzir devotos com a habilidade musical precoce. O virtuosismo estende-se à composição e aos arranjos. Em breve, o bigode fino e o smoking exibem sua chegada à idade adulta, mas o apelido, Garoto, vai acompanhá-lo até o fim. E é com esse epíteto que arrebata Hollywood, convocado para acompanhar ao violão a esfuziante Carmen Miranda no filme Serenata Tropical  (1940). A rainha do chica-chica-bum surge bamboleante no cenário que remete a uma hacienda, ancorada pelo Bando da Lua e apoiada pelo dedilhado endemoniado de Garoto, postado em cena metido numa fatiota de chicano. Tocaria também na Casa Branca, para o presidente Franklin D. Roosevelt.

Um dos mais expressivos representantes da era de ouro do rádio, Garoto não foi apenas um multi-instrumentista virtuose, o que não seria pouco. Foi o pai do violão moderno brasileiro. “Antes dele, o violão era meio quadrado”, comparou Baden Powell. “Se ele não tivesse existido, não estaríamos aqui”, ponderou Rafael Rabello. “Garoto dignificou o violão”, avalia o pesquisador e produtor musical Lucas Nobile, integrante da equipe que prepara o documentário Garoto – O Gênio das Cordas, previsto para estrear no primeiro semestre de 2016.

O projeto começou a surgir em 2014, numa conversa entre Nobile e o pianista Henrique Gomide. “O que Garoto deixou gravado representa só a ponta do iceberg de um vasto repertório de composições. Centenas de choros e canções são ainda desconhecidos do público. E muita coisa se perdeu nos incêndios que incineraram boa parte dos arquivos da Rádio Nacional, incluídos os arranjos orquestrais de temas autorais e de mestres como Américo Jacomino (Canhoto) e João Pernambuco, feitos para o programa Diabruras do Garoto”, descreve Gomide, diretor musical do documentário.

O cavaquinista e pesquisador de choro Henrique Cazes, que em 2007 lançou o CD Vamos Acabar com o Baile – A Música de Garoto, tenta explicar o fenômeno Aníbal Augusto Sardinha. “Garoto foi morar no Rio de Janeiro na década de 1940 e passou a conviver diariamente na Rádio Nacional com uma grande liderança modernizadora, o maestro Radamés Gnattali. No mesmo ambiente transitavam outros modernizadores, como Zé Menezes, Laurindo Almeida e Ismael Neto. Entre 1940 e 1955, quando morreu, absorveu informações e dialogou com outros universos musicais, como o clássico e o jazz. Sua música é o resumo dessa experiência.”

Os acordes dissonantes e as escalas de tons inteiros que Garoto e Gnattali faziam na década de 40, como na música Jorge da Fusa, foram inovações harmônicas depois fartamente usadas pela turma da Bossa Nova, diz Jorge Mello, autor da biografia Gente Humilde – Vida e Música de Garoto (Edições Sesc SP). “Garoto foi o primeiro violonista a se apresentar na condição de solista no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, acompanhado de orquestra sinfônica”, afirma o autor, que por 15 anos pesquisou a vida do instrumentista, cujo centenário de nascimento é celebrado neste ano.

Consultor do documentário, o biógrafo mantém conversas constantes com Cazes sobre estratégias para que mais músicos se interessem pelo compositor. “A verdade é que a música dele dá grande trabalho para preparar. Com um ano de estudo um aluno consegue tocar metade do repertório de Jacob do Bandolim, mas para tocar Garoto vai ter de estudar um bocado mais. A geração mais nova, com melhor formação musical, precisa encarar esse desafio”, afirma o cavaquinista. “O fato de apenas Paulo Belinatti, eu e Marcello Gonçalves termos feito trabalhos exclusivamente sobre Garoto nos últimos 30 anos mostra que não é fácil. Mas posso garantir aos mais jovens que é um grande aprendizado.”

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Henrique Cazes (à esq.) e Marcello Gonçalves, um CD inteiro dedicado à ampla obra violonista Créditos: Leo Aversa

O autor de Gente Humilde, melodia plangente que Baden apresenta na década de 1960 a Vinicius de Moraes e constituirá a primeira parceria do poeta com Chico Buarque, tinha o talento de ser uma antena ligada nas novidades musicais e incorporá-las à música brasileira sem que esta perdesse identidade. “Garoto fazia choros modernos que continuavam sendo choros. Novos acordes, novos conceitos musicais, novas possibilidades”, conta Rafael Veríssimo, diretor do documentário. “A partir daí fez evoluir o violão brasileiro harmônica e tecnicamente e influenciou todos os bossa-novistas, que eram jovens em começo de carreira quando Garoto já era ‘o cara’, e violonistas posteriores de renome como Baden Powell e Raphael Rabello.”

No garimpo de pepitas legadas por Garoto (233 músicas, segundo levantamento feito por Mello), Gomide peneira temas ligados a fatos relevantes da trajetória do homenageado, entre eles a valsa pouquíssimo conhecida Luar de Areal, composta no sítio dele em Areal, interior do Rio de Janeiro, onde era vizinho de Gnattali. E destaca temas como Sinal dos Tempos, Nosso Choro e Enigma, bons representantes da revolução que Garoto promoveu como compositor. “Essas músicas mostram que ele foi um filtro das mais ricas influências da música erudita e do jazz, aplicando-as com sensibilidade a uma linguagem essencialmente brasileira.”

Ao abordar o impacto do artista sobre a Bossa Nova, o documentário explora detalhes curiosos acerca da canção Duas Contas (“teus olhos/ são duas contas pequeninas/qual duas pedras preciosas/ que brilham mais que o luar”), “verdadeiro hino de toda a geração bossa-novista”. Carlos Lyra, aluno de Garoto, resume o sentimento geral de seus contemporâneos: “Não havia ninguém que não tivesse veneração por ele”.

Em fase de captação de recursos (“até agora fizemos tudo na base da ‘guerrilha’, com escassos recursos próprios, em espírito de colaboração de parceiros e entrevistados”, diz o diretor), o filme coproduzido pela Lente Viva e TC Filmes e orçado em 1,2 milhão de reais dá voz a músicos como Paulinho da Viola, João Donato, Izaías Bueno, Hamilton de Holanda e Roberto Menescal, e registra o último depoimento de Zé Menezes, maior discípulo de Garoto, que morreu aos 92 anos, dois meses após a gravação.

O desaparecimento precoce aos 39 anos, ocorrido antes do advento da televisão, é um dos motivos de Garoto ter sido relegado às brumas de um passado sepultado com o fim da era do rádio. O Gênio das Cordas quer devolver o músico ao primeiro plano da cultura brasileira e mostrar a quem nunca ouviu falar dele por que Woody Allen no filme Radio Days escolheu o solo de Garoto em South
American Way
para iluminar a cena em que a família se reúne em torno do aparelho a válvula para ouvir e dançar.