Você está aqui: Página Inicial / Revista / Desajuste / O jogo da amarelinha de Godard
Número 860,

Cultura

Cinema

O jogo da amarelinha de Godard

por Rosane Pavam publicado 30/07/2015 04h27
No primeiro longa em 3D, "Adeus à Linguagem", Godard é mais Godard
o-jogo-da-amarelinha

Farto de tudo, o diretor transforma a arte cinematográfica em outra coisa intrigante qualquer

Desde seu primeiro longa-metragem, Acossado, em 1960, Jean-Luc Godard parece desinteressado da lógica da pequena história. Os enredos de que o diretor se serve enlaçam os personagens como um incômodo, um truque a ser obrigatoriamente revelado ao espectador. Ele fragmenta os fatos e os diálogos em busca de outra lógica, a do contexto histórico, do fato transformado em categoria do pensamento. Neste trabalho que talvez se possa intitular investigativo, o cineasta transforma a arte cinematográfica que todos dizem amar em alguma outra coisa intrigante qualquer.

Seu cinema é como um jogo de amarelinha, quase um livro de Julio Cortázar que se pode ler a partir de qualquer ponto. A questão que tem dividido o pequeno mundo dos artífices tem se resumido a saber se isto destruirá o cinema ou o renovará. Ninguém ainda deu a boa resposta, enquanto Godard continua a fazer o que só ele decidiu alcançar.

Se pensamos em sua fotografia, ela funciona como a ilustração de um livro extraordinário. Todas as peças se apresentam luminosas, entre a imagem digital e a analogia do passado. Assim é em Adeus à Linguagem, seu primeiro filme no formato 3D, vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes em 2014, que estreia nas salas brasileiras dia 30. A música, como em outros filmes, vem editada aqui na sua dramaturgia intensa, inconclusa. Os letreiros ilustram e denunciam uma construção. Os atores mal-humorados, diante dos livros, dizem as coisas bem-humoradas, a confundir e desordenar a percepção do espectador.

“Chega de palavras!”, diz uma das atrizes aparentemente em fim de relacionamento amoroso, enquanto um cão que ronda sua vida se vê livremente inocente diante da grande natureza. O animal é central na narrativa porque se libertou da língua, a representar a força imanente em nós. Farto da transcendência, Godard reivindica viver o que não é permitido aos homens agora, sua inteireza, a fisiologia que a todos iguala, a beleza da chuva, o sol, as folhas amarelas, a água gelada. Seu 3D coloca o espectador diretamente dentro da cena, essa que ele constrói divertidamente com um objeto em primeiro plano, muitas vezes, uma cadeira. Godard está farto de tudo enquanto, a seu modo, tudo reconstrói.

*Publicado originalmente na edição 859 de CartaCapital, com o título "O jogo da amarelinha"