Você está aqui: Página Inicial / Revista / Francisco contra os donos do dinheiro / Bolhas e bolhas
Número 859,

Economia

Crise Mundial

Bolhas e bolhas

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 24/07/2015 03h52
Os problemas da China nem de longe se parecem com as agruras na Europa e as novas incertezas nos EUA
Estela Maris

Nos tempos de crise na Grécia e ameaças de subida do juro básico nos Estados Unidos, os achaques dos mercados ganharam o reforço dos temores com as trepidações na Bolsa de Valores da China.

O grego Alex Tsipras padece as dores da certeza. Certeza do fracasso do novo programa de ajuste imposto pela tecnocracia europeia. O último relatório do Fundo Monetário Internacional sobre as possibilidades de sucesso do ajuste deixa claro: a dívida soberana da Grécia vai bater em 200% do PIB em 2020. Sem reestruturação não há solução.

Janet Yellen, presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA, faz que vai, mas não vai. É “enrolation” da senhora Yellen quando diz observar o mercado de trabalho. Ela sabe que esse mercado vai demorar para aquecer de verdade, engasgado nos empregos precários e de baixa remuneração. Até um economista de mercado brasileiro sabe que o risco da subida dos juros está na desvalorização do monumental estoque de ativos (ações e bônus públicos e privados avaliados e emitidos com preços avantajados e, por isso, com rendimentos nanicos). É mais arriscado sair do que entrar no Quantitative Easing.

O mais recente relatório do Banco de Compensações Internacionais reconhece as peculiaridades da finança nascida das intervenções recentes dos Bancos Centrais da Europa e dos Estados Unidos. “Em vez de financiar a aquisição de bens e serviços, o que eleva os gastos e o produto, a expansão do crédito está simplesmente financiando a aquisição de ativos já existentes, sejam eles ‘reais’ (imóveis ou empresas), sejam financeiros.” 

Na China, a valorização das ações é digna dos melhores momentos de uma especulação altista turbinada a crédito. Na reversão, como sempre, os preços recuaram em vertiginosa derrocada com as “chamadas de margem”. Em português simples, a chamada de margem ocorre quando uma forte oscilação baixista obriga o portador-devedor das ações em queda a colocar mais dinheiro de seu bolso para honrar a garantia oferecida ao financiador.

Os movimentos de preços observados não deixam dúvidas quanto à natureza do fenômeno: na China ou na Cochinchina um observador atento reconheceria uma bolha. As marcas registradas desses episódios são as explosões de crédito e de preços dos ativos e a agressiva desconsideração dos solavancos dos mercados financeiros. Enquanto a bolha cresce, a cupidez aumenta na mesma proporção em que a imprudência se torna impudente. O sistema financeiro paralelo, os bancos-sombra, nasceu e cresceu no boom imobiliário dos últimos anos. Na escalada das Bolsas, transferiram seus serviços de apoio financeiro para os 80 milhões de pequenos investidores sôfregos para enriquecer rapidamente com a capitalização. Sim, a bolha chinesa estourou: em 8 de julho o mercado de ações despencou 31% em relação ao pico de preços atingido em 12 de junho, depois de uma escalada de 150% em um ano.

Diante das aparências e semelhanças, os meios de comunicação ocidentais se mobilizaram para formar um coro de pitonisas empenhado em profetizar “um outro Lehman Brothers”. Nos baixios do “Extremo Ocidente”, a competente jornalista da Folha de S.Paulo, Patrícia Campos Mello, bateu na porta certa. Sapecou uma entrevista com o economista Stephen Roach, ex-presidente do Morgan Stanley Asia, hoje professor da Yale School of Management. Roach é autor de dois livros dignos de leitura sobre a Ásia, a China e os Estados Unidos: The Next Asia: Opportunities and Challenges for a New Globalization e Unbalanced: The Codependency of America and China.

Em artigo publicado no Slate, site de economia e negócios, Roach recorre à opinião do historiador de Yale, Jonathan Spence. Certa vez, Spence afirmou que desde os tempos de Marco Polo os ocidentais teimam em olhar para a China através das lentes que usam para avaliar a si mesmos. Esse viés enraizado, diz Roach, distorceu as análises dos economistas e conexos a respeito da bolha chinesa.

