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Número 859,

Política

Entrevista - Camilo Santana

“A radicalização não traz benefícios”

por Sergio Lirio publicado 23/07/2015 02h53
Camilo Santana, governador do Ceará e um dos novos expoentes do PT, clama por uma agenda positiva
Marcelo Camargo / Agência Brasil
Camilo Santana

Camilo Santana durante a campanha: ele defende que Dilma esteja aberta ao diálogo

Um dos novos expoentes do PT, Camilo Santana, governador do Ceará, anda mais preocupado com a crise política do que com a situação econômica. “O Brasil não pode ficar preso a uma agenda negativa. A radicalização não trará nenhum benefício”, afirma, na entrevista a seguir. Santana defende o fortalecimento das investigações de corrupção na linha “doa a quem doer” e o direito de manifestação das oposições, mas critica as tentativas de desrespeito à democracia e à vontade da maioria expressa nas eleições do ano passado. À presidenta Dilma Rousseff recomenda disposição para o diálogo. Ao PT, a reinvenção.

CartaCapital: Como a crise econômica tem afetado o Ceará?

Camilo Santana: Tentamos reagir com alternativas de incentivo, de estímulo ao setor produtivo. O principal objetivo é manter o poder de investimento estatal, forte nos últimos anos. Um dos caminhos é buscar parcerias com o setor privado. No primeiro trimestre, conseguimos crescer 1,5%, isso em um cenário em que o PIB brasileiro e aquele de estados como São Paulo e Minas Gerais foi negativo. A produção industrial no estado também se expandiu, segundo dados recentes do IBGE. Contamos com um grande investimento, de 5,5 bilhões de dólares, a Companhia Siderúrgica do Pecém, que será a maior do Hemisfério Sul. E lutamos para atrair o centro de distribuição de voos da TAM, que vai gerar muitos empregos, entre outros projetos.

CC: O governo federal aposta em uma retomada da economia, ainda que leve, a partir do segundo semestre. O senhor compartilha desse otimismo?

CS: Não dá para prever ainda, embora eu seja otimista. O ajuste fiscal tem efeito sobre os investimentos em estados e municípios, principalmente quando se trata das obras do PAC. No primeiro semestre, aumentou o desemprego no Nordeste, região que se notabilizava pela forte criação de vagas. Os ajustes são emergenciais e transitórios. Em alguns casos, como no seguro-defeso, eles servem para moralizar uma situação inaceitável. O Brasil já atravessou outras crises. Este ano será de muita dificuldade e muitos desafios, mas acredito que a partir de 2016 sentiremos os sinais de uma retomada.

CC: O problema é que, além de uma crise econômica, enfrentamos uma crise política sem precedentes.

CS: A crise política me preocupa mais do que a crise econômica. Vejo um quadro complexo. A oposição tem o legítimo direito de se posicionar, de manifestar-se, mas o Brasil não pode ficar preso a uma agenda negativa. A radicalização não trará nenhum benefício ao País. É o momento de desarmar os espíritos, pensar no futuro, apoiar uma visão mais patriótica e respeitar a democracia, conquistada a duras penas. Não vejo um golpe em curso. Golpe, só quando entram em cena os militares...

CC: .... O Paraguai é a prova de que golpes também são dados pela Justiça e pelo Parlamento...

CS: ... Sim, mas não acredito... Sinceramente, respeito o direito de manifestação de quem se opõe ao governo. E também acho importante apoiar as investigações. Vivemos um momento de consolidação das instituições. Precisamos combater de maneira incessante a corrupção. Punir os culpados a qualquer custo. Os cidadãos fiscalizam mais, exigem mais, e isso é muito positivo. Boa parte dessa postura tem relação com os avanços dos últimos 12 anos. O Nordeste tirou 30 milhões de cidadãos da pobreza, deu-lhes outra perspectiva. Agora, as investigações não podem servir de base para o desrespeito à democracia e ao resultado das eleições.

CC: Vários petistas reclamam do que seria um direcionamento das investigações. Elas mirariam exclusivamente o partido. O senhor concorda?

CS: É preciso respeitar o amplo direito de defesa dos acusados. Ao mesmo tempo, não se pode impedir a investigação de desvios, independentemente do partido ou do indivíduo.

Camilo-Santana
Santana, 47 anos, propõe a reinvenção do PT e apoia a união do centro-esquerda "contra o retrocesso"

CC: Que conselho o senhor daria a Dilma Rousseff neste momento de dificuldades?

CS: Sugiro diálogo, muita conversa. Não só com os demais Poderes, mas com a sociedade. Precisamos de uma agenda positiva. O Brasil não é o único a enfrentar dificuldades. Veja a Europa, olhe os efeitos da queda do preço do petróleo... Por isso o ajuste é importante, mas não a única medida a ser tomada. É necessário conversar mais com os partidos da base aliada. O momento não é fácil, mas ninguém nega o grande potencial do País para superá-lo.

CC: E o PT, qual lição deveria tirar de toda essa situação?

CS: O partido tem uma história na luta pela democracia e em conquistas importantes para a sociedade, mas precisa ser reconstruído. Ou reinventado, como falei no último congresso. Um dos problemas é o fato de muita gente ter confundido o partido com o governo, que precisa existir para além da legenda, ser um mobilizador social.

CC: O partido perdeu ou corre o risco de perder o protagonismo no espectro de centro-esquerda?

CS: Não acredito. Mas sou simpático a propostas de união das forças de centro-esquerda para evitar um retrocesso nas conquistas da última década.

CC: Como avalia a atuação do ex-presidente Lula?

CS: Ele tem dado sua contribuição e é peça fundamental nesse processo. É uma grande liderança, goza de grande respeito do povo brasileiro, é reconhecido no exterior. Lula é crucial no processo de reconstrução do PT.

CC: O que acha da redução da maioridade penal?

CS: Não vai resolver o problema da violência. Em carta, os governadores do Nordeste manifestaram-se contra a proposta. É claro que os menores precisam de mais educação e mais oportunidades, não de mais internação ou de prisão. Criamos, aqui no estado, o Pacto pelo Ceará Pacífico. Esse Pacto envolve todas as entidades sociais e Poderes constituídos. Conseguimos, neste primeiro semestre, reduzir o número de homicídios. Envolver a sociedade nessa discussão, com transparência, é um caminho mais produtivo.