Você está aqui: Página Inicial / Revista / Desajuste / De bar em bar
Número 860,

Sociedade

Cervejas

De bar em bar

por Rodrigo Casarin — publicado 01/08/2015 05h02
Edson Carvalho cruza o Brasil com um objetivo: beber todas as cervejas produzidas no País
edson-carvalho

No blog Viajante Cervejeiro ele descreve sua jornada, iniciada no ano passado

Não tenho nenhuma grana. Vou conseguir arrumar dinheiro em algum canto ao menos para me manter? Onde vou dormir? Como vou viajar de uma cidade para outra? Se não der certo, como fico? Recomeço? Volto para onde?

Ao completar 34 anos, Edson Paulo de Carvalho andava consumido por várias perguntas. Sem filhos, casa e carro, longe de levar uma “vida-padrão”, estava prestes a iniciar um projeto audacioso. Convenceu-se de que as preocupações não passavam de fantasmas. Também queria inventar um novo trabalho, passar um tempo a viajar e conhecer as velhas e novas regiões produtoras de cerveja no Brasil. A estrada era a única saída.

Formado em publicidade, Carvalho sempre foi inquieto. Mais de uma vez largou um emprego fixo para se aventurar pelo mundo. Viagem, para ele, não é passar um fim de semana na praia ou em um hotel no campo. É colocar o pé na estrada por 3, 6, 12 meses. Aprendeu a gostar da estrada antes de apreciar de verdade as “geladas”. Em 2007, na Espanha, experimentou uma cerveja diferente das amarelas aguadas com as quais estava acostumado. Apaixonou-se e transformou em hobby a degustação da bebida. A paixão levou-o a trabalhar em uma rede curitibana de lojas de cerveja, o que lhe deu experiência, conhecimento e formação (tornou-se sommelier). O chamado da estrada voltou, no entanto, a movimentar suas entranhas e Carvalho começou a imaginar como unir as duas paixões: cerveja e viagem. Nasceu daí o blog Viajante Cervejeiro e, mais do que uma página na internet, um plano de vida, um propósito. 

O publicitário vendeu seus poucos pertences, rompeu o contrato de aluguel e, em meados de 2014, juntou tudo o que precisava em uma mochila. Sem dinheiro, decidiu viajar de carona e dormir onde o aceitavam. “Sou um sem-teto”, brinca. Para ganhar dinheiro, daria palestras e organizaria degustações em bares. Todas as aventuras seriam detalhadamente registradas no blog. Loucura? Não. Enquanto conversávamos em um bar em São Paulo, frequentadores tiravam fotos de Carvalho a distância e depois o “marcavam” em redes sociais (“quase tomando umas com o Viajante Cervejeiro”, empolga-se um dos fãs). Sinal de que a ideia encontrou mercado.

Antes de pegar a estrada, Carvalho calculava percorrer o Brasil em um ano. Colossal engano. Só para conhecer os produtores da Região Sul foram necessários sete meses. Deliciou-se em pequenas cervejarias e ficou satisfeito em ter contato com produtores tradicionais que apostavam em tendências modernas, mesmo em vilarejos como São Vendelino, no Rio Grande do Sul, com menos de 2 mil habitantes. 

Do Rio de Janeiro lembra a dificuldade em encontrar alguém disposto a levá-lo a um bar de cervejas no Complexo do Alemão, no exato momento em que os conflitos nas favelas recrudesceram. O passo agora é conhecer as diversas experiências no estado de São Paulo. Por onde passa, conta, vê muitos novos negócios em incubação. “O momento é de crescimento e euforia no setor, mas logo veremos quem vai conseguir sobreviver.”

Entre os admiradores, muitos dizem não ter coragem de copiá-lo por conta de suas “responsabilidades”. Carvalho compara: “Também as tenho. Primeiro com a minha própria vida, com minha família, meus leitores. Preciso estar sempre viajando e publicando, esse é o meu trabalho”, responde o blogueiro, que diz sobreviver com cerca de mil reais por mês.

O Viajante Cervejeiro lembra em especial dos momentos na estrada. Recorda do Zé, em mudança de cidade, que lhe arrumou um canto, apesar de o carro estar lotado de bagagens. No caminho, Zé chorava, seja por deixar sua mulher para trás, seja pelo fato de voltar para a casa da mãe. E de outro motorista que abriu uma exceção: “Nunca dou carona, mas olhei para você e senti confiança”. Ou de quando ficou dois dias preso em uma rodovia sem conseguir carona e, quando a conseguiu, o caminhão quebrou no meio da noite. “O que estou fazendo aqui?”

Apesar dos perrengues, Carvalho nunca pensou em desistir. “A questão é relaxar para a vida e viver. Uma coisa que tenho certa é que, se morrer, fiz o que queria fazer.” Ao desprendimento do Viajante Cervejeiro, ergue-se um brinde.