Leitor contumaz do jornalismo impresso, não fiquei surpreso com o descompasso entre as chamadas da matéria (“Há uma bolha na China”, “Ela vai estourar” e o “Efeito será Longo”) e as opiniões do entrevistado. É a festança dos editores em libações à liberdade de opinião. Roach diz: há uma bolha, ela estourou, mas os efeitos sobre a economia serão pífios, pois a perda de riqueza afeta um número limitado de investidores individuais, ao mesmo tempo que as grandes empresas não se financiam nas Bolsas, mas sim nos mercados de crédito governados pelos bancos públicos.

Parênteses: o fato não deixa de gerar efeitos sobre outros países, Brasil incluído. Diante da queda da demanda chinesa, a CSN, de Benjamin Steinbruch, busca maneiras de se capitalizar e reduzir o endividamento.

Ah, sim, pergunta a entrevistadora, na posteridade da bolha: “Como fica o projeto de reforma para aproximar a China das práticas financeiras dos mercados liberalizados do Ocidente?” Responde Roach: “As reformas vão atrasar, mas não creio que os chineses abandonem a caminhada para uma regulação mais pró-mercado do seu sistema financeiro”.

O entrevistado deveria, porém, ter dito, como observa em seu livro, que o governo chinês, leia-se o Partido Comunista, desde as reformas pró-mercado iniciadas no fim dos anos 1970, dedica-se a “atravessar o rio pulando as pedras”. As reformas são introduzidas experimentalmente, por tentativa e erro. É provável que a bolha no mercado de ações sugira às autoridades econômicas reavaliações e revisões na forma e velocidade da liberalização do sistema financeiro.

A repórter insiste: “O governo chinês interveio pesadamente nas Bolsas, suspendendo a negociação de algumas ações e determinando outros limites para conter a queda. Foi uma medida acertada?”

Roach observa: “Os chineses não são os únicos a fazer isso. Greenspan interveio pesadamente em 1987 quando a Bolsa americana entrou em colapso. Mesmo hoje temos o ‘afrouxamento quantitativo’. O governo compra títulos para injetar liquidez nos mercados e reduzir os juros”.

 Mais uma vez as lentes ocidentais impedem a compreensão da diferença. Mais nos Estados Unidos do que na Europa, a resposta dos bancos centrais e dos Tesouros à crise de 2008 comprovam a falácia da autorregulação dos mercados financeiros, uma crença vadia que só pode frequentar cérebros esvaziados por uma lavagem cuidadosa e recorrente. 

O governo chinês tem sido cauteloso diante das conclamações dos “mercadistas” internos que propõem a descompressão mais rápida do crédito, com liberação das taxas de juro. A cautela se estende para as recomendações de estímulo aos mercados de dívida “securitizada”. Temem a alta “elasticidade” dos mercados financeiros sempre sujeitos a súbitas crises de liquidez.

No pós-crise, na onda do Quantitative Easing, “mercados” dedicam-se, mais uma vez, ao esporte radical de formação de novas bolhas. As Bolsas dos EUA e os rendimentos nanicos dos bônus do Tesouro fumegam os vapores que sopram às alturas os preços dos ativos. Nas horas vagas, e nas outras também, os JP Morgans da vida se entregam à bulha da recompra das próprias ações e mandam bala na distribuição de dividendos com a grana do Federal Reserve.

Não são desprezíveis os riscos embutidos no comportamento dos mercados financeiros pós-crise, empurrados para outra bolha nas Bolsas e nos preços elevados (e rendimentos baixos) dos bônus privados e públicos. Diga-se que, no “planeta Ocidente”, são as empresas e bancos que “financiam” os mercados de ações ao tomar crédito barato para comprar de volta os papéis (buy back) negociados e abrigá-los em tesouraria, com o propósito de turbinar os preços e agradar aos acionistas, proporcionando ganhos para os administradores remunerados com stock options