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Número 859,

Cultura

Beleza

Boquinhas pintadas

por Redação — publicado 02/08/2015 05h24
O batom faz 100 anos. Mas a mística da sedução pelos lábios é milenar
Audrey-Hepburn

A arte do retorque por Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo

Às vezes, um batom é só um batom, poderia ter dito Sigmund Freud a propósito de um acessório das lidas diárias femininas ao qual ele não deu a importância simbólica que dedicou ao igualmente fálico – e masculino – charuto. 

Na verdade, o batom é mais ou menos contemporâneo da psicanálise, pelo menos na forma em que o batom – e a psicanálise – acabaria definitivamente por ter, ao final traumático da belle époque, na reacomodação institucional do primeiro pós-Guerra.

As coquetes e as nem tanto devem a um certo Maurice Levy, industrial americano de cosméticos baratos e inventor diletante, a criativa solução do pequeno cilindro de metal de onde, acionado por uma alça lateral, poderia escorregar, para cima e para baixo, o totêmico artefato labial. 

A partir de  1915, o lipstick de Maurice Levy, embelezado com o nome afrancesado de bâton, se espalhou mundo afora. Hoje comercializam-se, a cada dia, 3 milhões de unidades da criação de Levy. 

Invento agora centenário para o milenar artifício feminino de reforçar, pela boca, os feitiços da sedução. Como costuma acontecer quando as verdades históricas ficam meio embaçadas pelo tempo, aos sumérios de 5 mil anos atrás atribui-se a prerrogativa do pioneirismo, com o hábito de macerar determinadas pedras coloridas e esfregar o pó nos lábios e em torno dos olhos. 

Liz-Taylor
A diva Liz Taylor em Butterfiel 8

A palavra sumérios, aí, é genericamente adequada, já que esse povo se entregava ao expediente da decoração pessoal, tanto mulheres quanto guerreiros. No entanto, foi no Egito que os diabólicos acessórios de embelezamento se aperfeiçoaram, muitos séculos antes das atuais séries bíblicas da TV Record. Todo o primeiro escalão dos exércitos invasores de Roma – Júlio César e Marco Antônio incluídos – provou do veneno labial de Cleópatra, que era obtido a partir de uma fórmula em que entravam resinas púrpura de uma árvore e uma substância brilhante encontrada nas escamas de certos peixes do Nilo.  As imagens beiçudas da lendária Nefertiti atestam que as egípcias nobres dominavam com notável eficiência as artimanhas preliminares ao amor. 

Os adornos de lábios se sucederam em altos e baixos, nas idiossincrasias das culturas e no atropelo das civilizações. Imaginem só que o primeiro notável da cosmética foi um mouro, Abu al-Qasim al-Zahrawi, que, na sua Abdalusia da Era Dourada, produziu a primeira pintura bucal de forma sólida – e perfumada. Os islamitas, à época, não se submetiam a tabu algum em relação à beleza e ao erotismo.   

Altos e baixos: a rainha Elizabeth I, solteirona, mas assanhada, inspirou a moda dos lábios vermelhos sobressaindo de uma face tão empoada como a de uma gueixa oriental, mas nessa mesma Inglaterra, tempos depois, em 1770, um membro puritano do Parlamento tentou passar uma lei permitindo a anulação de um casamento se ficasse apurado que a noiva usou cosméticos antes do dia das núpcias.  

Marilyn-Monroe
Marilyn Monroe explorou o arsenal colorido da boca
Do outro lado do Canal, os franceses, sempre tão expansivos em seus ornamentos corporais, não nutriam maiores constrangimentos em abusar dos matizes bucais – fossem madames ou monsieurs, pedestres ou chevaliers. Não por acaso, daqueles retratos clássicos das supremas cortesãs, tais como a Madame de Pompadour, amante de Luís XV, por François Boucher, ressalta, além do colo audacioso e das bochechas rosadas, a atração imperiosa dos lábios.

“O batom apoderou-se da imaginação feminina mais violentamente do que nenhum outro dispositivo da moda”, escrevia, em 1923, o escritor americano Alexander Black, oito anos após o invento de Maurice Levy desembarcar nas penteadeiras e se disseminar pelos boudoirs. O cinema, que se convertia então no entretenimento das massas, propagou o efeito e, a partir dali, não existe diva em Hollywood – e, por extensão, no show business – que se apresente nas telas e nos palcos sem uma boquita pintada. 

Ainda que os estilos possam naturalmente variar. Há uma elegância intrínseca, categórica em Audrey Hepburn ao retocar o batom dentro de um yellow cab nova-iorquino, mesmo quando ela representa aquela Holly Golightly de reputação duvidosa a caminho de casa, às 5 da manhã (Bonequinha de Luxo/Breakfast at Tiffany’s, de 1961). Na mesma frequência de call girl de luxo, Elizabeth Taylor aproveitou seu batom como arsenal duplo de sedução e revanche, em Butterfield 8 (de 1960, no Brasil O Número do Amor).

As pin-ups de papel e as cover girls de Playboy também não podem passar sem um batonzinho, mas pouca gente sabe manuseá-lo tão bem quanto um rapagão de 1,90 metro, que, aliás, tem um nome feminino: o roqueiro Marilyn Manson. Deve ter aprendido com sua parceira de alcova e de make-up: a estrela do burlesque Dita von Teese. 

O que é estandarte do belo virou arma do trágico na mão de Romy Schneider, estrela decadente  no filme L’important c’est d’aimer, do polonês Andrzej Zulawski (França, 1975). Ali, o batom que alegra é o mesmo batom que exprime a impotência do desespero. 

Romy-Schneider
Romy Schneider em L`important c`est d`aimer, de Andrzej Zulawski (França, 1975)
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