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Número 858,

Internacional

Nosso Mundo

Prato à mesa, o otimismo

por Gianni Carta publicado 10/07/2015 09h19, última modificação 11/07/2015 10h16
A despeito das resistências de França e Alemanha, o acordo com o P5+1 está, tudo indica, mais próximo do que parece
Omid Vahabeh/AFP
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A chanceler da UE, Federica Mogherini, e o iraniano Javad Zarif apostam na iminência do acordo.

Qualidade, não um prazo definido. Especialmente diante da exigência, entre outras, por parte de Teerã: encerrar o embargo sobre armas convencionais imposto pelo Conselho de Segurança da ONU, em 2010. Tema a dividir os chanceleres dos seis países envolvidos nas negociações do acordo nuclear com o Irã, em Viena. Na temporária ausência de consenso para o nascimento de um acordo para pôr fim a um impasse de 12 anos, em 30 de junho o chamado P5 + 1, isto é, Rússia, China, Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, e mais o Irã, já haviam postergado as negociações para terça-feira 7. No entanto, na terça as negociações foram prorrogadas até sexta-feira 10 e depois adiadas novamente para segunda-feira 13, sob a justificativa de que as conversas se tornaram mais complicadas na reta final.

Como de hábito, China e Rússia estão dispostas a levantar o embargo sobre armas convencionais, que inclui a compra e venda de armas. E, como de hábito também, França, Alemanha, Reino Unido e EUA se opõem. Esses quatro países também não concordam em eliminar o embargo para o desenvolvimento iraniano de tecnologia, que poderia levar o país a construir mísseis. O principal temor dos chanceleres é o fornecimento ou comércio de armas do Irã com os países mergulhados em conflitos fratricidas no Oriente Médio. Algo que os iranianos fazem, aliás, há anos, ao armar o movimento xiita Hezbollah, na defesa do presidente sírio Bashar el-Assad. No entanto, a chefe da diplomacia da União Europeia, a italiana Federica Mogherini, se diz otimista, e acredita em um acordo “nos próximos dias”. 

As novas requisições por parte do Irã tiveram início logo no início do encontro em Viena, há mais de duas semanas. O aiatolá Ali Khamenei chamou então para uma conversa o ministro do Exterior, Mohammad Javad Zarif, negociador-chefe da equipe iraniana em Viena. Entre as sete adicionais demandas do Líder Supremo constam o fim de todas as sanções impostas pelos EUA e pela ONU, logo após a assinatura do acordo. Inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não poderiam investigar as atividades nucleares no Irã. Mais: visitas de inspetores estrangeiros a instalações militares seriam recusadas. Pesquisas e o desenvolvimento de programas nucleares teriam continuidade. Proibidos interrogatórios de cientistas. 

Laurent Fabius, ministro do Exterior da França, talvez o mais rigoroso negociador em Viena, postula limitações de pesquisa e desenvolvimento no âmbito nuclear. Exige transparência já nesse setor e mais revelações de programas do passado para conceber armas nucleares, provavelmente terminados em 2009. O chanceler francês também fala, com a aprovação de Reino Unido, Alemanha e EUA, sobre a necessidade de criar mecanismos para reimpor sanções do Conselho de Segurança contra o Irã, caso o país venha a transgredir qualquer aspecto do eventual acordo. De fato, os quatro países acima citados querem mecanismos automáticos para implementar sanções do Conselho de Segurança sem permitir vetos da Rússia e da China.

Por sua vez, a AIEA não ficaria satisfeita com o veto de inspecionar as atividades nucleares no Irã. Embora a agência não possa visitar instalações nucleares suspeitas sem pré-aviso, o que não seria má ideia no caso do Irã, segundo uma série de observadores como a chanceler alemã, Angela Merkel, a AIEA costuma inspecionar instalações suspeitas em diversos países. 

Merkel, cada vez mais intransigente em relação aos vizinhos europeus, talvez o seja ainda mais com Teerã. Já para Barack Obama, responsável pelas negociações que levaram às atuais, o acordo representaria uma vitória em termos de política exterior. Algo comparável às novas relações bilaterais com Cuba. É óbvio que a ascensão do moderado Hassan Rohani nas eleições de agosto de 2013 facilitou o trabalho de Obama. Ambos estavam interessados em um acordo entre dois países inimigos desde a Revolução Islâmica no Irã, de fevereiro de 1979. O presidente americano aceita os estoques de urânio do Irã, e até um cronograma para pôr fim às sanções econômicas. No entanto, sua posição quanto ao pedido de Teerã para extinguir o embargo de armas convencionais, ainda não está clara. 

O chanceler Javad Zarif escamoteia com seus frequentes sorrisos um tom desafiador, de quem busca os limites dos americanos. John Kerry, o secretário de Estado norte-americano, diz que Zarif exige maiores barganhas nas negociações, a pedido do aiatolá Khamenei, para mostrar serviço. Na fase final das negociações, contudo, os iranianos serão, segundo a tese de Kerry, mais lenientes. Mas não é bem assim. Javad Zarif também quer ver até onde ele conseguirá levar Obama. 

O presidente americano, como todos os chefes de Estado, sofre outras pressões, a começar, como sempre, em casa, isto é, as pressões do Congresso, o qual terá 30 dias para julgar o acordo, caso ele seja entregue na sexta-feira 10. Não será provavelmente o caso. Por conta do recesso legislativo, portanto, os deputados terão dois meses para estudar o acordo. O tempo mais dilatado oferece maiores poderes ao críticos e a disponibilidade em relação ao acordo poderia arrefecer. Da mesma forma, embora os iranianos e integrantes do grupo P5 prefiram qualidade a prazos, quanto mais durarem as negociações mais difícil será chegar a um entendimento satisfatório para todos. Ainda mais se Merkel e Fabius começarem a ganhar força na definição dos detalhes. Talvez a França seja o país mais cético em relação ao Irã. Além disso, outro complicador é representado pelas forças reacionárias do Congresso americano, que continuam a ver no Irã um país inimigo.

Nem por isso o pessimismo domina. Além de Mogherini, chanceler da UE, há outros otimistas, a começar por Javad Zarif. “Creio em um acordo”, diz o ministro iraniano do Exterior. Esclarece Sergei Lavrov, chanceler russo, que o embargo contra as armas convencionais imposto pela ONU é a questão-mor, mas emenda: “Acredito que o acordo possa ser selado em poucos dias”.