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Número 859,

Economia

Análise / Delfim Netto

Vitória de Pirro

por Delfim Netto publicado 22/07/2015 04h35
Abre-se nova chance para gregos e troianos negociarem de forma mais séria e realista
Makis Sinodinos

É ainda muito cedo para filosofar sobre as profundas consequências econômicas e geopolíticas da não resolvida batalha da Grécia. Antes de mais nada, vamos combinar três coisas: 1. Que só a miopia ou a necessidade estratégica do Ocidente pode explicar os favores concedidos à Grécia para aceitar o euro como sua moeda, dada a sua secular irresponsabilidade fiscal. No longo prazo, a pedestre restrição da economia costuma dominar a metafísica “vontade” política. 2. Que em alguns países da Eurolândia, depois de sete anos de “austeridade”, existe uma distância enorme entre o “PIB potencial” e o nível da demanda agregada, além de uma distância abissal entre a taxa de desemprego “natural” e a atual. Isso sugere que o que falta mesmo é “demanda efetiva”, que não será gerada por um programa que se esgota em “mais austeridade”. 3. Que os 227 bilhões de euros de “ajuda” à Grécia desde 2008 salvaram o sistema bancário credor e despejaram todos os seus custos no lombo da população.

A peculiaridade do desafio grego implícito na rápida e inesperada consulta popular de 5 de julho é que ele foi produto:

1. Da enorme diferença, ainda não reconhecida, que fará no futuro o crescente empoderamento da cidadania em todos os países.

2. Do reconhecimento que o programa de austeridade posto em prática nos últimos sete anos, derivado da “teologia” acumulada pelos tecnocratas que dominam as burocracias de Washington, Frankfurt e Bruxelas, não entregou o prometido. A Grécia também não entregou o que prometeu!

3. Do deliberado propósito de desafiar a “ciência” e o poder daquelas burocracias. Foi isso que levou Tsipras a buscar Yanis Varoufakis, um acadêmico que conhece a economia do mainstream, admira Keynes, tem um evidente viés marxista e é especialista em teoria dos jogos. Simpático, dissimulado e narcisista, empurrou sem pressa e alguma arrogância as negociações até a exaustão e à exasperação dos burocratas.

Encerrado o referendum, era certo que a tarefa de Varoufakis tinha terminado. O que fez, então, o primeiro-ministro? Nomeou para substituí-lo outro acadêmico, Euclid Tsakolotos, também conhecedor do mainstream e com um elegante tempero do morno marxismo da Universidade de Oxford. Em 9 de julho, o próprio Tsipras apresentou seu programa. Contém concessões significativas que negam a sua promessa eleitoral, e, pior, não foi aceito pela tecnocracia da Troika, o que politizou completamente a decisão. Como tudo vai terminar será, ainda, uma longa história. Tsipras deve sair muito mal. Para seus eleitores será um estelionatário. Para os ministros da Comunidade Europeia, a provocação do seu esquerdismo infantil retirou-lhe a credibilidade que agora fará muita falta. Não tem como garantir que o seu compromisso da madrugada do dia 13 será levado a bom termo.

O “Não” grego não sugeria o apoio à irresponsabilidade fiscal. Não foi a vitória da “antiausteridade”. Repudiou o equivocado “excesso” de austeridade, transformado em um fim em si mesmo, exigido como preliminar do crescimento e não construída simultaneamente com ele. Os Estados Unidos mostraram haver políticas fiscais e monetárias mais inteligentes que, mesmo quando não levam a uma rápida recuperação do crescimento, mitigam o desemprego, o que é o mais importante.

Talvez o maior e mais duradouro efeito do referendum que empoderou o governo grego seja de ordem moral. O mundo informou-se melhor sobre a origem das graves crises financeiras que se espalharam depois de 2008. Elas foram resultado do irresponsável comportamento dos devedores, somado à imoralidade ínsita da busca de lucro no curto prazo pelo sistema financeiro. A Troika também terminou muito mal. Tão mal que o FMI, em 3 de junho, abriu uma dissidência: reconheceu não haver solução fora de um novo hair-cut, isto é, de mais um perdão da dívida. Isso para não falar da visível “saia justa” do assustado François Hollande diante da musculatura de Angela Merkel.

Aos trancos e barrancos abriu-se mais uma possibilidade política de diálogo. Que ele seja mais sério, mais realista, mais racional e mais generoso. Será criminoso perdê-la pela eventual incapacidade de “gregos” e “troianos” se moverem de posições ideológicas cujos resultados já conhecemos.